Certa vez, eu estava folheando um livro de testes psicológicos do tipo “Você é...?”. Cada página continha uma série de perguntas com as respectivas opções de resposta (em pesquisa, isso se chama escala), que teoricamente indicavam se o leitor era popular, curioso, ciumento, etc. (uma característica por página). O leitor respondia as perguntas e, ao terminar, consultava, numa tabela no apêndice do livro, a quantidade de pontos que havia obtido. Dependendo da soma dos pontos, ele poderia, ou não, ser classificado como popular, curioso, ciumento, etc.

No teste “Você é romântico?”, me chamou a atenção o seguinte item: “Escreva abaixo como pediria um beijo à pessoa amada”. Fiquei intrigado: como é que a resposta do leitor poderia ser transformada em pontos, se não havia ninguém para julgá-la, classificá-la avaliá-la? Cheio de curiosidade, corri para o apêndice e me surpreendi com o que li: “Se você usou mais do que seis palavras na sua frase, compute zero ponto”.

É claro! Como é que eu não pensei nisso de cara?! Por que gastar mil palavras para dizer algo que pode ser dito com meia-dúzia delas? Quem é que imagina um romântico que gaste, sei lá, 27 palavras para pedir um beijo à amada?

Pois é: num questionário de pesquisa, vale a mesma regra. Não complique, se você pode ser simples. Vejamos alguns exemplos de blábláblá desnecessário. Primeiro, um na esfera da vida familiar:

“De tempos em tempos, vemos ressurgir, na pauta de discussões da sociedade, a questão da aplicação de palmadas pelos pais, na educação dos filhos. Há quem condene a prática, tachando-a de violência de adultos contra seres indefesos, e há quem considere que as palmadas, quando usadas com consciência e bom-senso, são um instrumento educativo válido. Qual é a sua opinião a respeito? Você é a favor ou contra a aplicação de palmadas na educação das crianças?”

Deus do céu, isso é o que se chama de nariz-de-cera! Quanta lengalenga! Bastaria a frase final, e pronto! Aquela introdução toda... pode jogar no lixo! Procure sempre ser conciso; se você conseguir ser claro sem precisar derramar mil palavras, ótimo!

Só que nem sempre isso acontece: nem sempre a clareza é amiga da concisão. Imagine, dedicado leitor, que, ao preparar um questionário, você se encontre diante de uma situação na qual você não consegue ser claro e conciso ao mesmo tempo. O que você faria? Qual dos dois atributos você sacrificaria?

Espero que você tenha respondido “a concisão”. Porque claros, nós precisamos ser sempre. Acompanhe os exemplos a seguir. Primeiro, uma perguntinha aparentemente simples e imune a diferentes interpretações:

“Quantos filhos você tem?”

Beleza, não é? Pergunta clara e concisa. Um primor. A não ser pelos sedutores que andam por aí emprenhando uma mulher atrás da outra, a gente acredita que ninguém tenha dúvidas do que responder a essa questão trivial, certo?

Errado!

Me diga aqui: quando você pergunta quantos filhos o respondente tem, você está se referindo apenas aos filhos biológicos ou também aos adotados e agregados? Ele pode tê-los, não pode? Além disso, alguns respondentes podem ficar em dúvida se você só quer saber quantos moram com ele ou se devem ser computados também os que não moram? (E olhe, que a diferença entre as respostas pode ser grande, considerando que os que não moram com o respondente podem viver com ex-cônjuges, com parentes, com amigos, sozinhos, etc.).

Em casos como esse, fiel leitor, é melhor encompridar um pouquinho a pergunta para garantir um entendimento 100% correto por todos os respondentes. Uma possibilidade seria:

“Quantos filhos você tem? Considere apenas os que moram com você atualmente, sejam próprios, adotados ou agregados”.

Outro exemplo similar:

“Qual é a sua renda mensal?”

Qualquer idiota sabe qual é a própria renda, certo?

Errado!

A renda que você deseja saber é a bruta ou a líquida, que sobra após o desconto do imposto de renda, do INSS, no plano de saúde, etc.? E se limita ao salário ou engloba valores provenientes de outras fontes, como aluguéis, direitos autorais, etc.? E o respondente deve considerar apenas a própria renda ou somá-la com a da mulher e com a da sogra, Dona Lourdes, aposentada que vive com eles e recebe proventos de aposentadoria? Se você não explicar direitinho, cada um pode entender uma coisa diferente, e a sua pesquisa vai para o espaço. Como no exemplo anterior, encompride um pouquinho a sua pergunta e seja feliz.

O quê? Com quantas palavras eu pediria um beijo à pessoa amada? Ah, tolinho... acha que eu vou dizer?

Teste Teste Teste