Continuamos aqui com a série “perguntas difíceis”. Na Dica nº 6, falamos sobre o uso de palavras difíceis; na Dica nº 7, sobre perguntas que o respondente não está capacitado a responder. Vamos ver agora perguntas que são difíceis porque exigem do respondente informações que ele não pode dar, porque não tem memória de elefante.

Quais foram os dez melhores filmes que você viu nos últimos cinco anos?

Em quem você votou para deputado estadual nas três últimas eleições?

Há quanto tempo você é assina a revista XYZ?

Que belezuras de perguntas, hein, caro leitor?! Não sei de você, mas se um funcionário meu inclui perguntas como essas num questionário para um cliente, eu chego pra ele e digo: “Ô Otacílio, chega aqui um pouquinho, pra gente bater um papo”. E começaria perguntando se ele próprio conseguia responder às perguntas. Se conseguisse, eu mandava internar. Mas diante da mudez dele, eu explicaria que, ao contrário de academias de ginástica e de sessões de psicanálise, em processos de pesquisa não se deve submeter os respondentes a nenhum tipo de esforço – nem mesmo de memória.

Memória é um bicho enganoso. É possível que, decorrido algum tempo do evento, as pessoas só se recordem bem de acontecimentos marcantes – sejam eles positivos ou negativos. Mas veja bem: eu disse “é possível”! Não nos esqueçamos dos mecanismos de defesa que fazem com que algumas pessoas bloqueiem das suas lembranças episódios e de tortura física ou psicológica que sofreram no passado. Poxa, se as pessoas não conseguem se lembrar de coisas como essas, seria no mínimo ingênuo, de nossa parte, querer que elas tivessem a resposta para qualquer pergunta do nosso interesse.

Tenho a certeza de que o Otacílio retiraria as tais perguntas do questionário e não as incluiria em nenhum outro. Como tenho a certeza de que você faria o mesmo, perspicaz leitor.

Conclusão: não faça perguntas que obriguem o respondente a puxar pela memória, a estimar tempos e quantidades e a falar do que ele desconhece, porque vai sair besteira Pior: é essa besteirada que vai ser o seu material de trabalho.

Uma palavrinha final: não faz muito tempo, eu estava respondendo a um questionário sobre saúde, quando topei com a seguinte pergunta: “Quantos quilos você ganhou desde os seus 18 anos?” Eu, que estou caminhando para os 60, morri de rir com a pergunta. Justo eu, que mal lembro o que comi ontem... Como piada, achei a pergunta ótima. Quanto à resposta... deixei-a em branco, claro!

Teste Teste Teste