“Aproximadamente, quantas horas de TV você assiste por dia?”

Se essa pergunta for feita de forma aberta, como acima, é provável que o indivíduo pesquisado, se não tiver preguiça, faça uma estimativa baseada na hora em que ele chega em casa, nos programas de que gosta, na hora em que vai se deitar, etc. Se for uma pergunta fechada, isto é, com opções de resposta apresentadas no questionário, ele tenderá a fazer menos cálculos e dar uma estimativa por alto, dentro das opções fornecidas.

Amigo leitor, sabe quais são as palavras mais importantes do parágrafo acima? “Dentro das opções fornecidas”. Por quê? Veja só.

Imagine as duas seguintes alternativas de opções de respostas:

ALTERNATIVA 1

ALTERNATIVA 2

Menos de 0,5 hora

Menos de 2,5 horas

Entre 0,5 hora e 1 hora

Entre 2,5 horas e 3 horas

Entre 1 hora e uma 1,5 hora

Entre 3 horas e 3,5 horas

Entre 1,5 hora e 2 horas

Entre 3,5 horas e 4 horas

Entre 2 horas e 2,5 horas

Entre 4 horas e 4,5 horas

Mais de 2,5 horas

Mais de 4,5 horas

Qual é a melhor?

Resposta: sei lá! A melhor é a que mais adequadamente irá cobrir a faixa de tempo que aquele público específico fica diante da TV. Veja o que aconteceu numa pesquisa em que se adotou o conjunto de opções que configura a Alternativa 1: somando-se as respostas dadas às 5 primeiras opções, chegou-se ao seguinte resultado: 83,3% dos indivíduos pesquisados assistiam a menos de 2,5 horas de TV por dia. A mesma pergunta, para o mesmo público, gerou um resultado bem distinto quando se adotou a Alternativa 2 de opções: a parcela que assinalou a primeira opção (Menos de 2,5 horas) foi de apenas 62,5%. Ou seja: a “mera” mudança das opções de resposta fez cair o resultado em 20 pontos percentuais! Como é que se explica isso?

Explica-se pelo efeito causado pelo conjunto de respostas sobre os respondentes da pesquisa. Querendo ou não, o responsável pela pesquisa deixa transparecer alguma coisa quando apresenta opções de resposta. No caso da Alternativa 1, por exemplo, deixou transparecer que, para ele, mais de 2,5 horas de TV por dia era muita coisa. Tanto é assim, que essa é a última opção de uma lista organizada em ordem crescente. Ora, esse conjunto de opções de resposta pode desencadear no respondente uma reação – consciente ou não – de se situar abaixo do máximo, como quem se envergonha de admitir que assiste a “tanta” TV. Basta mudar o conjunto de opções, que o panorama se altera. A opção que encabeça o novo conjunto abriga o conteúdo das cinco primeiras opções da Alternativa 1! Aqui, as outras cinco opções de resposta aparecem depois dela. Isso pode ser percebido pelos respondentes como uma espécie de libertação do sentimento de vergonha em admitir que assiste a TV muito tempo por dia. Com isso, dá uma resposta diferente.

Voltando um pouquinho atrás, fiel leitor, eu queria lhe dar agora uma resposta melhor do que “sei lá”, que dei há pouco à pergunta sobre qual era o melhor conjunto de opções de resposta. Eu lhe diria o seguinte: 1º) não existe um melhor; existe um mais adequado ao caso; 2º) se você está na fase de criação do seu questionário, é porque já dispõe das informações mínimas sobre o assunto que quer investigar e sobre o público a quem vai submeter o questionário, certo? Então, quem melhor poderá dizer qual das alternativas é a mais adequada ao caso é você mesmo.

Teste Teste Teste