Amigo leitor, você, que acaba de ler o título desta dica, responda sinceramente: achou que é uma bobagem? Achou a dica tão óbvia que chega a ser desnecessária? Achou que eu só a incluí nesta relação para encher linguiça? Se você respondeu sim a pelo menos uma das perguntas acima, permita-me discordar de você.

Sabe qual é uma das coisas mais comuns que tenho visto em reuniões com clientes? Quando vou apresentar a minha proposição de primeira versão de questionário para ser discutida, o cliente quase sempre se sai com esta: “Podemos aproveitar e perguntar também...” Pronto. Pode apostar que, quase sempre, o que vai no lugar das reticências é algo que está fora do escopo da pesquisa!

E qual é o problema disso? O cliente não está pagando? Ele não tem o direito de perguntar o que bem entender? Sim, ele está pagando e sim, ele tem o direito de perguntar o que quiser. Mas talvez ele não saiba que isso pode se voltar contra ele próprio!

Como assim?

Cansando desnecessariamente o respondente, angariando a sua antipatia pela pesquisa e montando as bases do que poderá ser um pântano de dados, muitos deles que jamais serão analisados, que dirá utilizados. Vejamos um exemplo para explicar isso direitinho.

Imagine uma pesquisa cujo questionário é bastante simples, composto de, digamos, cinco perguntas de opinião. Imaginemos também que, acompanhando essas perguntas, existam outras quatro, que visem a retratar o perfil dos respondentes – por exemplo, faixa etária, grau de escolaridade, estado civil e renda familiar – de acordo com algumas hipóteses prévias consideradas relevantes. Para o nosso exemplo, as faixas etárias seriam estas cinco: 18 a 29 anos, 30 a 39 anos, 40 a 49 anos e 50 a 59 anos e 60 anos ou mais; a escolaridade teria quatro classes: fundamental incompleto, fundamental completo ou ensino médio incompleto, ensino médio completo ou superior incompleto e superior completo; o estado civil, três classes: solteiros, casados, e separados ou viúvos; e a renda familiar, quatro faixas de salários mínimos: até 5, de 5 a 10, de 10 a 20 e mais de 20.

Agora imagine o processo de análise dos resultados (para simplificar o nosso exemplo, vamos considerar que o simples cálculo da média das respostas dadas nos bastasse). Se fôssemos considerar os respondentes como um grupo único, teríamos cinco resultados – um para cada uma das cinco perguntas do questionário, certo? Se fôssemos investigar se e como esses resultados variam conforme a faixa etária dos respondentes, passaríamos a ter 25 resultados (as médias das cinco perguntas calculadas para cada uma das cinco faixas etárias consideradas), confere? Se quiséssemos agora investigar se e como os resultados variavam segundo grupos etários e os graus de escolaridade, passaríamos a ter 100 resultados (5 perguntas, 5 faixas etárias, 4 graus de escolaridade); e assim por diante. Já dá para imaginar o volume de informação que poderia ser gerado ao fazermos todos os cruzamentos possíveis, não dá?

Imagine, então, fiel leitor, que apareça algum cliente animadinho com a pesquisa e sugira a você acrescentar mais uma variável: o local de moradia do respondente (Zona Norte, Zona Sul, Zona Oeste, Centro, etc.). “Para quê?” – pergunta você, consultor experiente, que não vê a ligação dessa variável geográfica com o assunto da pesquisa. “Ah, para ver o que dá; não custa incluir uma perguntinha” – é o que o cliente animadinho responde.

A essa postura, os consultores de pesquisa apelidaram jocosamente de “jaque” – expressão oriunda da série “Já que estamos fazendo outras perguntas, vamos aproveitar e...”. Pois é: o “jaque” sempre vem acompanhado do verbo “aproveitar”.

O que muita gente não vê é que, a cada perguntinha inocente acrescentada ao questionário, cresce geometricamente a quantidade de dados gerados. Se a inclusão de uma pergunta não se justifica, no sentido de que não há uma hipótese de trabalho que fundamente a sua inclusão, então ela não deve ser incluída, pois isso só causa uma “poluição” do relatório.

Nós citamos o exemplo do local de moradia. A inclusão dessa variável estaria plenamente justificada, caso a pesquisa tratasse de assuntos como a variedade do comércio de rua, a quantidade de linhas de ônibus que servissem a área, a qualidade da iluminação pública, etc. Mas imagine que o tema da pesquisa fosse a preferência por doces. O que teria o local de moradia do respondente a ver com o assunto?

Os pesquisadores de língua inglesa usam duas ótimas expressões quando se referem a esse problema: é necessário separar o “need do know”, isto é, o que é de fato necessário extrair como resultado da pesquisa do “nice to know” (a mera curiosidade em saber se e como determinado fato se passa). A nós, consultores de pesquisa, cabe tentar resistir o quanto possível ao “nice to know” inconsequente e nos ater ao “need to know” indispensável. Para o bem dos respondentes, dos clientes e do nosso próprio.

Teste Teste Teste