Muitas vezes, em questionários de pesquisas de opinião, encontramos perguntas que buscam investigar o que os respondentes pensam a respeito de algo que deveria (ou poderia) ser feito a respeito de um assunto qualquer. Em alguns casos, deixa-se de perguntar o oposto, isto é, o que não fazer. Dou a seguir um exemplo clássico para esclarecer o que eu quero dizer.

Tempos atrás, uma pesquisa realizada nos Estados Unidos trazia a seguinte pergunta (livremente traduzida):

“Você acha que a maioria das empresas que demitem empregados em tempos de baixa demanda poderia se reorganizar e proporcionar aos seus funcionários um trabalho constante ao longo do ano?”

À primeira vista, atento leitor, trata-se de uma pergunta aceitável, redigida dentro da boa técnica de elaboração de questionários, não acha? Não se está uma induzindo uma resposta, não está sendo perguntada mais de uma coisa ao mesmo tempo, não foi empregado nenhum jargão, não se está exigindo do respondente nenhum esforço – seja de memória, de cálculo ou do que for – etc. Ou seja: não parece haver, em princípio, nenhum dos vícios na pergunta que condenariam seu elaborador às chamas do inferno, não é verdade? No entanto, a pergunta tem um problema: ela peca por não apresentar a situação alternativa.

“Que situação alternativa?” – perguntará você, intrigado leitor.

“A de não ser possível evitar as demissões” – responderei.

“Mas isso não é óbvio?” – tornará você – “Se eu estou perguntando às pessoas se elas acham que as empresas poderiam fazer alguma coisa para evitar as demissões, é óbvio que quem achar que não é possível vai responder que não, ora!”.

Pois é, arrebatado leitor, a coisa parece óbvia mesmo – só que não é. E não se trata de uma opinião minha; as duas alternativas de perguntas foram testadas e as respostas computadas. Veja só os resultados obtidos: primeiro, com a pergunta apresentada acima, isto é, sem a explicitação da situação alternativa: 63% responderam que as empresas podiam evitar demissões; 22% disseram que não; e 15% não opinaram. Agora atente para a nova redação da pergunta (com alternativa explícita):

“Você acha que a maioria das empresas que demitem empregados em tempos de baixa demanda poderia se reorganizar e proporcionar aos seus funcionários um trabalho constante ao longo do ano, ou você acha que as demissões são inevitáveis?”

Oito palavrinhas a mais! Será que, chovendo no molhado, ou seja, apenas verbalizando “a parte óbvia” que está implícita na pergunta anterior, iríamos obter resultados muito diferentes?

Aí é que está o “x” da questão, incrédulo leitor: a parte implícita não chove no molhado! E a prova está nos resultados obtidos a partir da aplicação da pergunta com a sua nova redação (a explicitação da situação alternativa – a parte implícita): 35% afirmaram que as empresas podiam evitar as demissões; 41% disseram que não; e 24% deixaram de se manifestar.

Vamos reunir os dois resultados numa mesma tabela, a fim de facilitar a comparação.

Versão da pergunta

Poderiam evitar demissões (%)

Não poderiam evitar demissões (%)

Não souberam responder (%)

Redação original

63

22

15

Redação revista

35

41

24

E agora, pasmo leitor? A quantidade de pessoas que responderam afirmativamente à pergunta caiu 28 pontos percentuais de uma alternativa de redação para a outra! A coisa ainda parece tão óbvia agora? Não, né?

Você ainda pode questionar: mas qual dos dois resultados melhor traduz a opinião dos respondentes?

A pergunta procede, e vale a pena investirmos dois minutinhos nela.

Quando um elaborador de questionários deixa uma alternativa implícita numa pergunta, ele está automaticamente considerando que as respostas “sim” significam concordância total com o que foi perguntado, ao passo que “não” significaria discordância total. Usando como exemplo a pergunta acima: para o redator da versão original da pergunta (sem explicitação de alternativa de resposta), quem respondesse “sim” seria da opinião de que as empresas poderiam se reorganizar de modo a evitar demissões; já quem respondesse “não” estaria manifestando a opinião de que essas empresas não teriam como se reorganizar em períodos de baixa demanda, evitando assim as demissões. Acontece que essa é uma presunção e tanto, pois nem sempre o contrário de branco é preto! Muitos respondentes podem realmente pensar da forma como imagina o redator da pergunta, mas para muitos outros o “sim” poderia significar algo diferente. Vejamos duas possibilidades.

1ª) Um grupo de respondentes poderia ter a seguinte opinião sobre o assunto: “Eu não acho que reorganizações internas das empresas, por si sós, sejam suficientes para que elas consigam reter toda a força de trabalho durante períodos de baixa demanda; acho que elas poderiam, sim, reduzir um pouco o número de empregados demitidos. No entanto, se eu responder ‘não’ à pergunta, vou dar a entender que as empresas não poderiam se reorganizar em períodos críticos, quando não é essa a minha opinião, portanto, vou responder ‘sim’”.

2ª) Raciocínio de outro grupo de respondentes: “Eu não acho que caiba às empresas o ônus de sustentar uma força de trabalho ociosa, mas responder ‘não’ não ‘pega bem’, porque poderia sinalizar uma insensibilidade minha quanto aos trabalhadores demitidos e suas famílias, ainda que eu considere que os períodos de baixa demanda não existem por culpa das empresas. Discordando da afirmativa, eu estaria sendo visto como me colocando friamente do lado do poderio do capital. É melhor não me comprometer e responder ‘sim’”.

Você pode até se indignar, ardoroso leitor, diante dos raciocínios acima, mas creia: eles existem. E se existem, não importa se são indignantes ou não – o mais importante, no que toca à pesquisa, é que eles podem distorcer os resultados (no caso, inflam indevidamente “o grupo do sim”. Observe que a simples introdução, na pergunta, da situação alternativa (“ou você acha que as demissões são inevitáveis?”) pode funcionar como uma espécie de “licença” que faltava para boa parte do público respondente assinalar a resposta que mais se aproxima da sua opinião real. O simples fato de se explicitar uma cláusula alternativa na pergunta sinaliza aos respondentes que quem está perguntando admite, como resposta aceitável, que não seja possível evitar demissões. Diante dessa cláusula alternativa explícita, os respondentes do primeiro grupo poderiam “migrar” para o “não”, pensando assim: “Eles falam aqui em demissões inevitáveis; posso entender isso como “algumas demissões são inevitáveis” – exatamente o que eu penso”. O segundo grupo (o politicamente correto) poderia simplesmente sentir-se mais à vontade diante da cláusula alternativa e pensar: “Bem, se eles próprios admitem as demissões como uma possibilidade plausível, eu não me sinto um monstro em assinalá-la”.

Resumo da ópera: nada de meias-palavras no seu questionário, se você quiser respostas válidas. Deixe a sutileza para situações da vida em que ela é mais útil... e até necessária.

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