Quando criamos perguntas para um questionário, não é raro termos que apelar para exemplos do que estamos querendo dizer. Fazemos isso quando sabemos (ou temos fortes razões para crer) que nem todos os integrantes do público-alvo da nossa pesquisa conhecem um termo, um conceito, etc.

Imagine, por exemplo, que o nosso amigo Otacílio, esforçado redator de questionários de pesquisa, esteja querendo saber alguma coisa sobre hábitos de consumo de frutas cítricas de determinado segmento de público. Ou sobre testes e procedimentos médicos não invasivos. Ou sobre teses da esquerda política. Vejamos um exemplo de cada.

“Quantas refeições por semana você costuma acompanhar com um suco de frutas cítricas?”

“Você já passou por algum procedimento médico não invasivo?”

“Na sua opinião, as medidas que o Governo vem tomando nos últimos meses enquadram-se como uma política de esquerda?”

O observador Otacílio tem fortes e justificáveis motivos para desconfiar de que, se pedir a opinião do seu público sem esclarecer o que são essas coisas, muitos indivíduos não saberão o que responder (ou darão respostas que nada têm a ver com o que ele perguntou). Assim, movido pela melhor das intenções, o bem intencionado Otacílio decide, na própria pergunta, dar um exemplo daquilo de que está falando. E “aprimora” as suas perguntas da seguinte forma:

Quantas refeições por semana você costuma acompanhar com um suco de frutas cítricas, como o suco de limão, por exemplo?”

“Você já passou por algum procedimento médico não invasivo, como, por exemplo, a fixação de sementes em pontos da orelha, usada na auriculoterapia?”

“Na sua opinião, as medidas que o Governo vem tomando nos últimos meses, como a destinação de terras a trabalhadores rurais sem terra, dentro do programa de reforma agrária, por exemplo, enquadram-se como uma política de esquerda?”

Em outro ponto deste blog (Dica nº 12), eu já mencionei as “boas intenções” do redator do questionário, lembra-se, atento leitor? Bem, não convém jamais esquecer o velho ditado: “De boas intenções o inferno está cheio”. E a do pobre Otacílio, amigo leitor – lamentamos dizer –, vai pelo mesmo caminho!

Mas, por quê, meu Deus?! – perguntará ele, de olhos arregalados.

Simplesmente porque, a partir do momento em que deu um exemplo do conceito que queria explorar, o Otacílio sem querer fixou na mente do seu leitor aquele exemplo, como se fosse apenas sobre aquilo que ele estivesse falando! E não adianta ele dizer que usou a expressão “por exemplo” em todos os casos. Quer saber? Não cola! Sabe o que os respondentes vão entender das perguntas bem intencionadas do Otacílio? Mais ou menos o seguinte:

“Quantas refeições por semana você costuma acompanhar com suco de limão?”

“Você já passou pela fixação de sementes em pontos da orelha, usada na auriculoterapia?”

“Na sua opinião, a destinação de terras aos sem-terra, dentro do programa de reforma agrária, que o Governo vem fazendo nos últimos meses, enquadra-se como uma política de esquerda?”

Já dá para você ter uma ideia da distorção das respostas que isso vai gerar, não dá? O geral vai ser tomado pelo particular. Muitos respondentes que não costumam tomar suco de limão nas refeições vão responder “não”, mesmo tendo o hábito de tomar outros sucos de frutas cítricas, como de laranja, abacaxi, tangerina, acerola, caju, etc. Pessoas que passaram por inúmeros procedimentos médicos não invasivos poderão responder que não, só porque nunca se submeteram às mencionadas sementinhas. Por fim, gente que não acha que o Governo deu uma guinada à esquerda pode vir a responder que sim, só em razão da menção à reforma agrária – uma tese sabidamente cara ao ideário de esquerda.

O mesmo problema ocorre quando os exemplos citados são nomes de celebridades. Por exemplo:

“Com que frequência você assiste a programas de entrevistas na TV, como o de Jô Soares?”

É altamente provável que o respondente indique a frequência com que assiste ao... (você já sabe) Programa do Jô (quando não era exatamente isso o que se queria saber).

Ou seja: citou um exemplo, melou a pergunta!

O que fazer, então? Não fornecendo nenhum exemplo, você se arrisca a não ser entendido pelo público; dando exemplos, você induz a distorção das respostas. É um beco sem saída?

Não. Se for necessário ilustrar algum conceito abordado na sua pergunta, que você suspeite que não será adequadamente compreendido, forneça a definição em separado. Você pode até dar exemplos que ajudem o público a entender exatamente o que você está querendo saber, mas nunca fique em apenas um ou dois exemplos, combinado?

Segue uma sugestão de melhor redação para a primeira pergunta:

“Quantas refeições por semana você costuma acompanhar com um suco de frutas cítricas? Observação: as frutas cítricas mais comuns são: limão, laranja, abacaxi, tangerina, acerola e caju”.

É uma solução “perfeita”? Não, não é, porque deixa de fora uma série de outras frutas cítricas. Mas você, como o consultor de pesquisa, é que vai definir os custos e benefícios de ampliar, reduzir ou deixar como está a lista de exemplos. Entre outras coisas, você deve ter sempre em mente que não adianta fornecer ao respondente a lista completa de frutas cítricas, pois ele simplesmente não vai lê-la!

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