Uma organização que opera no setor de turismo ecológico contratou, tempos atrás, uma pesquisa com o objetivo de avaliar o conhecimento e as expectativas do público sobre ações tomadas no setor. Para tanto, foi feito um questionário de 20 perguntas que tem muito a nos ensinar. Destaco e comento, a seguir, algumas das perguntas desse questionário.

11.1) Caracterização do entrevistado

1. Sexo: a) feminino; b) masculino

2. Idade: a) 18 a 28 anos; b) 29 a 35 anos; c) 36 a 45 anos; d) acima de 45 anos; e) NS/NR

3. Escolaridade: a) até superior incompleto; b) superior; c) pós-graduado; d) NS/NR

4. Renda familiar: a) até R$4.000,00; b) de R$4.000,00 a R$10.000,00; c) de R$10.000,00 a R$20.000,00; d) Acima de R$20.000,00; e) NS/NR

Qual é o problema?

Meu comentário:

Eu poderia começar questionando a opção “a” da pergunta 3. É estranho juntar, numa única opção de resposta, todos os níveis de escolaridade até o grau superior incompleto e abrir categorias de resposta exclusivas para superior completo e pós-graduação (duas categorias que, juntas, não chegam a 10% da população brasileira). No entanto, é possível que o público-alvo da pesquisa fossem pessoas que no mínimo estivessem cursando uma faculdade (não disponho dessa informação), de modo que não posso tachar como errada tal definição das categorias.

Eu também poderia questionar a superposição das opções de resposta da pergunta 4. De fato, não fica definida a opção a ser assinalada por quem tem renda de R$4.000,00 ou de R$10.000,00.

Mas esses são problemas menores diante do que eu destaco como o principal: a primeiríssima pergunta do questionário já pede dados do indivíduo pesquisado! Ponha-se no lugar desse entrevistado, recatado leitor, e me diga se você sairia declarando a sua renda de cara, sem saber em que contexto ela está sendo pedida ou o que vão fazer da informação.

Os responsáveis pelo questionário ou desconhecem ou resolveram transgredir a Dica nº 48 – a que recomenda deixar as perguntas delicadas ou ameaçadoras para o fim do questionário.

11.2) O Instituto XYZ realiza, com o apoio da Embratur, um trabalho de identificação e regulamentação de polos de ecoturismo em todas as regiões do Brasil. O(A) senhor(a) tem conhecimento da existência de polos de ecoturismo no Brasil?

a) Sim

b) Não

c) NS/NR

Qual é o problema?

Meu comentário:

Qual é (ou parece ser) o objetivo da pergunta, caro leitor? Saber se o indivíduo pesquisado tem ciência dos tais polos de ecoturismo, certo? Então para que a frase introdutória? O que terá levado o Instituto a anteceder a pergunta com uma pequena apresentação sua? Questionário não é lugar para passar informações ao público (você pode ler mais a respeito na Dica nº 12).

Você deve, então, estar se fazendo a seguinte pergunta, investigativo leitor: era para começar perguntando diretamente se o entrevistado conhece os polos de ecoturismo? Bem, melhor do que está no questionário seria; mas eu faria uma pergunta antes (veja bem, caro leitor, uma pergunta; não uma informação!): “O(A) senhor(a) sabe o que são polos de ecoturismo?”. É fácil entender por quê: se a pessoa não souber do que se trata, não é adequada para responder ao questionário (que, como você já verá, paciente leitor, pede uma série de opiniões sobre os tais polos). Assim, a nova pergunta funcionaria como pergunta-filtro (ver Dica nº 47), que bloquearia um monte de bobagens (respostas dadas por entrevistados que estariam emitindo opiniões sobre um assunto que desconhecem).

Mas o questionário prossegue. Vejamos outras perguntas.

11.3) Na sua opinião, a identificação e regulamentação de polos de ecoturismo no Brasil é uma iniciativa...

a) positiva, porque vai ajudar na preservação do meio ambiente;

b) negativa, porque vai contribuir para a depredação do meio ambiente;

c) NS/NR

Qual é o problema?

Meu comentário:

Se o respondente tiver conhecimento e opinião formada a respeito do citado trabalho de identificação e regulamentação, ele poderá encontrar as seguintes dificuldades de responder à pergunta: 1ª) achar que a iniciativa é positiva, mas não em razão do motivo indicado na opção ‘a’; 2ª) achar que a iniciativa é negativa, mas não em razão do motivo indicado na opção ‘b’; 3ª) achar que a iniciativa não terá nenhum impacto – nem positivo nem negativo – sobre o meio ambiente. Em nenhum dos três casos ele poderá assinalar a sua resposta. As opções apresentadas no questionário desconsideram as recomendações feitas na Dica nº 5 (a de não perguntar mais de uma coisa numa mesma pergunta) e na Dica nº 20 (necessidade de se cobrir toda gama de respostas possíveis).

Mas tudo isso se o respondente tiver opinião formada sobre o assunto, lembra, atento leitor? E se ele não tiver?

Bem, a resposta óbvia seria: “Ele assinala a opção ‘c’ (Não sabe / Não respondeu), certo? Sim, essa seria a resposta óbvia... mas não necessariamente a correta. E aí entra em cena aquela introduçãozinha inocente à pergunta 11.2. Veja só: alguns entrevistados poderiam pensar: “Eu não faço ideia da influência desses tais polos no meio ambiente, mas se esse cara está me dizendo que o instituto onde ele trabalha faz a identificação e regulamentação desses polos no Brasil todo, ainda mais junto com a Embratur, então isso não deve ser danoso ao meio ambiente”. E tasca a opção ‘a’.

Qual o valor dessa resposta? Nenhum, claro. Vê-se aqui o efeito, esse sim, danoso da “inocente” introdução feita na pergunta anterior. Pode ter sido introduzido um elemento indutor de uma resposta, com risco evidente de distorção dos resultados da pesquisa.

Conclusão: a “simples” pergunta 11.3 está coalhada de erros de pesquisa.

11.4) Na sua opinião, a identificação e regulamentação de polos de ecoturismo no Brasil para aumentar o fluxo de turistas vai contribuir...

a) para a preservação ambiental, porque o acesso do turista brasileiro a essas regiões leva a um maior conhecimento e interação que contribui para a defesa do meio ambiente;

b) para a depredação ambiental, porque o acesso do turista brasileiro a essas regiões permite atos que agridem o meio ambiente;

c) NS/NR

Qual é o problema?

Meu comentário:

Basicamente os mesmos que apontei na análise da pergunta 11.3.

11.5) A identificação e regulamentação de polos de ecoturismo no Brasil levará a um controle de ocupação dessas regiões, contribuindo para a preservação ambiental. Na sua opinião, a afirmação que acabei de citar é...

a) verdadeira, porque um trabalho planejado, realizado em parceria por instituições do governo e ONGs levará a resultados positivos para a preservação ambiental;

b) falsa, porque no Brasil esse tipo de trabalho nunca funciona na sua totalidade porque as instituições são pouco rigorosas e o meio ambiente estará em perigo;

c) NS/NR

Qual o problema?

Meu comentário:

A pergunta apresenta os mesmos vícios das anteriores. Aliás, agrava-os! Note, atento leitor, que a opção de resposta ‘b’ contém dois “porquês”. Maior ainda a chance de o respondente concordar com o início da frase e discordar do resto.

O questionário segue, insistindo nesse formato de perguntas, mas creio que a minha mensagem a respeito já foi passada, de modo que vamos a outro tipo de pergunta do questionário.

11.6) O que o(a) senhor(a) exige de uma estrutura (acessos, hospedagem, gastronomia, guias) nos destinos de ecoturismo no Brasil?

a) Conforto, segurança e higiene, sem sofisticação;

b) Sofisticação, preservando as características do lugar;

c) Sofisticação, mesmo que alterando um pouco as características do lugar

d) NS/NR

Qual é o problema?

Meu comentário:

Como devemos entender as opções ‘b’ e ‘c’, amigo leitor? Quem opta por uma delas abre mão do conforto, da segurança e da higiene???! É claro que, da forma como foram formuladas, as opções e resposta ficam longe de cobrir devidamente o universo, como recomenda a Dica nº 20. Ou o caso seria mais grave: estaria a pergunta opondo sofisticação a conforto, segurança e higiene (desprezando solenemente o que recomenda a Dica nº 35)?

Tudo indica (mas isso é pura suposição minha) que a intenção de quem redigiu essa pergunta era avaliar o quanto o atributo “sofisticação” era valorizado pelos respondentes, em relação aos demais e também ao tipo de lugar. Se era esse o caso, a pergunta deveria ter sido redigida de maneira diferente, com esse atributo sendo a parte central da pergunta. Uma possibilidade seria perguntar que grau de sofisticação os respondentes gostariam de encontrar em hotéis e restaurantes nos destinos de ecoturismo no Brasil. As opções de resposta poderiam variar de “Pouca / nenhuma sofisticação” até “Muita sofisticação”. Outra possibilidade seria, modificando ligeiramente a pergunta, pedir que os respondentes assinalassem a sua preferência numa escala de iria de “simples” a “luxuoso”. Tudo isso supondo que as preferências dos respondentes seriam as mesmas, qualquer que fosse o lugar (o que é uma premissa pra lá de arriscada!). Do modo como foi redigida a pergunta é que não dá!

Vamos a mais duas perguntas desse didático questionário.

11.7) Quais as informações que o(a) senhor(a) deseja receber a respeito dos polos de ecoturismo?

a) Detalhamento da estrutura, passeios, preços e condições de pagamento, com ilustrações visuais que mostrem o lugar;

b) Informações sobre o trabalho ambiental que é realizado na região;

c) Informações a respeito da cultura e da história da região;

d) Todas as alternativas acima;

e) Outras _________________________ ( )

Qual é o problema?

Meu comentário:

Em primeiro lugar, quem disse que o respondente quer receber informação? E nem se oferece a ele uma opção em que ele possa registrar isso! Mas vá lá; relevemos esse “detalhe” e examinemos as opções oferecidas. Será que não haveria uma forma mais inteligente de listá-las? Sim, existiria: dispondo-as opções como nos menus de certos tipos de restaurante (os respondentes ticariam as que lhe interessassem). Observação: suponho que a pergunta se refira a informação impressa, como folhetos, por exemplo; em se tratando de um site, a pergunta não faria sentido.

11.8) O ecoturismo exige ações de educação ambiental para:

a) Os operadores e agentes de viagens;

b) As comunidades locais;

c) Os turistas;

d) Todas as alternativas acima são verdadeiras;

e) NS / NR

Qual é o problema?

Meu comentário:

Epa! O que é isso?! Teste? Prova??!! Estão querendo o quê: avaliar o conhecimento do respondente sobre o assunto? Se não isso, qual poderia ser o objetivo de uma pergunta dessas? Se a educação ambiental é algo necessário para todos os atores apontados nas opções (e, a propósito, o verbo “requer” seria mais apropriado do que “exige”), o que o respondente tem a ver com isso?

Creio que estamos diante de uma daquelas questões que “alguém” decide incluir no questionário “só para ter uma ideia”. Se a gente questiona “Ideia do quê?”, a resposta é um amontoado de generalidades, que indicam que o próprio proponente não sabe bem por que sugeriu a inclusão da pergunta. Tudo indica, portanto, que temos aqui retratado o problema apontado na Dica nº 3.

Teste Teste Teste