Além das sobremesas, o que mais você gostou no nosso bufê?

Considerando a dedicação da nossa equipe em lhe proporcionar a melhor estada, como você avalia o atendimento recebido em nosso hotel?

Cada vez mais, pessoas bem informadas estão eliminando da sua dieta alimentos que contêm glúten. Você consome alimentos com glúten?

Você acha que o governo deveria investir ainda mais dinheiro de impostos na promoção de eventos culturais?

Como você avalia o desempenho do atual governador na área de infraestrutura, considerando os 600 quilômetros de estradas recém-asfaltadas no nosso estado?

Que beleza de perguntas, hein, caríssimo leitor?! As quatro são daquele tipo que, em filmes de tribunal, fariam o advogado de defesa se levantar exaltado e gritar “Protesto, Meritíssimo! O promotor está conduzindo a testemunha!”, ao que se seguiria o sereno parecer do juiz: “Protesto aceito”.

Já que mencionei tribunais, vou além: acho que o Código Penal Brasileiro deveria passar a tipificar um novo tipo de crime: a “indução dolosa de perguntas em questionários de pesquisa” – um crime inafiançável, pelo qual os culpados deveriam ser condenados a dez anos de reclusão, sem direito a banho de sol!

De fato, seria uma pena justa e merecida. Volte às perguntas dadas como exemplo. “Além das sobremesas...” Quem disse que o respondente gostou das sobremesas do bufê? Quem disse que ele ao menos experimentou alguma? Se não gostou (ou se nem as experimentou), como pode responder o que mais gostou no bufê?

Coisa parecida ocorre na introdução da segunda pergunta (“Considerando a dedicação da nossa equipe,...”). Como é que os hóspedes do hotel que pouco viram da pretensa dedicação da equipe (ou viram o exato oposto) podem considerar algo que só está na cabeça de quem redigiu o questionário?

E a questão da demonização do glúten: do jeito como a pergunta está proposta, não restam muitas opções ao pobre indivíduo pesquisado senão jurar, de mãos postas, que, Nossa Senhora, de forma alguma ingere alimentos com glúten (ainda que nem saiba o que é isso), só para não ficar mal na foto! A propósito, o mesmo tipo de reação (o indivíduo não querer admitir que faz algo não “aceito”) se dá quando a pergunta menciona nomes ou marcas de prestígio (um médico conhecido, um respeitado formador de opinião, uma empresa admirada, etc.).

Quanto à promoção de eventos culturais bancados com o dinheiro dos impostos, o respondente pode nem ter ideia de que o governo faça isso ou, se tem, o quanto investe. Mas da forma como a pergunta foi feita – especialmente em função da palavra “ainda” – ela pode levar muitos respondentes a dizer que não, pois se transmite a ideia de que o governo já gasta muito.

E, por fim, a brilhante pergunta sobre o desempenho do governador, convenientemente acompanhada da informação sobre a gloriosa realização do governo na área da infraestrutura: como falar mal de um tamanho benfeitor do seu povo?

Essa prática – condenável – de botar palavras na boca dos respondentes é um dos grandes erros encontrados em questionários de pesquisa. As perguntas tendenciosas partem de um pressuposto que pode não corresponder, nem de longe, à opinião ou à percepção dos respondentes. Isso se chama “induzir a resposta” e gera o risco de distorção dos resultados da pesquisa.

O problema da indução em perguntas de questionários é como uma praga que se insinua nas pesquisas, muitas vezes sem ser percebida – seja sob a forma de premissas que se adotam sem lastro ou licença, informações que influenciam a opinião do respondente, adjetivos ou advérbios que conferem um peso indevido a uma questão, encurralamento do respondente para não parecer diferente, fora do grupo, alienado, etc.

Quer ver um exemplo de pergunta que traz uma indução disfarçada? Dê uma olhada nesta.

Na sua opinião, as empresas que demitem empregados em épocas de queda na produção poderiam se organizar melhor de modo a evitar essas dispensas e manter sua força de trabalho empregada ao longo de todo o ano?

Seja sincero: você não acha que, exceto por quem conhece muito bem os bastidores da indústria e/ou da economia como um todo, a tendência é que as pessoas respondam que sim? Do modo como foi formulada, a pergunta parece “pedir” ao respondente que concorde! Como redigir a pergunta eliminando esse ranço? Não é difícil; basta apresentar, na própria pergunta, o outro lado da questão. Veja:

Na sua opinião, as empresas que demitem empregados em épocas de queda na produção poderiam se organizar melhor de modo a evitar essas dispensas e manter sua força de trabalho empregada ao longo de todo o ano, ou as demissões são inevitáveis às vezes?

Que tal agora, caro leitor? Como? Você está achando estranho que a mera inclusão da opção alternativa resolve o problema? Então observe os dados abaixo. São dados reais, obtidos em uma experiência feita anos atrás, em que as duas opções de redação da pergunta foram submetidas a pessoas de um mesmo público.

Diante da redação original da pergunta, as respostas foram estas: 63% concordaram que as empresas podiam evitar demissões; 22% disseram que não e 15% não tiveram opinião. Diante da versão revista, o número de respondentes que afirmaram ser possível evitar as demissões caiu para 35%; o dos que as consideraram inevitáveis subiu para 41%; e 24% não souberam responder. A “mera” inclusão de uma alternativa na redação da pergunta fez o grau de concordância cair em 28 pontos percentuais!!!

E aí, atento leitor: em qual dos resultados você acredita mais? Nem precisa responder, né?

Conclusão: Quem quer resultados confiáveis para a sua pesquisa, com vistas a aprimorar uma oferta, melhorar a qualidade de um bem ou serviço, avaliar a percepção que o seu público tem acerca de uma ideia, uma proposta, etc., deve evitar todo tipo de indução de respostas ou de tendenciosidades. Agora: se o objetivo, por trás da pesquisa, é puxar o saco de alguém, promover de forma antiética uma empresa, uma marca, uma iniciativa, fazer com que alguém “saia bem na foto”, etc., aí, sim: que se use e abuse desse recurso. Aliás, há coisa até melhor: que se faça um pacto com o Diabo!

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