Todos nós, em diferentes momentos da nossa vida, já pensamos, ou dissemos, coisas como: “Se eu fosse...”, “Se eu tivesse feito...”, “Se eu não tivesse dito...”. Ou seja: todos nós fizemos (ou fazemos) conjecturas, nos colocamos em um lugar hipotético, imaginamos como as coisas poderiam ser – ou ter sido – diferentes se algo fosse – ou tivesse sido – diferente.

Daí a incluirmos perguntas hipotéticas nos nossos questionários de pesquisa, vai uma distância. Vamos discutir um pouco a questão. Por que passaria pela cabeça de um consultor de pesquisa incluir no seu questionário uma pergunta baseada numa hipótese? Resposta óbvia: para conhecer a opinião dos indivíduos pesquisados acerca daquele tema, caso a situação imaginada venha a ocorrer, certo? “Se você fosse governador do Estado, o que você mudaria na questão da segurança, em relação ao que é feito no atual governo?”; “Se você pudesse escolher entre fazer um curso de imersão em inglês nos Estados Unidos e o mesmo curso, pelo mesmo preço, na Inglaterra, qual deles você escolheria?”; “Se ganhasse R$ 10 milhões na Mega-Sena, você deixaria de trabalhar completamente ou faria algum tipo de trabalho?”

Vivemos imaginando situações. Nada contra, portanto, a inclusão de perguntas hipotéticas nos questionários... desde que o respondente tenha condições de respondê-las. Mas o que significa “ter condições de responder”? Significa que ele já tenha pensado minimamente no assunto; que ele não tenha que fazer abstrações que jamais fez ou teria feito, caso não tivesse sido questionado; que ele não seja obrigado a se imaginar em uma realidade muito distante da sua, ou que ele mal conheça. Por que você deve evitar fazer perguntas hipotéticas nesses casos? Porque o que você teria de retorno não seriam opiniões minimamente sólidas do seu público, e sim... respostas hipotéticas! Que utilidade isso poderia ter para você?

Vejamos um exemplo. Muito se fala hoje numa postura das gerações mais novas, marcadamente diferente das mais velhas no que diz respeito à relação com o trabalho. Dizem, por exemplo, que os profissionais mais jovens visam a uma rápida ascensão profissional e sucesso financeiro, ainda que trabalhando em empresas com grande competição interna e rotatividade de pessoal, comparativamente com os mais velhos, que privilegiariam um tipo de trabalho menos desafiador e/ou empresas mais seguras, teoricamente com maior estabilidade, ainda que pagando o preço de uma progressão de carreira mais lenta. Suponha que você seja o responsável por uma pesquisa que vai testar exatamente essa hipótese. Você pensa em incluir no seu questionário a seguinte pergunta, direcionada ao público jovem:

"Imagine que você é casado e tem um filho de 16 anos, que é um talento para o futebol e que anda manifestando um desejo de abandonar os estudos para seguir carreira de jogador profissional. Você o apoiaria ou o aconselharia a completar os seus estudos?"

Não vamos entrar aqui no mérito da validade da pergunta como meio de obter a resposta desejada. Queremos apenas discutir a sua forma (“Imagine que...”).

Não há dúvida de que a pergunta tangencia a questão central da sua pesquisa: quem responde que apoiaria a decisão do filho de certa forma admite sacrificar o “script” tradicional (prosseguir os estudos, buscar uma profissão, ir galgando postos na carreira, etc.) em favor da possibilidade de uma carreira meteórica no esporte, como fizeram vários jogadores de grande sucesso. Mas a sua pergunta apresenta um problemão para o respondente (e, como consequência, para a sua pesquisa, amigo leitor): as condições contidas na pergunta (ser casado, ter um filho de 16 anos com ambições profissionais que colidem com a possibilidade de prosseguimento dos estudos), submetem os respondentes a um grupo de abstrações que não costumam passar pela cabeça dos jovens e sobre as quais eles dificilmente terão uma opinião. A pergunta foi hipotética demais, e as respostas também o serão. O que você, dileto consultor, faria com elas?

Mas veja bem: faço questão de repetir que não estou aqui demonizando o uso de perguntas hipotéticas em geral. Abaixo apresento uma que não deve apresentar problemas para os respondentes.

"Imagine que você tivesse um grande talento para o futebol e que recebesse uma oferta de um grande clube europeu para se profissionalizar, o que acarretaria a necessidade de abandonar os seus estudos imediatamente. Você descartaria os estudos para seguir carreira de jogador profissional num grande time ou abriria mão do convite do clube e completaria os seus estudos?"

Por que será que, com essa pergunta, eu não estou criando caso? Simplesmente porque ela não obriga o respondente a se colocar num contexto que ele nem faz ideia de como seja. E isso faz toda a diferença. Mas existe uma forma muito melhor de formular a pergunta, ao mesmo tempo evitando o uso de hipóteses. Veja só:

"Assinale o quanto você concorda com a seguinte afirmativa: ‘Um jovem só deveria decidir seguir uma carreira no futebol tradicional depois de completar os seus estudos.’ (Na escala de respostas, imagine opções com uma gradação entre ‘Discordo totalmente’ e ‘Concordo totalmente’)"

Conclusão: você não estará condenado ao fogo do inferno se incluir perguntas hipotéticas nos seus questionários, mas, podendo evitá-las sem perda de conteúdo, evite-as.

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