Caro leitor, pense em algo ou em alguém de que você goste muito. Pensou? Agora responda com sinceridade: você gosta dessa coisa ou dessa pessoa em absolutamente todos os seus aspectos? Lembre-se: sinceridade! Aquela deliciosa casa na praia, para onde você foge quando quer escapar da loucura do dia a dia, por exemplo: ela é ampla, confortável, próxima ao comércio e distante do tumulto, tudo de bom, né? Bem, tem aquele probleminha dos mosquitos: por mais que você tenha tentado (e como tentou!), não conseguiu se ver livre deles, não é verdade?

Então, esqueça a casa e pense na sua namorada, a Fernanda. Ah, essa é dez, sem dúvida alguma! Dócil, inteligente, espirituosa, sempre de bom-humor, topa tudo, supercompanheira... E como é linda, hein, cara? Perfeita, a Fernanda, concorda? Quer dizer... seria perfeita, não fosse aquele probleminha dela com a bebida, não é mesmo? Aliás, “probleminha” nem seria a melhor palavra, concorda? A julgar pelo número de vezes em que ela já te causou constrangimentos-monstro ao soltar a franga sem reservas na frente de quem quer que seja... Lembra aquela vez na presença do teu chefe? Não, é melhor nem lembrar.

Fiquemos nesses dois exemplos. Imagine que alguém te pedisse para dar uma nota – uma única nota – para aquela sua casa de praia, levando em consideração conforto, instalações, localização, silêncio, acessibilidade, bem-estar, etc. Se você for 100% honesto na sua resposta, não poderá dar grau 10, apesar de adorar a casa – e isso só por causa dos desgraçados mosquitos. Só?!!! Mas esses mosquitos te levam ao desespero há anos! Como assim “só” por causa deles, como se eles fossem um pequeno aborrecimento? Se a pergunta fosse subdividida – cada parte dela pedindo a sua avaliação sobre um aspecto diferente –, aí, sim, você poderia mandar um 10 em um monte de atributos e, num item correspondente ao bem-estar, detonaria a avaliação, concorda? O mesmo com a irresistível Fernanda: 10 em tudo, mas, na avaliação do autocontrole...

O que estou querendo dizer com isso é que constitui um erro tão grave quanto comum incluir em questionários de pesquisa perguntas que abrangem mais do que um único atributo do objeto que está sendo avaliado. Alguns exemplos:

 

“O professor revelou um profundo conhecimento do assunto e mostrou-se aberto a esclarecer as dúvidas dos alunos?”


“Você usa bicarbonato de sódio para limpeza de panelas e como fermento químico?”


“Você cogita, num horizonte de três anos, parar de trabalhar por um ano e se dedicar em tempo integral a um curso de pós-graduação?”

 

Temos aí três perguntas “infelizes”. Na primeira delas, os alunos não saberão o que responder se acharem que o professor aparentou conhecer profundamente o assunto lecionado, mas foi hostil a qualquer aproximação dos alunos. Ou vice-versa! Não admira: a pergunta aborda duas coisas diferentes. Como responder a pergunta em casos assim? Não há como. O mesmo ocorre no caso do bicarbonato: como poderá responder a pergunta uma pessoa que use o produto para um fim, mas não para o outro? Por fim, no que tange aos planos de médio prazo, o que poderá responder um indivíduo que pensa, sim, em parar de trabalhar, mas não para fazer uma pós, e sim para fazer outra coisa (um intercâmbio, uma viagem, escrever um livro, etc.)? E o que responderia o sujeito que pretende fazer uma pós-graduação em tempo integral (de manhã e à tarde), mas não parar de trabalhar (à noite)?

O que se observa nesses casos, amigo leitor, é o erro de se perguntarem duas coisas ao mesmo tempo. Um respondente que concorde com uma delas e discorde da outra não terá como dar uma resposta satisfatória. O que ele pode fazer: responder que sim, por decidir que só vai levar em conta a parte da pergunta com que concorda? Ou que não, levando em conta a outra? A pessoa também pode deixar a resposta em branco, entendendo que nenhuma outra resposta que der será satisfatória. Seja como for, o pobre coitado a quem couber analisar as respostas terá lixo como material de trabalho. E com lixo como matéria-prima, ele não poderá produzir outra coisa senão... lixo!

Ah, importante: não pense que esse erro só ocorre quando se usa a preposição “e”, como nos exemplos vistos acima. Ocorre sempre que se pergunta mais de uma coisa ao mesmo tempo. Quer ver outros exemplos infelizes sem o fatídico “e”? Vamos lá:

Você pratica esportes como forma de prevenção de doenças?

Quem responde “não” está dizendo o quê? Que pratica esportes, mas não com esse objetivo, ou que não pratica esportes de forma alguma?

Outro exemplo:

Você é centralizador no trabalho, porque não confia na capacidade dos colegas?

De novo: como interpretar uma resposta “não”? O respondente é centralizador por outro motivo, ou ele não é centralizador?

Impossível saber! Nos exemplos dados, há sempre duas coisas misturadas numa mesma pergunta.

Conclusão: se você quiser perguntar duas, três ou dez coisas a respeito do seu objeto de pesquisa, faça duas, três ou dez perguntas separadas.

Teste Teste Teste