Vamos combinar: não é todo mundo que se sente à vontade em admitir que não tem ideia do que você está falando, concorda? Aliás, isso não é nenhuma novidade – pelo contrário, é coisa que a gente percebe nas conversas do dia a dia. Você acha que, respondendo a uma pesquisa, as pessoas agiriam de modo diferente? Não mesmo! Ainda mais quando a pergunta ou o assunto são apresentados ao indivíduo por um entrevistador de carne e osso, à sua frente (o problema é bem menor quando o indivíduo pesquisado preenche sozinho um questionário, mas ainda assim pode ocorrer). Ora, se o seu entrevistado sente vergonha em dizer que não faz ideia do que você está falando, não é muito difícil adivinhar o que ele pode fazer com a sua pergunta: ele pode simplesmente chutar a resposta!

Imagine as seguintes perguntas (fictícias):

- Você acredita que a política econômica conduzida pelo Governo pode levar o País à estagflação?
- Você julga que o Conar é eficaz na sua missão de coibir os exageros na propaganda?
- Na sua opinião, uma eventual reforma política brasileira deveria contemplar a questão da cláusula de barreira?

Olha... eu não gostaria de estar na pele dos profissionais envolvidos nas pesquisas que tivessem essas perguntas nos seus questionários! Excetuando economistas, gente interessada em economia e antenados em geral, quantas serão as pessoas que conhecem o significado de estagflação? Entre os cidadãos comuns, quantos terão ouvido falar no Conar (que dirá, conhecer as suas atribuições)? E o que dizer sobre cláusula de barreira?

Interessante é ressaltar que o problema com as perguntas acima não se restringe “apenas” ao desconhecimento de termos e nomes (o que, aliás, já seria um problemão por si só), mas se estende por todo o contexto. Vejamos por quê, pergunta por pergunta.

- 1ª pergunta: “Você acredita que a política econômica conduzida pelo Governo pode levar o País à estagflação?”

Mesmo admitindo que os respondentes da sua pesquisa conheçam o significado de “estagflação”, vale questionar: 1) será que eles estão a par da política econômica do Governo? 2) Será que eles têm condições de avaliar causas e consequências dessas variáveis?

- 2ª pergunta: “Você julga que o Conar é eficaz na sua missão de coibir os exageros na propaganda?”

Mesmo que os respondentes conheçam o Conar (e saibam o significado do verbo “coibir”!!!), será que eles têm elementos para avaliar a eficácia do Conselho na referida missão?

- 3ª pergunta: “Na sua opinião, uma eventual reforma política brasileira deveria contemplar a questão da cláusula de barreira?”

Mesmo supondo que o público-alvo da pesquisa esteja familiarizado com os conceitos de “reforma política” e “cláusula de barreira” – e mesmo que as pessoas entendam o significado das palavras “eventual” e “contemplar” –, cabe questionar se elas têm condições de elaborar um julgamento referente a uma questão tão complexa (que já foi inclusive alvo de discussões no Supremo Tribunal Federal).

Você acha que eu estou exagerando? Então faça o seguinte teste:

1. Crie um pequeno questionário (Questionário 1) em que a maioria das perguntas seja de fácil resposta e insira, em meio a elas, as três que demos como exemplo;

2. Crie um outro questionário (Questionário 2) praticamente igual ao primeiro, a não ser pela substituição de alguns termos-chave por outros que deixem a pergunta sem sentido (por exemplo, troque “estagflação” por “contrafação”; “Conar” por “Cade”; “cláusula de barreira” por “jurisdição bicameral”);

3. Dirija-se a um lugar onde haja muitas pessoas (um shopping center, uma estação rodoviária, um parque público, etc.);

4. Submeta o questionário aos passantes de forma intercalada, da seguinte maneira: ao primeiro entrevistado, ao terceiro, ao quinto, etc., aplique o Questionário 1; aos demais, aplique o Questionário 2.

Se você, descrente leitor, for honesto em não interferir na definição de quem vai responder aos questionários (isto é, se não escolher, você mesmo, as pessoas a quem vai fazer as perguntas, se não fizer as entrevistas num local elitista, etc.), sou capaz de apostar que as respostas dos dois grupos não irão diferir muito, umas das outras. Isso ocorrendo, ficaria demonstrado que muitas pessoas teriam respondido as perguntas sem saber do que estavam falando – tanto em um quanto em outro caso!

Isso não seria de se estranhar; afinal, é fato conhecido que quando um indivíduo pesquisado sente dificuldades com uma pergunta, ele provavelmente a modificará mentalmente, de forma a poder respondê-la na boa.

Você acha que esse problema se resolve pela inserção da opção “não sei” entre as possibilidades de resposta? Bom, a inclusão da opção “não sei” pode resolve parcialmente o problema... quando o questionário for autoadministrado, isto é, quando o respondente lê, ele mesmo, as perguntas. Bote um pesquisador com uma pranchetinha ou um PDA na frente dos respondentes, e eu quero ver quantos terão a coragem de admitir que não sabem do que o pesquisador está falando.

Teste Teste Teste