Confesse, cabreiro leitor: você acha que eu não disse nada no título desta dica, certo? Pois não disse mesmo! Se você assistiu ao filme “Faça a coisa certa”, do cineasta Spike Lee, certamente se lembra da cena em que é dita a frase que dá título ao filme. Trata-se de um conselho que, sem mais nem menos, um senhor dá, no meio da rua, para o personagem vivido pelo diretor-ator. É inesquecível a expressão atônita do rapaz ao receber esse conselho completamente inútil, por óbvio que é (afinal, qual é a coisa certa? Aí é que estaria a sabedoria!).

O mesmo se dá com a minha dica: “use sempre um número razoável de categorias nas suas escalas”. Afinal, o que é um número razoável, pombas?

Vamos falar sobre isso já, já. Antes, porém... você sabe o que são atitudes? Porque estamos falando de escalas de mensuração de atitudes!

“Atitude” é uma dessas palavras que parecem ser uma coisa, mas são outra. Em português, costumamos usar essa palavra como sinônimo de “comportamento” (“Não gostei da atitude do gerente, que saiu batendo a porta com violência”; “Queria ver a atitude do seu irmão, se, em vez do magrinho, estivesse lá aquele fortão!”; “Minha jovem, modere seu palavreado e seu tom de voz; a sua atitude não condiz com este ambiente”).

Nos três exemplos dados, a palavra “atitude” foi empregada na acepção de comportamento. Em conversas coloquiais, tudo bem, mas é bom saber que o termo tem outra acepção em ciências sociais – ele significa predisposição, postura. Dizemos que um indivíduo tem uma atitude favorável (ou desfavorável) em relação a um objeto qualquer, seja esse objeto uma ideia, uma marca, um partido político, uma celebridade, uma profissão, um programa de TV, uma universidade, um traço de personalidade, um procedimento médico, etc. E essa tal atitude é uma das coisas mais medidas em pesquisa. Daí chamarmos a atenção para o número de categorias das escalas criadas para medi-la.

Falei, defini, teci considerações, dei exemplos... mas afinal, e o tal número razoável de categorias: qual é?

Vamos lá. Na década de 30, um psicólogo americano, de nome Rensis Likert, criou uma escala de mensuração de atitudes para a sua tese de doutorado. A escala, que se tornou clássica e ganhou o nome do seu criador, tinha originalmente cinco categorias: “Concordo totalmente”, “Concordo”, “Não concordo nem discordo”, “Discordo” e “Discordo totalmente”. Um mundo de gente passou a estudar e a usar essa escala para os mais diversos assuntos.

Por que cinco categorias? Simplesmente porque foi assim que o nosso amigo Likert concebeu a escala! Isso quer dizer, então, que nós poderíamos usar qualquer outro número de categorias? Três? Oito? Vinte?

Espere aí, apressado leitor; vamos com calma, que também não é assim. Usar um número muito pequeno de categorias (por exemplo, abaixo de cinco) não é recomendável, porque assim, embora se consiga captar a direção da opinião do indivíduo pesquisado (mais para a favor ou mais para contra), não há como saber muito bem a intensidade dessa opinião (o quão efetivamente a favor ou contra ele se posiciona com relação à questão em estudo).

E usar um número muito grande de categorias? Responda você mesmo, esperto leitor. Escolha um assunto qualquer sobre o qual você tenha uma opinião formada. Formule uma afirmativa com base nesse assunto e imagine uma escala de, digamos, 15 categorias, em que a primeira posição corresponda à opinião “Discordo totalmente” e a 15ª, à posição “Concordo totalmente”. Suponha que você concorde, mais do que discorde, da afirmativa. Você saberia precisar se iria assinalar a 14ª posição, por exemplo? Ou será que a 13ª não refletiria melhor o seu pensamento? Hmmm... quem sabe a 12ª?

O que eu quero dizer – e você já percebeu isso – é que escalas muito extensas oferecem ao indivíduo pesquisado uma diversidade tão grande de opções de resposta, que a diferença ente opções vizinhas é uma filigrana, muitas vezes impossível de ser estabelecida.

Quer ter uma ideia do problema? Imagine o ridículo que seria batizar todas as categorias de uma escala muito extensa. Tome, com exemplo, uma escala de 11 categorias (que nem é tão absurdamente grande assim). Numa escala equilibrada, teríamos cinco posições na área da concordância, cinco na de discordância e uma neutra. Em tese, ao tentarmos batizar cada uma das categorias, nós chegaríamos um absurdo como este: “Concordo totalmente”; “Concordo com quase tudo”; “Concordo muito mais do que discordo”; “Concordo mais do que discordo”; “Concordo um pouco mais do que discordo” (do lado da discordância, idem). Acho que isso ilustra bem o problema de que estamos discutindo aqui, não?

Então, de novo: o que seria um tamanho ideal de escala? Muitos pesquisadores se debruçaram sobre o assunto e chegaram a conclusões e sugestões diversas. Vários estudos, por exemplo, recomendam o uso de sete categorias (ou daí para cima, segundo eles). Seus autores destacam diversas vantagens em se usar essa quantidade de pontos na escala. Beleza. Só que isso cria um desafio para o elaborador de questionários. Veja só: imagine que você escolha trabalhar com uma escala de concordância de sete categorias. Supondo ser a escala equilibrada, isto é, com a categoria intermediária no centro e o mesmo número de categorias dos dois lados, você teria posições que poderiam ser batizadas mais ou menos assim:

- Discordo totalmente
- Discordo muito
- Discordo, mas não muito
- Não concordo nem discordo
- Concordo, mas não muito
- Concordo muito
- Concordo totalmente

Está aí a sua escala de concordância equilibrada com sete posições. Mas os estudos citados falavam em sete categorias no mínimo. Bom, você, que já passou pela experiência de tentar se situar numa escala de 15 categorias, sobre uma questão que você mesmo criou, já sentiu na carne a dificuldade que isso oferece. E se a coisa foi confusa para você, que criou a afirmativa e a escala, imagine para os pobres-coitados que não têm nada com isso e que foram selecionados para responder à pesquisa!

Nesse contexto, não admira a recomendação feita por um pesquisador que estudou a validade de escalas de mensuração de atitudes: quando se designa por nomes cada uma das categorias de uma escala grande, a informação produzida pela escala é menos válida do que quando se definem apenas as categorias extremas (no caso, “Discordo totalmente” e “Concordo totalmente”). Pronto: isso lhe tira um problema dos ombros: você pode usar escalas com mais de cinco categorias, sem se importar em nomeá-las, uma a uma.

Mas aí vem você de novo, insistente leitor, me cobrando: “Para de tagarelar e me diz, de uma vez, quantas categorias eu devo usar nas escalas!”.

Mas eu já disse, impaciente leitor! Um número razoável!

Brincadeira; o que eu estou querendo dizer, desde o início, é que não há um consenso a respeito. Existem inúmeros estudos a respeito, e cada autor propõe um número diferente. Na prática, você vai encontrar um monte de trabalhos que seguiram os passos de Likert e adotaram escalas de cinco categorias. Cinco? Menos do que a recomendada pelos estudos que falam em pelo menos sete? Sim, mas nada que chegue a comprometer sensivelmente os resultados. A rigor, com cinco, sete, nove ou dez categorias, você estará usando o tal número razoável. É uma questão de bom-senso: evite usar menos que cinco, para não prejudicar a validade da sua escala; tampouco use uma quantidade muito maior, visando a uma maior precisão das respostas, pois os respondentes dificilmente terão a sensibilidade de discriminar posições vizinhas em escalas muito extensas, o que torna o objetivo da precisão uma ingênua quimera. Dentro desses limites razoáveis, escolha a que quiser (mas não vá sair querendo batizar cada categoria de escalas mais extensas, hein!).

Teste Teste Teste