Existe uma lenda urbana muito conhecida na área de pesquisa: num questionário, pediam-se dados demográficos do respondente, como idade, escolaridade, estado civil, etc. No item “sexo”, um gaiato respondeu: “Cinco vezes por semana”.

Como piada, a história é ótima; como sinal da qualidade do questionário, uma desgraça. Qual o problema? Ambiguidade.

Quando incluir perguntas no seu questionário, você não pode, de jeito nenhum, deixar brechas de entendimento, isto é, não pode permitir que a sua pergunta seja compreendida de forma diferente daquela que você pretendia. Se deixar, pode ter certeza: vai receber um monte de lixo como resposta.

A historinha contada acima pode ser uma piada, mas o que existe por aí de questionários com perguntas que ensejam os mais diferentes tipos de resposta, não está no gibi. Quer ver alguns exemplos?

“Quantos consertos você fez no seu carro no ano passado?”

O que será que estão querendo saber: quantas vezes o respondente consertou, ele próprio, o seu carro? Ou quantas vezes ele o levou para conserto? Ou as duas coisas? Será que as manutenções regulares devem ser computadas na resposta ou só os reparos propriamente ditos?

“Com que frequência você faz compras em lojas de departamentos?” (Opções de resposta: Nunca / Ocasionalmente / De vez em quando / Com frequência / Regularmente)

Amigo leitor, se eu lhe fizer uma pergunta, você jura responder com sinceridade? Então, vamos lá: qual é a diferença entre “ocasionalmente” e “de vez em quando”? E entre “com frequência” e “regularmente”? Não sabe? Nem eu! Esse é o tipo de coisa que cada um entende como quiser. Imagine diferentes respondentes que façam compras em lojas de departamentos uma vez por mês. Uns deles podem assinalar a resposta “regularmente”; outros, “com frequência”; outros “de vez em quando”. O que você faria com a informação recebida, se lhe coubesse analisar os resultados?

Antes de apresentarmos outro exemplo, vamos imaginar que o Governo tenha determinado que as despesas tidas pelos contribuintes com psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais não mais pudessem ser incluídas na relação de deduções da declaração para o cálculo do imposto de renda. Alguém resolve, então, fazer uma pesquisa sobre o efeito dessa medida sobre os contribuintes que tiveram direito a uma restituição de imposto e redige a seguinte pergunta:

“O valor da devolução do seu imposto de renda caiu este ano em função da lei do Governo que impede a dedução de despesas tidas com psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais?”

Considere a resposta “não”: o que ela significa? Que a devolução de fato caiu, mas não em função da nova lei? Ou que o valor da devolução não caiu? As duas interpretações seriam perfeitamente possíveis!

É importante destacar que nós podemos estar sendo ambíguos sem perceber e usando expressões totalmente corriqueiras. Veja só a pergunta a seguir:

“Quando foi que você veio morar em São Paulo?”

Suponha que a pessoa que redigiu a pergunta esperasse as respostas na forma de anos. Para sua surpresa, encontrou respostas como estas: “Assim que me formei”, “Na época do Covas”, “Depois que me separei”, “Há uns cinco, seis anos”, “Mais ou menos na época inauguração da estação ‘Vila Mariana’ do metrô”, etc.

Quem mandou ser vago na pergunta? O correto era ter perguntado: “Em que ano você veio morar em São Paulo?”

Bem, acho que, com esses exemplos, já vendi o meu peixe: ambiguidade é boa para políticos, sedutores e enroladores em geral. Em pesquisa, é um desastre, um tiro no pé. Se você não for absolutamente claro e direto na formulação das suas perguntas, vai estar cavando a própria cova.

O quê? Exagerei com a história da cova? OK; esqueça a cova. Mas que você vai gerar um enorme problema para você mesmo, isso vai. Depois, não dá para resgatar a informação perdida. A menos que você faça outra pesquisa. Isto é... se encontrar quem pague.

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