Muitas vezes, nas nossas conversas do dia a dia, fazemos perguntas na negativa: “Você não viajou no Carnaval?”, “Os candidatos excedentes não foram chamados para a segunda fase?”, “A turma não gostou da aula do professor Fulano?”, “O bolo não ficou bom?”. Evidentemente, ninguém deixa de se fazer entender numa conversa por causa de um nãozinho na pergunta. Só tem um porém: pesquisa não é conversa.

Nos questionários, as perguntas vêm muitas vezes acompanhadas de opções de resposta, certo? Imagine uma afirmativa como a seguinte, constante em um questionário aplicado a alunos que concorreram a uma bolsa de estudos num curso:

“Sem a bolsa, eu não pretendo me matricular no curso.”

Imagine que à afirmativa siga-se uma série de opções de resposta, variando de “Com certeza sim” até “Com certeza não”. Se o aluno assinalar uma opção que exprima concordância (por exemplo, “Com certeza sim” ou “Provavelmente sim”), como interpretar essa resposta? Do ponto de vista da lógica, ele estaria concordando com a ideia de não se matricular no curso – ou seja, a concordância significaria uma negativa. É como se ele dissesse: “Sim, isso mesmo: não pretendo me matricular no curso”. Mas ele também pode estar pensando o exato oposto! Veja só esta colocação: “Com certeza! Pretendo, sim, me matricular no curso, mesmo sem obter a bolsa”.

Ou seja, pasmo leitor: para parte dos respondentes, o “sim” pode significar concordância e para outra parte, discordância. O mesmo raciocínio vale para as opções de discordância: “Com certeza não” ou “Provavelmente não”. Não o quê? O respondente discorda da afirmativa, isto é, da ideia de não se matricular no curso ou ele quer é afirmar exatamente isso, ou seja, que não vai se matricular? Observe que, em princípio, ambas as interpretações são possíveis: “Não, eu não vou deixar de me matricular no curso só porque não recebi a bolsa” ou “Não; sem bolsa eu não me matriculo”. Para uns, o não é discordância; para outros, concordância.

E quanto ao consultor da pesquisa, a quem cabe analisar os resultados? E quanto ao cliente, que contratou a pesquisa? Bom, esses, o melhor que têm a fazer é se jogar do 20º andar, porque o que eles vão receber, como respostas da pesquisa, é lixo! Imagine, sensato leitor: uma mesma opção de resposta retratando duas posturas contrárias! Impossível identificá-las; quanto mais separá-las!

Vejamos outro exemplo.

“Na sua opinião, os candidatos mais bem colocados nas provas de ingresso às universidades privadas não deveriam ter que pagar a taxa de matrícula?”

Como deve ser interpretada a resposta “não”?

Bem, se pensarmos que quem diz “não” discorda da frase como um todo, então esses respondentes (que dizem “não”) entendem que os candidatos mais bem colocados deveriam ter que pagar a taxa de matrícula, concorda? Seguindo essa mesma linha de raciocínio, quem respondesse “sim” estaria manifestando a sua concordância com a ideia de isentar a cobrança dessa taxa para os melhores candidatos, evidentemente. Ou seja: 

        Resposta “Sim”:     Candidatos não devem pagar matrícula
Resposta “Não”:    Candidatos devem pagar matrícula

Só que nem todos os respondentes raciocinam desse modo. Certamente haverá aqueles que pensam assim: “Não, os melhores não deveriam ter que pagar taxa de matrícula”. Ou então: “Sim, claro que deveriam pagar”. Nesse caso:

        Resposta “Sim”:     Candidatos devem pagar matrícula
                 Resposta “Não”:    Candidatos não devem pagar matrícula

E aí?

E aí, que agora esse “não” significaria o contrário do outro “não”, e o “sim”, o contrário do outro “sim”! Ou seja: dependendo do respondente, um “não” pode querer dizer “não” ou “sim”, e um “sim” pode querer dizer “sim” ou “não”, olha que beleza! Ponha-se na posição do pobre-coitado que for analisar as repostas e interpretar os resultados!

Não, precavido leitor, nem pense em estar na pele dele, que esse dilema não tem saída. A redação da pergunta foi mal feita e agora não há como extrair um mínimo de informação relevante das respostas.

Hmmm..., será que resolveria o problema a substituição da expressão “ter que pagar” por “ser isento”? Veja como ficaria a nova redação da pergunta:

Na sua opinião, os candidatos mais bem colocados nas provas de ingresso às universidades privadas não deveriam ser isentos do pagamento da taxa de matrícula?”

A única modificação foi a substituição da expressão “não deveriam pagar” por “não deveriam ser isentos do pagamento”. Adiantou alguma coisa?

Não mesmo! Para entender bem o problema, considere dois respondentes (João e Pedro) que tenham a mesma opinião: ambos acham que não deveria haver regalias, ou seja, que todos os candidatos que se matriculassem na universidade deveriam pagar a taxa de matrícula, qualquer que fosse a sua colocação nas provas de ingresso.

João raciocina da seguinte forma: “Perfeitamente; concordo com a frase. Esses candidatos não devem ser isentos do pagamento”. Assim, de acordo com o seu raciocínio, João responde “sim”.

Agora, o raciocínio de Pedro: “Não, de jeito nenhum eles deveriam ser isentos do pagamento da matrícula”. E responde “não”.

Chegamos assim ao absurdo de dois respondentes terem a mesma opinião e responderem um o oposto do outro! Não é de se estranhar; o problema da frase não era “pagar” ou “isentar do pagamento”, e sim a fatídica palavrinha “não”.

Diante de tudo o que foi dito, como deveria ser redigida a pergunta, valoroso leitor? Simples: basta retirar o “não”:

“Na sua opinião, os candidatos mais bem colocados nas provas de ingresso às universidades privadas deveriam ter que pagar a taxa de matrícula?”

Acabou-se o problema!

Só a título de diversão, veja como a coisa poderia piorar: basta acrescentar uma negativa:

Você não acha que os candidatos mais bem colocados nas provas de ingresso às universidades privadas não deveriam ser isentos do pagamento da taxa de matrícula?”

Ou pior ainda:

“Você é contra a ideia de que os candidatos mais bem colocados nas provas de ingresso às universidades privadas não deveriam ser isentos do pagamento da taxa de matrícula?”

Isso é só piada, tá, assustado leitor? Em meio a tantos nãos, eu mesmo já me perdi e não sei mais o que estou dizendo. Acho que, com esse último exemplo, acabamos de entrar no jogo de espelhos que o Caetano Veloso criou quando escreveu “o avesso do avesso do avesso do avesso”. Como poesia, maravilha; como pesquisa, lixo!

Então, guarde o bom conselho: evite perguntas com negativas!

(Ou seria melhor eu dizer: “Não deixe de não fazer perguntas com negativas”? He he he...)

Teste Teste Teste