Um centro americano de pesquisa médica criou um questionário com o objetivo de avaliar o quão apta está uma pessoa a dar início a um programa de emagrecimento. Destaquei algumas perguntas que passo a analisar.

1.1) Considerando o nível de stress a que você está submetido atualmente, acha que tem condições de se manter focado na perda de peso e mudar o seu estilo de vida?

( ) Sim, facilmente

( ) Relativamente

( ) Sim, mas com alguma dificuldade

( ) Não, não seria nada fácil ou não conseguiria de jeito nenhum

 

Qual é o problema?

Meu comentário:

Os problemas são dois. Começando pelas opções de resposta, responda honestamente: qual é a real diferença entre a segunda e a terceira alternativa? Tudo bem: é de se supor que o respondente entenda que as opções de resposta estão dispostas em uma ordem tal que, à medida que se transita da primeira para a última, a situação é sempre mais desfavorável ao início de um programa de emagrecimento. No entanto, as duas alternativas apontadas são tão próximas, que é perfeitamente possível supor que diferentes respondentes, com a mesma autoavaliação, dessem respostas diferentes – ambos querendo dizer a mesma coisa. De fato, quem responde “relativamente” avalia que tem condições de se dedicar ao tal programa, mas admite que essas condições não são as melhores deste mundo, certo? Mas responda com sinceridade: isso não significa exatamente (ou quase exatamente) o mesmo que dizer que tem condições de dar início ao programa, embora com alguma dificuldade? Ou seja: temos duas opções que querem dizer a mesma coisa, ou quase. Em outras palavras, duas opções praticamente “sem distância” entre si.

E entre a terceira e a quarta opções? Bem, aí já há um abismo! Passa-se de um “sim, com alguma dificuldade” para um “Não, nada fácil / de jeito nenhum”. Por que será que os elaboradores do questionário desprezaram uma opção intermediária – algo como “Sim, mas com grande dificuldade”?

Você poderia argumentar: “Mas essa opção está embutida na quarta, juntamente com o ‘de jeito nenhum’! A clínica deve ter juntado as duas respostas numa só opção, porque, provavelmente, a experiência deles mostra que a propensão de uma pessoa a se dedicar a um programa de emagrecimento é a mesma, julgue ela ser muito difícil ou julgue ela ser impossível mudar o estilo de vida”.

O que eu lhe respondo a isso, amigo leitor, é: embora não seja problema algum juntar duas opções de resposta quando não interessa ao cliente da pesquisa a separação entre elas, não é esse o caso da pergunta em análise. Observe que a situação de grande dificuldade (“não seria nada fácil”) está precedida de um “não”, ao passo que a opção cuja falta eu apontei vem precedida de um “sim”. É totalmente uma pessoa alguém alegar grandes dificuldades e não fazer determinada coisa e outra alegar grandes dificuldades e fazê-la! Uma está dizendo: “X me impede de fazer Y”; a outra diz: “Faço Y, apesar de X”. Ou seja: os pesquisadores subtraíram do público uma possibilidade de resposta.

Para explorar mais essa discussão sobre categorias de respostas faltantes, leia a Dica nº 20.

Eu ainda vejo um outro problema, e esse está no enunciado da pergunta. Observe que se fala em foco na perda de peso e em mudança do estilo de vida. São duas coisas, certo? É bem verdade que, para se conseguir perder peso, há que se mudar o estilo de vida de alguma forma, seja comendo menos, mudando a dieta, passando a praticar (mais) exercícios, etc. Mas ainda assim, trata-se de duas coisas diferentes. Permita-me assumir o papel de advogado do diabo e lançar a seguinte hipótese: e se determinada pessoa considera possível mudar seu estilo de vida, mas não com foco na perda de peso? O que você acha, amigo leitor?

Teoricamente, a minha hipótese é perfeitamente defensável. Imagine um indivíduo que, em plena meia-idade, decida mudar uma série de hábitos, em nome de uma saúde melhor. Com esse objetivo em mente, ele elenca várias medidas – por exemplo, a prática de ginástica aeróbica, o abandono do cigarro, um sono diário de oito horas no mínimo, etc. Uma dessas medidas seria o programa de emagrecimento. Muito bem. Suponhamos agora que esse indivíduo, com elevado nível de stress no seu dia a dia, considere perfeitamente possível adotar alguns dos novos hábitos, como praticar exercícios aeróbicos e dormir oito horas por dia, mas não outros, como parar de fumar e... manter-se focado na perda de peso. Ou seja: sua predisposição para adotar alguns hábitos é uma, e para adotar outros é outra. Como é que ele poderá responder à pergunta?

Imagino o que deve ter levado o elaborador do questionário a juntar as duas coisas na mesma pergunta: ele provavelmente quis lembrar ao respondente que uma adesão séria ao programa de emagrecimento envolve necessariamente uma mudança no estilo de vida. OK, só que, da forma como ficou redigida a pergunta, ele possibilitou o surgimento da confusão apontada acima. Como evitá-la?

Bem, a solução mais simples seria eliminar a menção à mudança de estilo de vida, mas, supondo que esse não seja o desejo do cliente da pesquisa, uma possibilidade seria alterar ligeiramente o enunciado da questão para: “Considerando o nível de stress a que está submetido atualmente e sabendo que um programa de emagrecimento exigirá necessariamente uma mudança no seu estilo de vida, você acha que tem condições de se manter focado na perda de peso?”

É sempre bom lembrar: perguntar duas coisas numa mesma pergunta é quase 100% de chance de problema.

Para explorar mais essa discussão, leia a Dica nº 5.

 

1.2) No início, a maioria das pessoas consegue emagrecer facilmente. Mais tarde, no entanto, o ritmo de emagrecimento tende a diminuir. Quão realistas são suas expectativas em relação ao total de peso que quer perder e ao tempo em que estima atingir tal meta?

( ) Bastante realistas

( ) Razoavelmente realistas

( ) Um pouco realistas

( ) Irreais

Qual é o problema?

Meu comentário:

Responda com sinceridade, honesto leitor: será que as pessoas a quem a pergunta é destinada têm condições de respondê-la? Será que um leigo sabe o quão realistas são as suas metas de emagrecimento, tanto em termos de quilos perdidos quando de prazo para consegui-lo? Será que alguém que esteja minimamente interessado em emagrecer (tanto que se presta a responder um questionário a respeito) dirá que as suas metas são irreais?

O que pode estar por trás de uma pergunta dessas? Bem, a rigor nada posso afirmar, mas, como já passei os olhos por uma meia-dúzia de matérias sobre saúde publicadas pela imprensa, eu me permitiria imaginar a seguinte linha de raciocínio por parte dos profissionais do centro médico: “Nós sabemos que, das pessoas que sonham em ter um corpinho de modelo, a grande maioria está se impondo um objetivo inalcançável – seja por incompatibilidade com a genética, com o estilo de vida ou com o seu estado de saúde. Vamos, então, no nosso questionário, perguntar o quão realistas são as metas das pessoas, para que possamos adiantar para elas, de saída, uma previsão das suas chances de sucesso ao adotar um programa de emagrecimento”.

Tecnicamente, o raciocínio acima é irretocável. Tecnicamente em medicina, bem entendido, porque, em se tratando de técnica de pesquisa, a pergunta é indefensável. Não cabe ao leigo julgar algo que ele desconhece. Alguém poderia objetar: “Mas algumas pessoas traçam metas absurdas mesmo! No fundo, elas devem saber que nunca vão atingi-las”. Bem, eu não seria tão assertivo. Imagine uma mulher com 80kg e peso, que queira ter uma aparência de Gisele Bündchen. Sua meta é irreal? Provavelmente sim. Ela a considera irreal? Não necessariamente! Imagine que a “nossa amiga” tenha tomado conhecimento de uma série de casos de mulheres com mais de cem quilos de peso, que, como resultado de um esforço rigoroso e tenaz, tenham chegado a uns 60kg. Esses casos existem, como todos sabem. Pois bem, essas mulheres perderam algo em torno de 50 kg – mais do que a “nossa amiga” precisa perder para chegar ao corpo da modelo dos seus sonhos. Então, na cabeça dela, a meta pode até ser difícil de se atingir, mas não é irreal.

Conclusão: quem tem condição de julgar se metas de emagrecimento são reais ou irreais são os profissionais da área; fazer esse tipo de pergunta a quem não tem uma base técnica para responder é chamar lixo para servir de dados.

Para explorar mais essa discussão, leia a Dica nº 17, em que se discute a validade de se colocar o respondente em um lugar que não é o seu.

 

1.3) Com exceção das datas comemorativas, como aniversários ou Natal, você às vezes se flagra comendo sem controle?

( ) Não

( ) Sim

Qual é o problema?

Meu comentário:

Essa pergunta, embora curta, encerra uma série de problemas. Para começo de conversa, ela já parte de uma premissa que pode não ser verdadeira: a de que o respondente come sem controle em datas comemorativas (a respeito de premissas e pressupostos, leia a Dica nº 14); em segundo lugar, cabe questionarmos: o que se quis dizer com “às vezes”? Uma pessoa que “se flagrou” comendo sem controle em períodos nada comemorativos, como quando perdeu a mãe, quando foi demitida do emprego e quando descobriu que o marido tinha uma amante, deve responder que sim ou que não? Ela pode raciocinar: “Eles estão perguntando se eu já me flagrei comendo sem controle; se não especificam em que situações, então a resposta tem que ser sim”. Mas ela também pode perfeitamente raciocinar: “Bem, comer sem controle, eu comi nessas fases negras da minha vida, mas, poxa vida, em cada uma delas eu estava passando por um estresse tremendo, então foi uma tremenda exceção. Vou responder que não”. E aí, amigo leitor? Cabe ao respondente decidir como a expressão “às vezes” deve ser interpretada? Não dá; tem boi na linha, concorda? (A Dica nº 24 aponta os problemas decorrentes do emprego de expressões vagas).

Algumas coisas deveriam ser alteradas na pergunta. Uma delas: essa é uma típica questão na qual caberia uma orientação do pesquisador juntamente com a pergunta – algo como “Na sua resposta, considere apenas dias normais do seu dia a dia” (leia mais sobre instruções sobre como responder na Dica nº 43). Outra alteração: não funciona a combinação da expressão “às vezes” com as opções de resposta “sim” e “não”. Melhor seria adotar uma escala com frequências ou situações predefinidas, nas quais o respondente teria comido sem controle.

 

1.4) Você costuma comer por razões emocionais – quando está ansioso, deprimido ou com raiva?

( ) Nunca

( ) Ocasionalmente

( ) Frequentemente

( ) Sempre

Qual é o problema?

Meu comentário:

Em primeiro lugar, podemos observar o uso de termos vagos nas opções de resposta, o que é sempre contraindicado, pois cada um entende os termos à sua maneira, o que aniquila a possibilidade de comparação de respostas (ver Dica nº 24 a respeito); em segundo lugar, vale atentar para a construção da pergunta. Raciocine comigo, amigo leitor: “razões emocionais” não se restringem a situações negativas, concorda? As emoções envolvem todo tipo de reação psicológica a um estímulo, uma situação, etc. Essas reações podem estar associadas a quaisquer estados afetivos – não só penosos, mas também agradáveis. Ora, cabe questionar: e se a pessoa come além da conta quando está feliz, quando está motivada com algum projeto ou situação, quando assiste aos programas favoritos na TV, quando almoça com a família, quando encontra na geladeira comidas de que gosta, etc.? Esse perfil de pessoas não interessa à pesquisa? A pergunta se justifica, já que, em princípio, a influência da “alimentação emocional” na aptidão de uma pessoa a dar início a um programa de emagrecimento não deveria restringir-se aos estados afetivos penosos (mas, ao que tudo indica, a pessoa que elaborou o questionário só está interessado num lado mais sombrio das emoções).

Mas, vá lá, digamos que só interesse à pesquisa esse lado das emoções. Nas suas respostas, as pessoas pesquisadas só devem levar em consideração ansiedade, depressão ou raiva – os três estados emocionais explicitados no enunciado da pergunta? Será que não interessariam à pesquisa os casos em que as pessoas comem motivadas por outros estados de espírito adversos, como, digamos, tédio, frustração, tensão, medo, preocupação, etc.?

O problema na formulação da pergunta é que, em razão da explicitação de três estados emocionais (ansiedade, depressão e raiva), o responsável pela pesquisa pode estar involuntariamente restringindo uma enorme gama de respondentes que seriam do seu interesse (leia a Dica nº 19 a respeito).

Como prevenir o problema? O ideal, em casos como este, é informar ao respondente, com a maior clareza, a que a pergunta se refere quando fala em “razões emocionais”. Poderia haver exemplos dessas emoções? Sim, poderia, mas de tal forma que não deixassem dúvidas sobre a abrangência da pergunta. Uma boa medida seria fazer uma introdução à pergunta, explicando aos respondentes o que se denomina “alimentação emocional” (ver Dica nº 43).

A propósito, essa medida viria a calhar por outro motivo também: como eu disse na Dica nº 32, existem perguntas com entonação ascendente e outras com entonação descendente. Um exemplo do primeiro grupo seria: “Você pretende ir ao clube depois do trabalho?”. Do segundo grupo: “Que gritaria foi aquela ontem à noite?” A escrita é igual, mas as entonações são diferentes. Em geral, a gente sabe reconhecer o caso quando o lê. Em geral. Mas e se nós ficarmos em dúvida?

Bem, em perguntas de questionário de pesquisa não cabe deixar o respondente em dúvida. Voltemos à pergunta que estamos analisando. A que grupo ela pertence, amigo leitor? Ao primeiro, certo? Agora imagine: será que alguém, ao passar por ela, não poderia lê-la como se fosse uma pergunta do segundo grupo? Tente reler a pergunta terminando com a entonação para baixo. O que você percebe? Parece que a parte que antecede o travessão é uma afirmação e a parte seguinte, uma pergunta sobre a situação em que você come por razões emocionais, não parece? Pois o respondente que a ler dessa forma vai encontrar opções de resposta que não farão o menor sentido para ele!

Aí você pode argumentar: “Ué! Problema do cara, que não soube ler direito!”. Não é bem assim, impulsivo leitor. Se o “cara” não soube ler direito, o problema é de quem redigiu a pergunta, já que não se fez entender como deveria. Quem sai perdendo é quem precisava da resposta; não quem a dava!

Essa é apenas mais uma razão pela qual seria melhor reformular a pergunta, antecedendo-a por uma breve explicação do que se está chamando de “comer por razões emocionais”. Feito isso, a pergunta poderia ser simplificada para “Com que frequência você costuma comer por razões emocionais?”

Teste Teste Teste