A coisa mais comum que se vê em perguntas fechadas é a inclusão da opção “outros” encerrando a lista das opções de respostas predefinidas no questionário. Ao fazer isso, o elaborador do questionário pretende capturar tudo aquilo que o respondente queria dizer e não encontrou nas opções que lhes foram previamente apresentadas.

Essa pretensão é mais do que justificável: no entender dos elaboradores de questionários, o respondente encontraria as respostas mais prováveis entre as fornecidas e “só” teria que registrar o que elas deixaram de fora. Ovo-de colombo, certo?

Será?

Bem, infelizmente não é bem assim que as coisas se passam. Isso foi provado num estudo feito “lá atrás”, em 1979, por dois pesquisadores americanos. Nele, os pesquisadores incluíram a seguinte pergunta: “Qual é o mais importante problema que o País enfrenta hoje?”.

Essa pergunta não foi escolhida ao acaso. Os Estados Unidos tinham acabado de passar por um inverno particularmente rigoroso – que, aliás, só foi superado pelo de 2014 – e que causou problemas de suprimento de comida e energia em praticamente todo o País. O que seria de se esperar? Que uma significativa parcela dos respondentes mencionassem problemas diretamente vinculados ao clima, como carências nos planos alimentares e energéticos, certo?

E foi isso mesmo que aconteceu... na pesquisa em que a pergunta foi formulada na forma aberta. Nessa modalidade, 22% dos indivíduos pesquisados deram essas respostas.

E o que aconteceu quando a mesma pergunta foi apresentada na modalidade fechada, com opções de resposta que não incluíam esse item entre as opções de resposta? Pela lógica, era de se esperar que ela fosse registrada pelos respondentes na opção “outros”, certo? Pois não foi! Apenas um(!!!), entre 592 indivíduos pesquisados, usou a categoria “outros” para falar desses problemas de suprimento. Para onde foi a lógica?

A conclusão dos pesquisadores (que eles próprios classificaram como óbvia) foi que quase todos os indivíduos pesquisados operam no âmbito das opções de resposta a eles fornecidas. Ou seja: a lógica foi para o espaço.

Esse não foi o único estudo a comprovar essa conclusão. Apenas a título de exemplo, cito um estudo mais recente, de 2003, que procurou investigar, via questionários aplicados pela web, quais seriam os principais problemas da internet, na ótica dos usuários da época. Para tanto, foram empregados três questionários diferentes – dois fechados e um aberto. Preciso dizer como saíram as respostas? Acho que você já imagina, perspicaz leitor: os problemas relatados na versão aberta foram bem mais numerosos do que os citados nas versões fechadas. Mas vale destacar uma observação importante: consideradas apenas as opções comuns às duas modalidades de questionários, a ordem das respostas é semelhante nos dois casos. Isso indica uma consistência dos resultados desse estudo com os outros, feitos até então, com base em outras formas de aplicação de questionários (não pela web).

Conclusão: se você não quiser pagar o preço de tabular respostas a perguntas abertas (uma das coisas mais trabalhosas – se não a mais trabalhosa – que eu já fiz em pesquisa), use perguntas fechadas, mas estude a fundo o assunto da sua pesquisa antes de propor as opções de resposta. A tendência de um trabalho bem feito nesse sentido é o esvaziamento da opção “outros”, isto é, as principais respostas do público tenderão a estar contempladas nas opções de resposta que acompanham as suas perguntas. Você terá um trabalho inicial maior (na concepção do questionário), mas um trabalho infinitamente menor depois (no momento da análise dos resultados).

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