Um problema com que já me deparei algumas vezes em pesquisa é muito semelhante ao abordado na Dica nº 11, que trata da indução de respostas. Na verdade, eu diria que se trata do mesmo problema, a não ser pela intenção: no caso que passo a discutir, em vez do propósito malicioso de conduzir o respondente, o que leva o redator do questionário a induzir a resposta do público é a ingenuidade. Ou seja, é como se o redator do questionário colocasse palavras na boca do respondente sem a intenção de enganá-lo. Se eu fosse advogado, diria que a Dica nº 11 se refere a um ilícito doloso, enquanto o que vou tratar aqui, a um ilícito culposo. Mas vejamos logo um exemplo, antes que eu dê mais pitaco em assunto que desconheço.

“Antes de chegar aos consumidores, o nosso produto passa pelos mais rigorosos testes de qualidade, aplicados por técnicos europeus e são chancelados pela prestigiosa agência de acreditação internacional ABCD. Como o senhor(a) avalia a qualidade do nosso produto em termos de...”

Pode parar por aí! Quem redige uma coisa dessas não está fazendo uma pergunta; está fazendo uma propaganda do seu produto! Pesquisa é pesquisa; propaganda é propaganda. Questionários de pesquisa não são folhetos promocionais, newsletters nem nenhum outro meio de transmitir informações ao público! Veja só: se o seu público já sabe de todos esses testes e chancelas internacionais, é totalmente inútil você cansá-lo reafirmando isso nas perguntas do questionário; agora (mais grave): se ele desconhece todas essas garantias de qualidade e toma conhecimento delas no momento de responder a pergunta do questionário, então, caro amigo, a tendência é que a resposta seja mais favorável do que seria, caso ele tivesse respondido sem essa “ajudinha”.

Nós precisamos é das respostas genuínas e sinceras do nosso público de interesse – para o bem ou para o mal. Se, como resultado da pesquisa, nós observarmos que o público carece de informações básicas sobre o objeto da pesquisa, excelente – a pesquisa cumpriu parte do seu objetivo: nos revelou uma carência do nosso plano de comunicação – plano esse que nós podemos rever e aprimorar, transmitindo ao público informações importantes sobre o nosso objeto de análise. Mas isso com as ferramentas apropriadas de comunicação; nunca no momento da pesquisa, por meio de uma ferramenta exclusiva de pesquisa!

Veja outros dois exemplos de perguntas de baixa qualidade, com informação sendo passada ao respondente:

“Nosso hospital acaba de receber o seleto Selo de Qualidade Hospitalar da prestigiosa revista médica XPTO. Como você avalia o nosso serviço de...”


“Na última pesquisa realizada pela agência de infraestrutura aeroportuária, a companhia aérea Voe Bem foi a que melhor cumpriu os horários de partida dos voos, com apenas 0,9% de atrasos de meia-hora ou mais. Como você avalia a pontualidade da Voe Bem?”

Conclusão: como dissemos, trata-se do mesmo vício apontado na Dica nº11, a não ser pelo objetivo – malicioso lá, ingênuo aqui. Só que os ingênuos também ardem no fogo do inferno!

Teste Teste Teste