O questionário analisado a seguir foi desenvolvido para uma fundação que atua em áreas bastante diversas, como a de ensino fundamental, médio e superior, biblioteca comunitária, atendimento psicológico e oficinas pedagógicas direcionadas a crianças e adolescentes, entre outras.

O questionário, de 25 perguntas, tinha por objetivo avaliar o clima organizacional. Destaco e comento algumas dessas perguntas.

 

⇒ Há quanto tempo você trabalha na empresa?

• Menos de 01 ano
• 1 a 2 anos
• 3 a 4 anos
• 5 a 7 anos
• 7 a 10
• acima de 10

Qual é o problema?

Meu comentário:

Quem leu a Dica nº 20 deve ter encontrado dois erros de cara na pergunta acima: buracos entre as opções de resposta e superposição de opções. Vamos lá: o empregado que tiver entre 2 e 3 anos de trabalho na empresa responde o quê? E o que tiver entre 4 e 5? Cai no vazio, certo? E o que tiver 7 anos: marca a quarta ou a quinta opção? Impossível saber, concorda? O que vai acontecer? Cada respondente que se encontrar numa dessas situações vai decidir em que opção assinalar a sua resposta. Começamos mal, concorda, fiel leitor?

Outra crítica que eu faria à pergunta seria quanto à falta de capricho: as três primeiras opções terminam com a palavra “anos”; as duas outras não. A primeira se inicia com letra maiúscula; a última não. Essas coisinhas não constituem erros de questionário, mas passam imagens nada favoráveis à empresa, como desleixo, por exemplo.

Vejamos outra pergunta do questionário.

 

  ⇒ Assinale entre as alternativas abaixo qual correspondente à sua escolaridade:

Não alfabetizado
Ensino Fundamental Incompleto
Ensino Fundamental Completo
Ensino Médio Incompleto
Ensino Médio Completo
Superior Incompleto
Superior completo
Especialização
Mestrado
Mestrado em curso
Doutorado
Doutorado em curso

Qual é o problema?

Meu comentário:

A primeira coisa que me chama a atenção nas opções de resposta apresentadas é a primeira delas: quem poderia assinalar essa opção? Para haver alguma marcação ali, seria necessário que alguém estivesse preenchendo o questionário pelo empregado, certo? Uma prática dessas, ainda mais em uma pesquisa de clima organizacional, em que os empregados deveriam ter o sigilo de resposta totalmente garantido... não sei, não...

Outro problema que eu noto diz respeito à falta de ordem das opções de resposta. Observe, caro leitor, que, até o nível superior completo, as opções seguem uma ordem; dali em diante, essa ordem muda. A opção “Especialização”, por exemplo, ao contrário de todas as demais, não vem antecedida por uma versão não concluída (no caso, “Especialização Incompleta”); por outro lado, nas opções seguintes (mestrado e doutorado), as versões em curso se sucedem às versões concluídas. Como destaquei na Dica nº 53, opções de resposta desordenadas constituem uma das causas de desorientação do respondente e devem ser evitadas.

Passemos a outra pergunta.

 

⇒  Você considera o salário que recebe em relação ao trabalho que executa?

meu salário é injusto e baixo pelo que faço
meu salário é baixo mas está compatível ao que faço
meu salário está abaixo da média do mercado
meu salário é justo e adequado a minha função

Qual é o problema?

Meu comentário:

Há vários problemas na pergunta acima. Um deles é relativamente menos importante do que os demais: a redação da pergunta não condiz com as opções de resposta. Para ser coerente com elas, a pergunta deveria ser reformulada para “Como você considera o salário que recebe em relação ao trabalho que executa?”. A incoerência entre o tipo de pergunta e o tipo das opções de resposta fornecidas é abordada na Dica nº 53 deste blog.

Outro problema – esse grave – é a justaposição de adjetivos em três das quatro opções (“injusto” e “baixo” na primeira, “baixo e compatível” na segunda, e “justo” e “adequado” na quarta). É bem verdade que esses pares de adjetivos nas opções não necessariamente irão impor dificuldades a todos os empregados: quem se vir perfeitamente enquadrado em alguma das opções a assinalará sem problemas. Só que não se pode contar com isso como certo. Fazendo o papel do advogado do diabo, podemos argumentar: salário baixo não é sinônimo de salário injusto. Nada impede, por exemplo, que alguns empregados julguem baixo o salário que recebem, mas não cheguem a considerá-lo injusto, seja porque sabem que aquele é mais ou menos o valor que outras empresas pagam a empregados que desempenham a mesma função; seja porque a empresa paga salários baixo a todos os empregados, de todas as funções; seja porque amigos ganhem ainda menos do que eles, etc. O que poderá responder, então, um empregado que pense dessa forma? Não há resposta dentre as quatro fornecidas, concorda, judicioso leitor? O mesmo problema ocorre com os demais pares de adjetivos. Por conta desses pares, a pergunta infringe a recomendação dada na Dica nº 5, de se perguntar apenas uma coisa de cada vez.

Outro problema da pergunta é o desvio de rumo encontrado nas opções de resposta. Observe, atento leitor, que as primeiras respostas referem-se ao trabalho que o empregado faz; a última, à sua função. Trata-se da mesma coisa? Bem, perdi a conta das vezes em que ouvi manifestações de revolta de empregados que, no seu entender, desempenhavam tarefas não constantes da descrição da sua função. Sendo assim, avaliar o salário tendo por base a função seria uma coisa; já com relação às tarefas desempenhadas poderia ser outra bem distinta! Ora, o que a empresa deseja saber, afinal: a percepção do salário relativo ao trabalho ou à função dos empregados? Ela deveria escolher. Se parte das opções se refere a uma coisa e parte a outra, acabou-se a possibilidade de comparação.

Outro problema da pergunta é a superposição entre diferentes opções de resposta. Observe, amigo leitor: um empregado que julgue o seu salário injusto, baixo e inferior à média de mercado teria duas opções adequadas para assinalar a sua resposta (a primeira e a terceira), certo? Um outro, que considere o seu salário baixo e inferior à média de mercado, mas que reconheça que não trabalhe muito, teria igualmente duas opções nas quais assinalar a sua resposta: a segunda e a terceira. Aí cabe a pergunta: que fim levou a recomendação da Dica nº 20, de se construir sempre opções de resposta mutuamente excludentes? Foi jogada no lixo!

Os problemas da pergunta não terminam aí. Para contarmos com um conjunto de respostas que cobririam o universo de respostas possíveis, teríamos que considerar também o outro lado da questão: embora raríssimas, existem pessoas que consideram que ganham mais do que o exigiria o tipo do trabalho que realizam (em toda a minha vida, eu conheci apenas um caso, mas conheci). Por coerência, convinha existir uma opção que contemplasse esses casos. Certamente não seria a opção mais assinalada, mas...

Por fim, eu gostaria de chamar a atenção para um detalhe que, se não diz respeito a técnica de fazer questionários, deixa passar impressões nos respondentes: não se diz “compatível a”, e sim “compatível com”. É importante cuidar do português para não se passar uma impressão de coisa malfeita. Principalmente quando a instituição que encomendou o questionário é da área educacional.

Vejamos outra pergunta.

 

⇒ Você considera que teria facilidade em conseguir em outras empresas o mesmo salário que recebe na XXX

( )Sim
( )Não
( )As chances são poucas
( )Seria muito fácil
( )Não sei responder 
 

Qual é o problema?

Meu comentário:

Você reparou, atento leitor, que, para indicar o lugar em que os empregados deveriam assinalar a resposta, eu troquei a bolota, que aparece nas perguntas anteriores, por um par de parênteses? Acontece que não fui eu que fiz isso; eu só fiz copiar o questionário. Também não fui eu que retirei o ponto-de-interrogação da pergunta; ela foi aplicada assim mesmo aos empregados. Falta de capricho, né? Falta de revisão, falta de padrão...

Mas esses não são, nem de longe, os principais problemas da pergunta. Para começo de conversa, encontramos de novo, entre as opções de respostas, uma desatenção à recomendação da Dica nº 20: as categorias de resposta devem ser mutuamente excludentes. Só de passarmos os olhos por essas opções, notamos que isso não existe: há superposição entre a primeira e a quarta, assim como entre a segunda e a terceira.

E se uma mesma resposta pode ser dada em opções fisicamente distantes, é possível que haja também uma desorganização na ordem das respostas, certo? “É possível” não; há! As duas opções negativas (a segunda e a terceira) encontram-se entre as duas positivas (primeira e quarta). Opções fora de ordem transgridem o preceito apresentado na Dica nº 53. Tudo indica que a intenção da pergunta era aquilatar o quão fácil (ou difícil) seria, na opinião dos empregados, encontrar o mesmo salário em outras empresas. Nesse caso, o mais certo seria reformular a pergunta, de modo que as opções de resposta apresentassem uma gradação entre os extremos “Muito fácil” e “Muito difícil”. Ou seja: tanto a pergunta quanto as opções de resposta deveriam ser reescritas.

Passemos à pergunta seguinte.

 

⇒ No ambiente de trabalho, você considera que o salário é o elemento que mais motiva o funcionário?

considero muito
considero pouco
considero
não considero

Qual é o problema?

Meu comentário:

Construção canhestra, amadorística da pergunta. Trata-se nitidamente de um caso para a aplicação da Escala de Likert (veja Dica nº 30 deste blog). Uma sugestão de nova redação da pergunta (transformada em afirmativa):

“O que mais motiva o funcionário no seu trabalho é o salário”.

Sugestão de escala de respostas:

Discordo totalmente
Discordo em parte
Não concordo nem discordo
Concordo em parte
Concordo totalmente

Passemos à seguinte.

 

⇒ Por um salário igual ao que recebe, você sairia da XXX para trabalhar em uma empresa privada?

o Sairia certamente
o Talvez saísse
o Não sairia
o Certamente não sairia

Qual é o problema?

Meu comentário:

Curto e grosso: não há diferença entre as duas últimas opções e falta uma opção como “Não sei” ou “Depende”. Mais uma colisão com a Dica nº 20 deste blog.

Passemos para a última pergunta desse questionário a ser analisada.

 

⇒ Como você avalia a divulgação da XXX relativas às políticas, ao trabalho desempenhado, os objetivos, metas e resultados obtidos, junto à população em geral?

o A divulgação é muito fraca
o A divulgação é regular
o A divulgação é boa
o A divulgação é muito boa

Qual é o problema?

Meu comentário:

Neste caso, o problema não é a falta de ordem das opções de resposta, mas sim a pergunta em si. Observe, atento leitor, que são feitas cinco perguntas numa só! Que resposta poderia dar um empregado que considerasse boa a divulgação dos trabalhos desempenhados, mas que a referente às políticas da empresa era praticamente inexistente? O questionamento vale para qualquer outro caso em que um respondente avaliasse a qualidade da divulgação de certo ponto de uma forma e a de outro de forma diferente. Esse problema é discutido na Dica nº 5 deste blog.

Teste Teste Teste