“Redija as suas perguntas de modo que elas possam ser compreendidas por uma criança de dez anos de idade”.

Chocado com a frase acima? Eu fiquei, quando a ouvi, pela primeira vez, do meu professor de pesquisa. Como assim, dez anos? Então eu vou banalizar, vou infantilizar o meu questionário?

Imagine-se, amigo leitor, diante de duas alternativas: correr o risco de parecer didático (e até de, vez por outra, banalizar o questionário, correndo o risco de que alguns respondentes se sintam tratados como crianças) ou desprezar o conselho do grande mestre e empregar palavras e construções que poderão não ser entendidas por uma significativa parcela do público. O que você preferiria?

Esta Dica encabeça uma pequena lista dedicada ao que eu chamei de “perguntas difíceis” (Dicas nos. 6 a 10). Mas exatamente que tipos de pergunta eu estou considerando como difíceis? Em princípio, qualquer uma que embatucasse o respondente, seja por ele não ter a resposta; por até tê-la, mas só mediante muito esforço; ou – por um motivo muito mais prosaico – por ele não entender a pergunta, em função do emprego de “palavras difíceis”.

Nada melhor do que mostrar um exemplo para ilustrar bem esse ponto. É o que farei já, já; antes, porém, duas palavrinhas sobre o que podem ser consideradas “palavras difíceis”. Palavras difíceis, na minha concepção, são simplesmente aquelas que não constam do vocabulário habitual de quem vai responder ao questionário. Só por essa definição, já dá para ver que jargões não são nada bem-vindos em pesquisa (a menos, é claro, que o público a ser pesquisado seja formado exclusivamente por indivíduos que conheçam os jargões empregados).

Mas não são só os jargões que devem ser evitados. Palavras difíceis, para certos grupos de pessoas, serão palavras pouco encontradas no dia a dia, como, sei lá, “obnubilação”, “perfunctório”, “alvitre”, “deletério”, etc. Para outras pessoas, poderão ser termos menos cabeludos, mas ainda assim estranhos ao vocabulário delas. Exemplos: “iminente”, “incidência”, “permissivo”, “exaurir”, etc.

A verdade – e a esta altura você já deve ter percebido isso, sagaz leitor – é que nem sempre saberemos a priori quando estamos sendo bem compreendidos e quando nos tornamos herméticos. Lembro-me de um caso, no tempo em que dava aulas para turmas de graduação na faculdade. Num dia de prova, um aluno me chamou e disse que não estava entendendo direito o enunciado de determinada questão. Eu procurei esclarecer o assunto, mas não fui compreendido. Tentei explicar de outro jeito, e nada. Só depois de algum tempo de um diálogo maluco é que eu fui entender qual era o verdadeiro problema: o rapaz desconhecia o significado do termo “análogo”, que eu havia empregado no enunciado da questão! Jamais me passaria pela cabeça que um aluno de uma universidade de primeira linha não soubesse o que “análogo” queria dizer! Ou seja: sem saber, eu estava usando uma palavra “difícil” – pelo menos para um aluno da turma.

Dito isso, vamos ao exemplo prometido. Anos atrás, William Albert Belson, um acadêmico especialista em pesquisa testou a seguinte pergunta:

“Você acha que os novos programas de televisão são politicamente imparciais?”

O sr. Belson submeteu a pergunta a 56 respondentes e acompanhou o processo de resposta ao lado deles. Veja o que descobriu:

- 25 respondentes interpretaram a palavra “imparciais” mais ou menos de acordo com o esperado;

- 10 desconsideraram a palavra;

- 9 a interpretaram como uma tendência a gastar muito tempo com aspectos políticos;

- 5 atribuíram ao termo “imparciais” o significado oposto (algo como injusto, enviesado);

- 2 entenderam o termo como “pouco tempo dedicado à informação”

- os restantes não tinham ideia do significado da palavra.

Vamos fazer uma continha rápida? Sejamos otimistas e imaginemos que os dez que “passaram batido” pela palavra a teriam entendido corretamente se tivessem prestado atenção a ela (premissa altamente duvidosa, mas vá lá). Nesse caso, teríamos 35 entendimentos corretos em 56 testes, ou seja, 63%. Já pensou em fazer uma pergunta cujo significado é desconhecido de no mínimo 37% do seu público? Praticamente um em cada quatro respondentes!

Preciso dizer mais alguma coisa? Acho que não, né?

O que fazer, então, para saber se a gente usou palavras difíceis para o nosso público? Pré-testando o questionário. Essa é a regra de ouro. Na Dica Especial, você encontra importantes informações sobre pré-teste de questionários.

Teste Teste Teste