Antes de mais nada, uma palavrinha sobre o que vêm a ser perguntas fechadas e abertas. Perguntas fechadas são aquelas em que se fornece aos indivíduos pesquisados um conjunto de opções de respostas. Perguntas abertas, por sua vez, são perguntas não estruturadas, em que não são fornecidas possíveis opções de respostas (e que, por isso, os indivíduos devem respondê-las com as suas próprias palavras).

Um mesmo conteúdo pode ser perguntado das duas formas. Imagine uma escola que deseje conhecer um pouco do processo decisório dos pais no momento da escolha da instituição onde matriculariam seus filhos. Num questionário de pesquisa, a escola poderia perguntar isso das duas maneiras:

- Aberta: “Que fatores você levou em consideração ao escolher a XYZ como a escola para o seu filho?”

- Fechada: “Assinale, dentre as opções abaixo, os fatores que o levaram a escolher a XYZ como a escola para o seu filho”.

Optando pela primeira alternativa, a escola reservaria um espaço (ou campo) no questionário para o registro da livre resposta dos pais. Optando pela segunda, forneceria uma lista de opções (por exemplo, tradição, imagem de excelência, resultados recentes nos rankings, orientação pedagógica, horário das aulas, proximidade de casa, preço, etc.). Ao lado de cada opção, um pequeno espaço (ou campo) onde o respondente pudesse assinalar a sua marcação.

A primeira questão que surge na mente de um estudante quando apresentado a essas duas possibilidades é: “Qual é a melhor?”. Essa pergunta pode ser natural, singela e cristalina, mas a resposta... bem, podemos dizer que está longe disso! Existem defensores aguerridos de um e de outro lado, como num Fla-Flu acadêmico. E pior: ambos têm razões de sobra para defender o seu lado! Vale a pena darmos uma olhada nisso.

Comecemos pelos defensores intransigentes das perguntas abertas. O que eles dizem em seu favor? Que elas permitem que os indivíduos se expressem livremente, não influenciados por sugestões do pesquisador – sugestões essas que talvez nunca lhes ocorressem, se não as vissem; que permitem um elenco ilimitado de respostas possíveis; que dão a chance aos respondentes de dar detalhes que uma pergunta fechada jamais poderia captar; que possibilitam respostas adequadas a assuntos complexos; que deixam aflorar a lógica do pensamento do respondente, assim como o seu conjunto de referências sobre o assunto em análise. Os defensores das perguntas abertas alegam também que as fechadas encerram um conjunto limitado e até certo ponto arbitrário de opções de resposta, o que condicionaria ou mesmo distorceria o pensamento dos indivíduos pesquisados. Por exemplo, nas perguntas fechadas, qualquer pessoa – mesmo que sem opinião ou conhecimento sobre um assunto – pode se manifestar sobre o referido assunto; alegam que as fechadas geram frustração em respondentes que não encontram, nas opções disponíveis de resposta, aquela(s) que expressa(m) a sua opinião; que uma grande quantidade de opções de respostas mais confunde do que facilita; que as fechadas não permitem uma adequada distinção entre as respostas de diferentes indivíduos; que as fechadas obrigam os respondentes a fazer opções que eles não fariam na vida real.

É... chumbo grosso, não é verdade?

E os partidários intransigentes das fechadas: o que dizem? Dizem que a pretensa liberdade de resposta proporcionada pelas abertas é uma falácia, já que ela gera mais ambiguidade do que clareza; que as abertas produzem uma quantidade enorme e heterogênea de informação, grande parte da qual foge ao objetivo da pesquisa; que elas demandam um alto grau de esforço e de tempo dos respondentes; que os respondentes se perdem diante do grau de generalidade das perguntas; que é praticamente impossível codificar as respostas de perguntas abertas para uma análise estatística posterior. Por outro lado, eles alardeiam uma série de vantagens das fechadas: elas permitem uma comparação muito mais fácil das respostas; o fornecimento de opções de resposta aos respondentes pode ajudar a clarificar o sentido da pergunta para eles; com perguntas fechadas aumenta a probabilidade de se receberem respostas sobre temas sensíveis; os indivíduos com mais baixo grau de escolaridade não ficam em desvantagem perante os demais; a quantidade de respostas confusas despenca quando se fornecem opções; não se enche o saco das pessoas, uma vez que perguntas fechadas são mais rápida e facilmente respondidas, etc.

Ufa! Um peso-pesado deste lado também!

E aí, perplexo leitor? Diante dos argumentos acima você conseguiu escolher um lado? Ficou na dúvida? Quer uma “ajudinha”? Então tome: ambos os lados têm razão em diversos pontos. Quer outra? Há mais furos na argumentação de ambas as partes do que num queijo suíço! (Ajudinhas de amigo-da-onça essas, né?).

Bem, o que se observa da “briga” acima é que as duas modalidades de perguntas têm pontos fortes e fracos – como, aliás, quase tudo na vida. Sendo assim, em vez de escolher uma bandeira e se aferrar a ela a ferro e a fogo, o que você deve fazer é saber avaliar quando é mais adequado lançar mão de um ou de outro tipo de pergunta.

Em geral, as perguntas abertas são mais úteis (e adequadas) que as fechadas na fase inicial da pesquisa. Isso é, até certo ponto, intuitivo: se você está travando os primeiros contatos com o assunto que irá pesquisar, não é de se esperar que já tenha, no bolso do colete, opções de respostas para apresentar ao público a ser pesquisado, concorda? Muito menos o vocabulário com que o público de interesse usa para se referir ao assunto. Menos ainda você saberá que conjunto de referências os indivíduos vão evocar ao se manifestar sobre o tema em estudo. Ora, quem é que vai fornecer a você essas opções, esse vocabulário e esse referencial? Justamente o levantamento de dados que você fizer nessa fase inicial, chamada “exploratória”. Se esse levantamento de dados abranger uma consulta a indivíduos, o tipo de perguntas mais adequado será, evidentemente, o aberto.

Por outro lado, se numa fase posterior da pesquisa for do seu interesse quantificar, comparar, correlacionar, grupar respostas, etc., mais adequado será usar perguntas fechadas. O que você nunca deve perder de vista, valoroso leitor, é o fato de que o interesse de qualquer pesquisa que submeta um conjunto de perguntas a um grupo de pessoas é descobrir o que vai pela cabeça dessas pessoas. Esse é um objetivo que nós podemos classificar no mínimo como ambicioso – aí está a psicanálise, que não nos deixa mentir: se um psicólogo não consegue explicar o comportamento de algumas pessoas nem depois de 10 anos ouvindo aquela pessoa falar exclusivamente de si própria, não vá querer você, audacioso leitor, pretender descobrir o que anda na cabeça das pessoas depois de analisar as respostas que elas deram para a meia-dúzia de perguntas que você elaborou, não importa o quão zelosamente. Pouca diferença faz se você adotou perguntas abertas ou fechadas: você só disporá de um conjunto aproximado das questões do seu interesse. Tendo isso em mente, use as abertas e/ou as fechadas de acordo com o objetivo da sua pesquisa, da fase em que você se encontra no processo da pesquisa e da natureza do assunto em análise. No mais, seja feliz!

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