Se nas Dicas nos. 6 a 9 vimos perguntas ditas difíceis, vamos ver agora outro tipo que deve ser evitado: o que exige um considerável trabalho mental do respondente, ainda que sem envolver cálculos matemáticos, conhecimento de palavras difíceis ou puxões nos fios da memória.

Anos atrás, uma faculdade de engenharia cogitava ampliar o leque de cursos que oferecia. Seu diretor tinha em mente uma série de diferentes formatos de cursos e queria submetê-los à avaliação de alunos potenciais por meio de pesquisa. A intenção do diretor era, com base nas respostas, escolher um ou dois formatos para passar a oferecer nos anos seguintes, como cursos regulares da faculdade.

Como o departamento não tinha verba para bancar uma etapa qualitativa da pesquisa (recurso muito recomendável no caso), passou-se direto à elaboração de um questionário. Esse questionário contemplava, entre outras, as seguintes opções de curso: 

a) Um curso de engenharia mais técnico, voltado para a produção industrial, com 4 anos de duração

b) Um curso de engenharia especializado, voltado para projeto e pesquisa, com 5 anos de duração

c) Um curso de engenharia com dupla especialização ou dupla habilitação, com duração aumentada de 6 meses a 1 ano

d) Um curso de engenharia que forneceria uma larga visão gerencial e muitos estágios, além de uma especialização técnica, com 5 anos de duração

  E por aí ia.

Dá para imaginar o grau de concentração exigido dos respondentes para responder a essa pergunta, não dá? Se você somar isso ao fato de que os respondentes eram alunos da 3ª série do Ensino Médio, “capturados” pelos pesquisadores na porta das escolas no horário de saída, quando estavam com o estômago roncando de fome[1], doidos para voltar para casa... bem, acho que você já sabe aonde eu quero chegar.

Conclusão: repito aqui o que disse no Fique Esperto nº 10: as pessoas nos prestam um favor quando respondem aos nossos questionários. Não é justo agradecer a elas torturando-as, forçando-as a penar em nossas mãos. Evite perguntas que deem trabalho aos respondentes, mesmo quando o trabalho não envolve cálculos. Examine a pergunta e responda com honestidade: a coisa provoca um nó nos miolos dos respondentes? Sim? Então aborte.


¹Observação: mesmo que não fosse hora do almoço e que não houvesse estômagos roncando, seria muito questionável submeter os respondentes a uma trabalheira mental como a do exemplo.

Teste Teste Teste