Tenho para mim que existe muita gente chata no mundo. E também que existem muitas formas de se ser chato. Uma delas, por exemplo, é ficar sempre voltando aos mesmos assuntos, repetindo as mesmas coisas. Ah, sim: outra das minhas certezas é: chatos são sempre os outros – nunca eu! Feito este introito, peço-lhe licença, paciente leitor, para voltar a falar aqui sobre a ordem das perguntas no questionário – assunto que já havia abordado no Fique Esperto nº 7.

O quê? Eu chato? Tremenda calúnia, injusto leitor! Não pretendo repetir exatamente o que já disse antes, mas sim chamar a atenção para um aspecto diferente (e importantíssimo) da questão. Peço-lhe que me dê um crédito de confiança e que continue lendo, antes de me tachar de chato, pode ser? Então, vamos lá.

Dificilmente, num questionário, uma única pergunta dá conta de coletar dados sobre todos os aspectos importantes de um assunto complexo. Por exemplo, num questionário feito para avaliar a qualidade de um restaurante, dificilmente haverá apenas uma pergunta como “Qual a sua avaliação sobre o serviço prestado pelo restaurante X?”. Qualquer resposta diferente de “excelente” deixaria o analista e o cliente da pesquisa sem saber o que exatamente desagradou os respondentes, concorda? É necessário, então, fazer perguntas específicas – por exemplo, sobre a qualidade da comida, a gentileza do atendimento, o tempo do serviço, a atmosfera no restaurante, etc. Cada uma dessas perguntas seria o que chamamos acima de “pergunta específica”, ao passo que o pedido da avaliação do restaurante como um todo seria a “pergunta geral”.

Como essa coexistência de perguntas gerais e específicas se dá na maioria dos questionários, é necessário atentarmos para a ordem em que as perguntas serão apresentadas no questionário. Qual deve ser essa ordem: do geral para o específico ou do específico para o geral?

Eu não me arriscaria aqui a chutar um número, mas arriscaria dizer que, na maioria dos casos, os questionários partem das generalidades para os detalhes. Há excelentes justificativas para isso, mas basta dizer que, mencionando alguma coisa específica antes de uma generalidade sobre o assunto em estudo, nós estaríamos pondo minhocas na cabeça do respondente – minhocas essas que certamente irão afetar a resposta que ele dará para a pergunta genérica que se seguirá. E quando dizemos “afetará a resposta”, queremos dizer que a resposta que ele dará muito provavelmente será diferente da que ele daria caso não tivesse lido (ou ouvido) a menção ao caso particular (a pergunta específica), conforme vimos na Dica nº 2.

No exemplo do restaurante, dado há pouco, basta pensar, caro leitor, que, fazendo as perguntas específicas antes da geral, você poderia estar lembrando o respondente de algo que talvez ele não se levasse em consideração se fosse solicitado apenas a avaliar o restaurante como um todo. Por exemplo, suponha que o restaurante não ofereça estacionamento ou manobristas. Será que, numa avaliação global que fosse fazer do restaurante, o cliente consideraria a inexistência dessas facilidades como um ponto negativo do estabelecimento se você não “levantasse a lebre”?

O que eu quero dizer é que o simples fato de incluirmos uma pergunta específica antes da geral pode fazer com que os respondentes passem a incorporar outros pontos de vista sobre o assunto e deem respostas que eles nunca teriam dado se não tivessem sido expostos ao tema da pergunta. Mais que isso: eles podem ser expostos a tópicos sobre os quais jamais haviam pensado ou que até talvez desconheçam! Ou seja: a mera ordem de colocação das perguntas no questionário tem o potencial de provocar mudanças na avaliação do respondente. Bom, até aqui o assunto já foi abordado neste blog – tanto no Fique Esperto nº 7 quanto na Dica nº 2. O problema que se impõe agora é julgar qual seria a avaliação mais fidedigna a se fazer: a que “levanta a lebre” antes ou a que não o faz? Direto ao ponto: devemos incluir as perguntas específicas antes da geral ou vice-versa?

Perguntinha difícil essa! De um jeito, corremos o risco de interferir na espontaneidade do respondente; do outro, corremos o risco de contar com avaliações globais incompletas, isto é, que deixam de fora pontos importantes sobre o tópico em questão. Como sair dessa?

Bem, há importantes fatores a considerar aqui. Por que será que a ordem do geral para o particular é tão mais empregada que a contrária? Motivos não faltam:

- não se transmite ao respondente uma orientação mental – voluntária ou não – acerca do assunto (por exemplo, passando para ele uma ideia errônea do que é importante para o pesquisador e/ou do que deve ser considerado na resposta);

- não se submete o respondente de cara a tópicos que ele porventura desconheça ou sobre os quais não tenha opinião formada;

- não se corre o risco de o indivíduo pesquisado só responder com base naquilo que leu / ouviu, na pergunta, deixando de lado importantes aspectos da questão sobre os quais ele falaria, caso não tivesse se sentido “cabresteado”;

- não se corre o risco de se transmitir ao respondente que os itens cobertos nas perguntas específicas não devem ser considerados posteriormente, na sua resposta à pergunta geral. (Sim, até isso pode acontecer! Quando o respondente se defronta com a pergunta “Como está o seu nível de satisfação com a sua vida em geral?”, ele pode pensar assim: “Bem, nas respostas anteriores, eu já disse como anda a minha vida profissional e a amorosa; então, o que eles devem estar querendo saber aqui são os outros aspectos: vida social, familiar, cultural...”)

Nada desprezíveis esses argumentos em favor do geral precedendo o específico, concorda, ponderado leitor? Agora imagine a situação oposta: o cliente da pesquisa deseja conhecer a opinião dos entrevistados acerca de um aspecto particular de uma questão. Esse interesse pode residir em um local específico, em um meio de transporte específico, em um grupo etário específico, em uma forma de lazer específica; etc. Em casos como esses, fazer as perguntas gerais antes das específicas equivaleria a coletar informação sobre o que não é o objeto da pesquisa! Vamos a um exemplo, que a coisa se esclarece.

Imagine que um instituto de pesquisa deseje saber como os indivíduos avaliam o seu grau de familiaridade com assuntos políticos atuais do País. Esse instituto não está interessado em superficialidades, como a opinião das pessoas que, por acompanharem o noticiário do jornal da TV, julgam-se afinadas com as grandes questões políticas do Brasil atual. No questionário que submete ao público, o instituto dá início ao tema com perguntas específicas sobre, por exemplo, as vantagens e desvantagens dos diferentes sistemas de voto (distrital puro, distrital misto, em lista); as diferentes formas de financiamento de campanha (pública, particular, fundo partidário); as características distintivas de mecanismos legais (lei, projeto de lei, medida provisória); etc.

Imagine agora que, só depois de apresentadas várias perguntas sobre temas complexos como esses, seja feita a pergunta geral “Como você avalia o seu grau de familiaridade com assuntos políticos atuais do País?”. Honestamente, dileto leitor, você acha que a resposta seria a mesma, caso as perguntas tivessem sido apresentadas na ordem inversa? Muito provavelmente não, né? Mas, neste caso particular, o objetivo da pesquisa era exatamente esse: conhecer a autoavaliação dos respondentes, fornecidos os parâmetros de resposta!

Vale a pena fazer uma pausa aqui: você consegue imaginar o quanto se podem distorcer os resultados de uma pesquisa, apenas mexendo na ordem em que as perguntas são feitas? Vamos tomar para exemplo alguns temas polêmicos, que é para a discussão pegar fogo logo. Imagine o quanto podem variar as respostas a uma pergunta geral sobre a descriminalização do aborto, quando se incluem (ou se deixa de incluir) perguntas prévias sobre fetos sem cérebro, gravidez provocada por estupro, etc. Ou o quanto podem variar as respostas a uma pergunta geral sobre pena de morte, quando se incluem (ou se deixa de incluir) perguntas prévias sobre assassinatos em legítima defesa, em situações de estresse máximo, etc. Ou o quanto podem variar as respostas sobre casamento de pessoas do mesmo sexo, quando se incluem (ou se deixa de incluir) perguntas prévias sobre o impacto de novos dependentes nas contas da Previdência Social ou sobre a educação de crianças em lares com duas figuras masculinas ou femininas.

E aí? Falamos, discutimos e argumentamos, mas a que conclusão chegamos: devemos organizar o nosso questionário inserindo as perguntas das gerais para as particulares ou das particulares para as gerais?

A resposta pode advir da seguinte regrinha prática: na maioria dos casos, em que o tópico da pesquisa é claro e conhecido pelo público a ser entrevistado, começamos pela(s) pergunta(s) geral(is) e em seguida partimos para as particulares (se você gosta de nomes, apelidos ou jargões, saiba que isso configura o que se chama de “sequência em funil”). Já quando o tema em análise é definido de forma vaga e abstrata, parece mais adequado começarmos pelas perguntas específicas, como forma de proporcionar aos indivíduos pesquisados informações suficientes para que eles deem as suas respostas dentro do escopo da pesquisa

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