Com o declarado objetivo de melhor preparar os seus alunos, uma faculdade decidiu adequar o currículo de seus cursos às exigências do mercado de trabalho. Para tanto, realizou uma pesquisa com ex-alunos. Essa pesquisa teve como objetivos fazer um diagnóstico do status profissional dos egressos e avaliar a satisfação deles com o curso e a instituição, além de promover a já mencionada adequação do currículo.

O questionário tinha início com um quadro de caracterização de perfil, reproduzido abaixo.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Na minha opinião, a instituição acertou em não exigir o nome e a matrícula dos respondentes, classificando ambas as informações como opcionais. De fato, para os objetivos da pesquisa, não é isso o que importa. Já a pergunta sobre o curso que o aluno fez é fundamental; a identificação do sexo pode ser importante para se estudar se há alguma diferença na adaptação de homens e mulheres no mercado de trabalho; e o ano de ingresso na faculdade também poderia trazer informações úteis – por exemplo, se a aceitação pelo mercado veio aumentando ou caindo ao longo do tempo. Quanto à data de nascimento do aluno, imagino que não traga grandes informações, dado que, em geral, os formandos, em sua esmagadora maioria, entram e deixam a faculdade com idades muito próximas. Seja como for, a manutenção da pergunta não é um erro. Ou seja, no que tange ao assunto abordado na Dica nº 3 (perguntas realmente necessárias e perguntas feitas por curiosidade, mas que não são fundamentais), a instituição acertou. Onde, então, ela deixou a desejar?

Em dois pontos: o primeiro foi deixar aparentes as opções de resposta “masculino” e “primeiro”, respectivamente nos campos de respostas às perguntas sobre o sexo do respondente e o semestre de ingresso. Esse foi um descuido que pode ter custado caro à instituição. Como se pode ver na Dica nº 54, não deve haver opções aparentes nos chamados drop down menus, em razão do risco de a opção aparente se tornar um indevido default, o que pode acarretar uma ilusória predominância de homens e de alunos ingressados no primeiro semestre dos anos.

O outro ponto em que a faculdade deixou a desejar foi na observação que registrou ao lado do campo da data de nascimento. Qual o sentido da orientação “Digite uma data válida”? Por acaso os responsáveis pela pesquisa desconfiavam que os respondentes iriam lançar datas inválidas? (Para esconder a idade, talvez?) Aliás, o que seria uma data inválida? Será que o redator do questionário quis estabelecer um formato padrão de data – por exemplo, dd/mm/aaaa? Nesse caso, era isso o que deveria aparecer na janela, e não a recomendação sobre a validade da data! Da forma como foi apresentada, tal recomendação ficou cômica.

Passemos agora às perguntas do questionário. Venha comigo, fiel leitor; acompanhe-me na análise dessas perguntas, uma a uma. Comecemos com a pergunta nº 1 do primeiro bloco (“Análise da situação profissional atual”).

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Observe, caro leitor, que essa pergunta não funciona como filtro (ver Dica nº 47). Se funcionasse, a pergunta seguinte (“O principal motivo pelo qual você não exerce atividade profissional na sua área de formação é:”) só seria feita para quem assinalasse a opção “b” na primeira. Da forma como foi programado o questionário, cria-se o “papo de maluco” que eu apontei na Dica nº 53. Isso fica patente no choque entre o enunciado da pergunta nº 2 e a sua primeira opção de resposta (“Estou exercendo atividade profissional na minha área de formação”), como você verá agora.

 

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Em primeiro lugar, chama a atenção a escassez de opções de resposta. Será que não existirão motivos importantes, além dos indicados nas opções “b” e “c”, que fazem com que os egressos da faculdade não estejam trabalhando na sua área de formação? É verdade que a faculdade providenciou uma opção “Motivos particulares”, mas ela me parece mais esconder do que revelar. Imaginemos que os ex-alunos dessa faculdade não estejam conseguindo colocações nas suas áreas, não em razão da saturação de mercado, mas por falta de qualificação mesmo. Eles fazem testes e mais testes e nunca são chamados pelas empresas, que acabam empregando candidatos oriundos de outras faculdades. Você chamaria isso de “motivos particulares”, honesto leitor? Não acha importante a faculdade conhecer uma tal situação? Pois é; só que ela não dá essa chance ao respondente.

Outra possibilidade: o aluno escolheu aquela área de formação como escolheria qualquer outra; o que ele precisava era de um diploma de curso superior – qualquer um – para concorrer a um cargo que o atraísse numa empresa que lhe agradasse. Eu tampouco chamaria isso de um motivo particular. Pelo contrário, se a ocorrência desse fenômeno for significativa, creio ser muito importante que uma faculdade tome conhecimento dele!

Conclusão: na melhor das hipóteses, a relação das opções de resposta da pergunta nº 2 sofre do problema que eu apontei na Dica nº 20: não cobre o universo de respostas possíveis. Na minha opinião, a pergunta deveria contar, no mínimo, com mais uma opção de resposta: “Outro motivo”, acompanhada de um espaço para os respondentes dizerem que motivo seria esse.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Essa pergunta também tem seus problemas. Começo pelo menos importante: o texto está mal escrito. Melhor do que “Quanto tempo houve” (não se fala assim) é “Quanto tempo se passou” ou “Quanto tempo decorreu”. Se um português correto e elegante é sempre algo por que devemos zelar, esse cuidado deveria ser redobrado quando quem está por trás da pesquisa é um instituto de ensino.

Partindo para as questões intrínsecas de técnicas de questionário, destaco a premissa indevidamente assumida, de que o respondente está trabalhando. De fato, se a pergunta pede o tempo decorrido entre a formatura e o início da vida profissional... Ocorre que não obrigatoriamente o respondente estará trabalhando! Aliás, a própria pergunta nº 1 admite essa possibilidade, como se pode constatar por sua opção “c” (mais uma prova de que a pergunta 1 não foi utilizada como filtro). No entanto, ao contrário do que vimos na pergunta nº 2, a pergunta nº 3 não prevê a opção “Não estou trabalhando no momento”. Qual é, então, o sentido da pergunta para os ex-alunos não inseridos no mercado?

Outro problema da pergunta nº 3 é uma certa vagueza do enunciado. Imagino que, ao falar em “atividade profissional”, a faculdade estivesse se referindo a posições assumidas pelos ex-alunos em funções que exigem cargo superior. Ocorre que muitos universitários se iniciam na atividade profissional como estagiários e, depois que se formam, só fazem dar continuidade ao que já faziam. Imagine os respondentes que seguiram esse caminho. Como será que responderão à pergunta? Dependendo do ponto de vista, não se passou tempo algum – pelo contrário, eles já desempenhavam aquela atividade profissional antes de se formarem. Quem interpretar a pergunta assim não encontrará uma opção de resposta aceitável. Pode ser, então, que essas pessoas decidam reinterpretar o enunciado por sua conta e passem a entender “início da atividade profissional” como o momento em que o empregador lhes assinou a carteira de trabalho. Problema! Na Dica nº 13 vimos o perigo que é deixar o respondente interpretar o enunciado à sua maneira. Uns interpretam assim, outros assado, e lá se foi a qualidade dos dados. É o que ocorre nessa pergunta nº 3 do questionário.

Mas os problemas dessa pergunta não terminam aqui. Observe bem as opções de resposta, que reproduzimos a seguir.

a) Menos de 1 ano

b) De 02 a 03 anos

c) De 02 a 04 anos

O que você percebe, criterioso leitor? Bem, nelas aparecem todos os erros discutidos na Dica nº 20:

- há um buraco entre as opções “a” e “b”: quem levou entre 1 e 2 anos para começar a trabalhar não encontra uma opção conveniente;

- há uma grande superposição entre as opções de resposta; a opção “c” compreende a opção “b”: quem levou entre 2 e 3 anos para começar a trabalhar pode assinalar qualquer uma dessas duas opções. É bem provável que tenha ocorrido aí um erro de digitação. O problema é que não foi feita uma revisão decente da versão final do questionário;

- o tempo máximo coberto pelas opções é de 4 anos a partir da formatura. E se algum respondente levou mais tempo do que isso: responde o quê? Bem, talvez esse não seja realmente um erro; em favor da faculdade, poderíamos supor que esses casos tenham sido propositalmente desconsiderados. Uma possibilidade: a primeira turma de ex-alunos pode ter se formado quatro anos antes de essa pesquisa ser lançada. Mas com tantos outros problemas na questão, eu não poria a mão no fogo pelo criador desse questionário.

Vejamos agora as perguntas nos. 4 a 7 como um bloco.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

As perguntas nos. 4 a 7 se ressentem de um dos problemas da nº 2: elas são aplicadas a todos os egressos, mesmo aos que disseram que não estão trabalhando no momento. A nº 5, em particular, tem uma opção (“d”) redigida de maneira infeliz: “indicação de pessoas influentes”. “Pessoas influentes” é um conceito amplo, que pode abarcar desde altos pistolões com influência política na empresa até uma corriqueira indicação de amigos que trabalham na empresa, assim como uma recomendação de agências de colocação profissional. Se esse é um assunto de interesse para a faculdade, as opções deveriam ser desmembradas. Talvez melhor fosse a criação de uma nova opção, denominada “De outro modo”, acompanhada de um espaço em que o respondente indicaria a forma pela qual obteve o emprego. Reunir isso tudo num rótulo “indicação de pessoas influentes”, além de promover um balaio de gatos, me parece um enfoque no mínimo deselegante, que poderia constranger os respondentes.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Essa pergunta é um mistério para mim. O que será que quiseram dizer? O que significa uma “satisfação no aspecto social”? Seria a satisfação que um indivíduo tem com a sociedade na qual está inserido? Ou a satisfação não com o que o indivíduo tem ou ganha, e sim com a forma como se sente? Ou então a satisfação que um indivíduo sente, tendo em vista o julgamento não seu, mas dos outros? Sei lá! Sei é que nenhuma dessas tentativas de interpretação da expressão faz sentido para mim. Faz para você, sensível leitor? Suponhamos que sim; nesse caso, muito provavelmente o entendimento que você teve não será o mesmo que teve o Roberto. Ou a Bruna. Ou a Lúcia. E certamente todos esses entendimentos serão diferentes do meu, que não entendi absolutamente nada! Conclusão...

A conclusão é que a pergunta está mal feita, vaga, ambígua (infringindo de modo flagrante os ensinamentos da Dica nº 24). Assim, quaisquer que sejam as respostas (número de ocorrências das opções “alto”, “médio” e “baixo”), elas não significarão nada.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Essa pergunta, que encerra o primeiro bloco, também apresenta problemas. De cara, vejo dois. O primeiro é a dubiedade da expressão “sua área”. Como vimos, os respondentes podem ter se formado em uma área e estar trabalhando em outra. Sobre qual das duas ele deve responder? Você protestará, argumentativo leitor, afirmando que, se o questionário foi desenvolvido por uma faculdade, tendo como um dos objetivos avaliar como estão os egressos dos seus cursos, então é praticamente certo que a área em questão é a área de formação, e não a de trabalho atual, que pode ser qualquer uma. Concordo com você, sensato leitor: também acho que eles estão se referindo à área de formação. E pode ser que os respondentes achem isso também. Acontece que não cabe a nós achar, julgar ou interpretar o que quer que seja; se um questionário traz perguntas cujas respostas vão ajudar alguém a traçar planos de melhoria e tal, essas perguntas devem ser entendidas de maneira cristalina, sem margem a interpretações de significado! Não custava ao redator do questionário acrescentar duas palavrinhas (“de formação”) ao final da pergunta. Aliás, não é questão de custar ou não; em nome da clareza, era indispensável fazê-lo.

O outro problema que vejo é a falta de uma palavrinha que – de novo – faz com que a pergunta possa ser entendida de diferentes modos: a palavrinha “sua”, antes de “perspectiva”. Você protestará de novo, exaltado leitor: “E quem é que te disse que a faculdade quer saber a perspectiva do ex-aluno e não a da área em si?”. Pois é, meu caro, ninguém me disse; eu é que acho que eles quiseram saber isso. Olha aí o “acho” de novo! Cabe a mim decidir isso? Não. A você? Tampouco. A algum respondente? Negativo. Mas uma coisa é praticamente certa: dentre os respondentes, haverá os que entenderão que a pergunta se refere a eles, e outros que acharão que o foco é a área, e não eles. Por que eu me coloco entre os primeiros? Por dois motivos: porque a uma faculdade que pesquisa o mercado, interessa muito mais saber da situação e do desempenho profissional dos seus ex-alunos do que das áreas em que oferece cursos. Segundo, por causa da preposição “em”: observe, atento leitor, que a pergunta menciona a perspectiva na área, e não da área. Ora, para mim, a perspectiva em uma área deve ser a de alguém, diferentemente da perspectiva de uma área, que é algo referente a ela própria.

Mas é importante ressaltar: eu não quero impor-lhe as minhas opiniões de forma alguma, caro leitor; quero apenas destacar a dubiedade existente na redação da pergunta. Basta existir uma possibilidade de que o texto de uma pergunta suscite diferentes entendimentos para que a pergunta deva ser condenada. E nos casos que estamos avaliando, a presença de dubiedade é flagrante (insisto no que diz a Dica nº 24, sobre o problema da ambiguidade em perguntas de questionários de pesquisa). Então, que se volte ao teclado para se melhorar o texto.

Como disse antes, com essa nona pergunta, encerra-se o primeiro bloco do questionário da faculdade. Absolutamente todas as perguntas do bloco apresentaram problemas. Passemos ao segundo bloco. Dez perguntas integram esse segundo bloco, intitulado “Avaliação do curso / instituição”. Nem todas, porém, são pertinentes ao assunto – caso das perguntas nos. 14, 15, 16 e 18, como você verá adiante. Faço, a seguir, um breve comentário sobre cada uma das perguntas do bloco.

 

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Como várias outras que já analisamos aqui, essa pergunta é aplicada a todos os respondentes, estejam eles (ou tenham estado) inseridos no mercado de trabalho ou não. No caso da pergunta nº 10, porém, isso não chega a ser um problema – pelo contrário, pode até produzir uma informação interessante: a confrontação entre as visões da preparação que a faculdade dá para os recém-formados, do ponto de vista de quem está inserido no mercado de trabalho e de quem não está. Mas eu sinto falta de uma coisa na pergunta: por que será que não interessa à faculdade saber o que faltou, na opinião dos egressos que responderem “pouco” ou “nada”? Afinal, um dos objetivos declarados da pesquisa era moldar o currículo dos cursos de acordo com as demandas do mercado! Ora, no momento em que se pergunta ao público o quanto ele se viu preparado e se deixa de perguntar a ele o que faltou para que se sentisse, está-se jogando fora a informação central da pesquisa.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

A pergunta pressupõe que todos os respondentes tenham cursado disciplinas profissionalizantes. Quem não o fez não conta com uma opção “Não se aplica” onde se refugiar (ver Dica nº 20). Ah, sim: caberia também acentuar o “i” da palavra “contribuíram”. Vamos lembrar que se trata de uma faculdade quem está passando o questionário, certo?

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Qual é o problema?

Meu comentário:

A questão pergunta duas coisas diferentes. Quem julgar que o curso colaborou para o seu desenvolvimento pessoal, mas não cultural – ou vice-versa – não tem como responder (ver Dica nº 5).

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Qual é o problema?

Meu comentário:

A pergunta incorre num erro básico: partir de uma premissa que não se sustenta – a da homogeneidade da qualidade dos professores do curso. A menos que todos os professores tenham sido ruins ou péssimos, ou então o contrário (ótimos ou bons), eu diria que há uma grande chance da ocorrência da opção de resposta “regular”, que seria uma forma de os responderem dizerem que alguns professores eram bons e outros não. Nesse caso, qual a utilidade da pergunta? No caso de uma grande ocorrência da resposta “regular”, o que os diretores e coordenadores da faculdade poderiam fazer para melhorar o nível docente?

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Observe, caro leitor, que as opções de resposta não são mutuamente excludentes: quem tiver feito (ou estiver fazendo) um curso de pós-graduação em outra instituição poderia, a rigor, responder tanto a opção “b” quanto a “d”. Eu sei, criterioso leitor, que essas pessoas iriam entender que lhes caberia assinalar a “d”; mas a minha crítica não se deve a uma sanha de busca de erros; ela se baseia na conhecida tendência de os respondentes assinalarem a primeira opção de resposta que retrate a sua situação, classificação, etc. Para não correr o risco de receber sei lá quantas respostas destoantes da realidade, caberia ao projetista do questionário ler com atenção a Dica nº 20 e corrigir as opções a serem apresentadas aos respondentes.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Sem comentários. Ou melhor, o comentário “de sempre”, isto é, o problema de a pergunta ser aplicada a todos os respondentes – mesmo aqueles que, na pergunta anterior, afirmaram não ter feito cursos de pós-graduação. Isso obriga a que se tenha uma opção de resposta como a “e” (“Não se aplica”). Errado não é; mas que é deselegante e transmite uma impressão de improviso e amadorismo, ah, isso sem dúvida!

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Qual é o problema?

Meu comentário:

A pergunta apresenta uns pontos questionáveis, além de, como já citado, ser um peixe fora d’água dentro de um bloco teoricamente voltado à avaliação do curso e da faculdade: trata-se das opções de resposta “b” , “c” e “d”. A “b”, porque volta mais uma vez a uma informação que já havia sido pedida na pergunta nº 14; a “c” por sua vagueza; e a “d” porque parece linguagem em código.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Nada contra essa pergunta nº 17. Se ela passa a impressão de surgir inopinadamente, obrigando o respondente a voltar de novo a sua atenção para a avaliação da faculdade, quando as perguntas anteriores tratavam de outras coisas, a culpa não é da nº 17; é das outras.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Quanto à pergunta nº 18, sou capaz de apostar que uma quantidade de respondentes não encontrou a sua resposta dentre as opções fornecidas na questão (de novo, caberia uma lida da Dica nº 20). Trata-se de um caso típico no qual a inclusão de uma opção “Outro motivo / Qual?” seria fundamental. Ah, sim: e por se tratar de uma pergunta, convinha terminá-la com um ponto-de-interrogação, né?

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Fecha o segundo bloco a pergunta nº 19, que, como a anterior, merecia um campo para uma resposta aberta. Não é preciso procurar muito para se perceber que pelo menos a opção “Depende / Do quê?” deveria constar entre as possibilidades de resposta.

 

Concluo o estudo do presente caso com a análise do terceiro e último bloco de perguntas do questionário da faculdade, reproduzidas abaixo.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Com a pergunta, procura-se investigar o desempenho do ex-aluno como profissional. Ocorre que, como já sabemos, alguns respondentes podem não estar inseridos no mercado de trabalho. Conclui-se, de cara, que a pergunta não deveria ter sido aplicada a quem estivesse nessa situação (os que assinalaram a opção “c” na pergunta nº 1). Pior: dessa vez, nem foi prevista a opção “Não se aplica”.

Outro questionamento que eu faço é: ao pedir uma avaliação do desempenho profissional do ex-aluno, a pergunta não faz menção à área de formação. Fica, então, a critério do respondente decidir se responde com base na atividade que exerce hoje, se diferente da de formação, ou na de formação. Com isso, é bem possível que as respostas obtidas pela pesquisa sejam uma salada com vários sabores, impedindo que a faculdade tenha uma mínima ideia de como estão se saindo seus ex-alunos na área em que se formaram, o que põe por terra seu objetivo declarado de rever e adaptar currículos às necessidades do mercado de trabalho.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

A pergunta nº 21 tem uma redação capenga. Em primeiro lugar, cabe perguntar: envolvimento de quem: do respondente? Se for, então o que se deseja com a pergunta é uma autoavaliação do ex-aluno? Nesse caso, que utilidade poderia ter uma resposta positiva? E negativa? E se o tal envolvimento não for do respondente: de quem seria? Das atividades? Será que a pergunta visa a avaliar o quanto as atividades do trabalho dos egressos são envolventes? Nesse caso, haveria alguma justificativa razoável para a pergunta?

Outro desacerto: supondo esclarecida a dúvida acima (de quem seria o tal envolvimento), o respondente encontra uma escala de respostas desalinhada da pergunta. Se o que se pede é uma avaliação do envolvimento de alguém, as opções de resposta coerentes deveriam ser conceitos como “muito alto”, “alto”, “médio”, “baixo” e “muito baixo”, por exemplo. Não se fala em “ótimo envolvimento” ou em “péssimo envolvimento” (comentei isso na Dica nº 53).

E a palavra “solicitadas” também não é a melhor. Pergunto-me se “as atividades solicitadas durante o trabalho” seriam as atividades inerentes ao trabalho. É possível que sim, mas a expressão “solicitada durante” me passa a ideia de algo extra, fora da rotina. Como passa essa ideia a mim, pode perfeitamente passar para alguns respondentes. Redação frouxa é sempre ruim: ela dá margem a diferentes interpretações e, se cada um entender a pergunta de um jeito, teremos respostas cada uma a seu jeito também. Resultado: mais salada nas respostas; menos qualidade da pesquisa.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Há pouco falamos em texto frouxo e continuaremos com esse mote, infelizmente. Caro leitor, me diga com sinceridade, qual a função do trecho que antecede a vírgula? Não só não tem função alguma, como torna a estrutura da pergunta canhestra, sem falar que faltaria uma vírgula depois de “Você” (o que corrigiria a frase gramaticalmente, mas não conferiria sentido a ela). O correto era iniciar a pergunta com “Que disciplina...” e direcionar a pergunta ao respondente, seja dizendo “sua melhor formação” ou “para que você tivesse uma melhor formação”; ou qualquer outra coisa do gênero. Ou seja, a pergunta é um belo tropeço na sintaxe.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Em princípio, a pergunta se justifica, mesmo depois da de nº 17 (“Qual é o conceito que você atribui ao curso que concluiu?”). É perfeitamente possível o ex-aluno atribuir um conceito ao curso que fez e ter uma imagem não alinhada da instituição como um todo. Mas cabe um questionamento: a imagem que está sendo pedida é a do respondente ou aquela que ele percebe nos olhos do mercado? Observe, atento leitor, que esse questionamento se justifica: no primeiro caso, a pergunta deveria ser “Qual é a imagem que você tem da XXX?”. Quando se pergunta “Como você avalia a imagem da XXX?”, como consta no questionário, passa-se a impressão de uma referência de terceiros (ninguém avalia a imagem que faz de alguma coisa). De novo, estamos diante de uma pergunta feita aparentemente com descuido. Não é necessário elucubrar muito para se imaginar a utilidade das respostas eventualmente recebidas como a base para o assentamento das ações estratégicas de melhoria pretendidas pela faculdade.

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Essa é uma típica pergunta aberta, em que se pedem sugestões ao respondente. Não tenho nada a comentar a respeito dela, a não ser... Bem, antes de seguir em frente, pergunto a você, atento leitor: notou algum deslize? Eu noto um: o acrônimo que representa o nome da faculdade (não transcrito aqui em momento algum) vinha sendo registrado como feminino (como o é de fato) em todas as perguntas até aqui; por algum motivo, nessa última pergunta ele aparece como masculino. Você arrisca alguma explicação, sabido leitor? Eu sim: trata-se de apenas mais um exemplo, dentre vários, de descaso na redação e na revisão das perguntas. Péssimo para se conquistar a boa vontade dos respondentes.

Terminamos, assim, a análise de todas as perguntas do questionário. Se você observou bem, caro leitor, percebeu que foram poucas as perguntas – se é que alguma – que se safaram. Nenhuma organização deveria publicar um questionário desses – que dirá uma faculdade. Involuntariamente, sou levado a pensar: se é esse o nível de questionário de pesquisa que eles conseguem fazer, imagina o dos cursos que ministram...

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