Tempos atrás, um grupo mineiro cogitava abrir uma empresa de organização de eventos. Para isso, criou dois questionários – um para ser aplicado a potenciais clientes; outros, a futuros concorrentes. Vamos analisar este último.

1 - Como o senhor considera o mercado mineiro de eventos empresariais?

o Promissor

o Em crescimento

o Estável

o Estagnado

Qual é o problema?

Meu comentário:

Antes de qualquer outra coisa, caberia esclarecer o que o grupo chama de eventos, já que o termo tem vasta abrangência, podendo ser compreendido de inúmeras maneiras: seminários, palestras, feiras, treinamentos, shows, festas, etc. Sem um esclarecimento prévio do que exatamente se está falando, o grupo poderia ter uma coisa em mente, e as empresas pesquisadas poderiam considerar coisas bem distintas na sua resposta. A Dica nº 26 deste blog refere-se à necessidade de clareza na formulação das questões; a Dica nº 43, aos casos em que é necessário fornecer instruções para a resposta.

Com relação às opções de resposta sugeridas, nota-se que elas se desviam das recomendações dadas na Dica nº 20, que discorre sobre a necessidade de que essas opções sejam exaustivas e não superpostas. Observe, caro leitor, que há pouca diferença (se é que alguma) entre a primeira e a segunda opção. As duas últimas também poderiam ser interpretadas como equivalentes. Por outro lado, sinto falta de outras opções, como, por exemplo, “indefinido”, “não há lugar para os pequenos”, “só há lugar para os pequenos”, “não sei dizer”.

Um último detalhe: se não quiser usar o pronome de tratamento “você”, use a forma “senhor(a)”. Procure não parecer que só se dirige aos homens.

2 - Existe demanda por serviços de eventos no interior de Minas Gerais?

o Sim

o Não

Qual é o problema?

Meu comentário:

Não fica claro o que se quer saber com a pergunta: se existe demanda no setor em geral ou se a empresa pesquisada, em particular, vem tendo demanda? São duas coisas bem diferentes. A ambiguidade da pergunta pode ser fatal para a análise das respostas (veja a Dica nº 24).

Além disso, o conjunto opções de resposta (sim / não) não me parece o mais adequado para retratar da melhor maneira o nível de atividade do setor. Na minha opinião, melhor seria adotar uma escala que indicasse a intensidade dessa demanda – por exemplo, uma que tivesse como pontos extremos “Muito fraca” e “Muito forte”. A Dica nº 33 discute critérios de uso de escalas com apenas duas categorias e com mais categorias.

3 - Se "sim", qual a frequência desses eventos?

o 1 a 5 vezes por ano

o 6 a 10 vezes por ano

o Mais de 10 vezes por ano

Qual é o problema?

Meu comentário:

Bem, agora, a partir da formulação dessa pergunta 3, eu posso concluir que, na pergunta anterior, o grupo estava se referindo à demanda de serviços de eventos da empresa pesquisada, e não do setor como um todo. Mas o fato de uma pergunta se esclarecer “mais tarde” não a torna mais correta; a clareza de qualquer pergunta de um questionário deve ser condição inerente a ela.

Há também que se rever o conjunto de opções de resposta. Você saberia dizer por quê, criterioso leitor? Pense comigo: o público da pesquisa são empresas organizadoras de eventos, certo? Ou seja, elas vivem disso. Eu não conheço a área, mas, a menos que se esteja falando de megaeventos, acho muito difícil que uma empresa sobreviva organizando apenas uma “meia dúzia” de eventos por ano, concorda? Só que essa “meia-dúzia”, que eu usei no sentido metafórico, é exatamente a quantidade que o grupo previu nas duas primeiras opções de resposta! Que quantidade se deve esperar de respostas dadas a essas opções? Eu me arriscaria a dizer que praticamente nenhuma. Então, se eu estiver certo, pelo menos 99% das respostas recairão na terceira opção. Diante disso, me diga, sensato leitor: que utilidade teria essa informação para o grupo que pretendia abrir o seu negócio? Nenhuma! Qual foi o erro? Uma má escolha da quantidade de categorias de resposta, que deveriam ser bem mais numerosas. Até que número prever? Não faço ideia; já disse que não conheço a área. Mas eu procuraria me informar sobre isso antes de fechar o questionário. Além disso, com certeza poria, como última opção, uma do tipo “Mais do que XXX”.

4 - Sua empresa presta serviços em outros estados?

o Sim

o Não

Qual é o problema?

Meu comentário:

Cabe questionar: essa pergunta tem alguma utilidade ou não? Vou partir do princípio de que sim; uma possibilidade seria o grupo que fez a pesquisa também estar cogitando a prestação de serviços fora de Minas Gerais. Outra possibilidade seria a intenção de segmentar os resultados da pesquisa segundo o alcance geográfico das empresas pesquisadas. Ou seja: é possível que houvesse um propósito ao se incluir essa pergunta no questionário. Mas, se de fato havia esse propósito, por que não perguntar, às empresas que respondessem “sim”, em que outros estados elas atuavam? Deve ser muito diferente uma empresa organizar eventos em estados como São Paulo e Rio de Janeiro e organizá-los em estados mais pobres, com demanda bem menor. Deixando-se de se perguntar isso, fica-se com uma informação incompleta e – creio eu – de pouca utilidade. Por outro lado, se a pergunta foi feita “por mera curiosidade”, recaímos na questão abordada na Dica nº 3 deste blog, que recomenda fazer apenas perguntas realmente necessárias em questionários de pesquisa.

5 - Há quanto tempo sua empresa está atuando neste mercado em Minas Gerais?

o Menos de 1 ano

o De 1 a 3 anos

o De 3 a 5 anos

o Mais de 5 anos

Qual é o problema?

Meu comentário:

Caberia corrigir a redação das opções, de modo a não deixar dúvidas sobre os limites de cada uma, conforme recomenda a Dica nº 20. Por exemplo, a empresa que atuar há 3 anos, deve assinalar qual opção: a segunda ou a terceira?

Fora isso, não vejo problemas técnicos na pergunta. Só gostaria de comentar que, para que se justificasse a sua manutenção no questionário, seria de se esperar que ela tivesse algum objetivo, como, por exemplo, o de segmentar os resultados segundo o tempo de atuação das empresas.

6 - Qual ou quais segmentos empresariais mais demandam serviços de eventos em Minas Gerais?

a) _________________________________________________________________

b) _________________________________________________________________

c) _________________________________________________________________

d) _________________________________________________________________

Qual é o problema?

Meu comentário:

Em princípio, não há problemas na pergunta,... a não ser que o questionário venha a ser aplicado a muitas empresas. Isso, porque o grupo optou pela forma aberta de fazer a pergunta. Ou seja, cada respondente responde com as suas próprias palavras, sem um leque pré-fornecido de opções. O que isso pode gerar?

Uma trabalheira sem tamanho para quem for analisar as respostas! Para que você tenha uma ideia da possível variabilidade de tipos de resposta, dou uns exemplos: respostas como “petróleo”, “indústria do petróleo”, “setor de petróleo”, “ramo petrolífero”, “óleo”, “óleo e gás”, “gasolina, óleo e gás”, “petroleiras”, etc. são algumas das inúmeras possibilidades de as empresas se referirem ao setor de óleo e gás, como poderia constar como uma opção de resposta, caso se decidisse pela forma fechada da pergunta.

Mas a questão não se limita a isso. Alguns respondentes poderiam entender a expressão “segmentos empresariais” como porte ou origem, e dar respostas como “empresas de grande porte”, “multinacionais”, “empresas do setor de B2B”, etc. Já imaginou a salada de respostas com que o pobre analista teria que lidar?

A Dica nº 28 deste blog apresenta uma boa análise das vantagens e desvantagens de se optar por perguntas abertas ou fechadas; a Dica nº 4 lança um alerta quanto ao risco de não se obter o tipo de resposta esperado com a pergunta. Vale a pena ler as duas.

7 - Quais as maiores dificuldades para a venda deste tipo de serviço em Minas? Enumere de 1 (pouco importante) a 5 (muito importante), conforme o grau de importância.

o Conservadorismo dos empresários

o Muitas empresas possuem serviço próprio para eventos

o O orçamento das empresas para esse fim é restrito

o Há excesso de concorrentes na praça

o Falta informação aos empresários

Qual é o problema?

Meu comentário:

Reza a boa prática de pesquisa que, antes de se fazer um questionário (que é um levantamento quantitativo), deve-se fazer uma pesquisa qualitativa, principalmente quando quem pesquisa não domina o assunto que pretende estudar. Entre as várias vantagens desse proceder, posso citar o enriquecimento das opções de resposta que incluiremos no futuro questionário. É fácil entender por quê: conhecendo mais do assunto, saberemos melhor quais os principais problemas, expectativas, iniciativas, práticas, etc.

Eu conheci o grupo que montou o questionário que ora estamos analisando e posso assegurar a você: eles não tinham feito uma pesquisa qualitativa prévia. Assim, o que aparece como opções de resposta na pergunta nº 7 – assim como em todas as demais – é fruto de um brainstorming do próprio grupo. O que se pode esperar nesses casos? Uma ocorrência bastante significativa de respostas que não se enquadram em nenhuma das opções predefinidas. Sendo assim, considero imprescindível incluir pelo menos a opção “Outra(s)”, acompanhada de um espaço onde o respondente especificaria a(s) dificuldade(s) que ele gostaria de apontar e não encontrava espaço.  Lembro apenas que a inclusão de uma opção “Outra(s)” não faz de uma pergunta fechada uma aberta (Dica nº 29).”.

Por fim, caberia homogeneizar os termos empregados na pergunta. Observe que a questão começa falando em dificuldades e prossegue pedindo uma classificação das respostas em ordem de importância. Trata-se de duas coisas diferentes, concorda, rigoroso leitor?  Falo sobre isso na Dica nº 53.

8 - Quais as maiores dificuldades para realizar um evento empresarial na capital? Enumere de 1 (pouco importante ) a 5 (muito importante) conforme o grau de importância.

o Falta de um local adequado

o Falta de bons hotéis e restaurantes

o Falta de mão de obra qualificada

o Falta de atrativos turísticos

o Má qualidade dos serviços de terceiros

Qual é o problema?

Meu comentário:

Vale o meu comentário para a pergunta nº 7, sem tirar nem pôr.

9 – E no interior?

o Falta de um local adequado

o Falta de bons hotéis e restaurantes

o Falta de mão de obra qualificada

o Falta de atrativos turísticos

o Má qualidade dos serviços de terceiros

Qual é o problema?

Meu comentário:

Idem perguntas anteriores.

10 - Como o senhor considera as exigências legais (documentação, taxas, impostos, etc.) para a instalação e funcionamento de uma empresa de eventos em Minas?

o Adequadas

o Insuficientes

o Excessivas

Qual é o problema?

Meu comentário:

Me pergunto que utilidade poderia ter uma pergunta dessas. Raciocine comigo, fiel leitor: escolha uma das três opções de resposta – qualquer uma – e me diga: no lugar do grupo que bolou o questionário, o que você faria com ela?

De minha parte, não faço ideia. Só consigo imaginar uma utilidade de uma pergunta dessas se quem a estivesse fazendo tivesse algum poder político-administrativo para interferir no processo legal de obtenção de licenças para a abertura e funcionamento de empresas de eventos. Fora isso...

Ou seja: acho que a pergunta se enquadra, à perfeição, no escopo da Dica nº 3 deste blog.

Para terminar, chamo de novo a atenção para o tratamento igualitário: “senhor(a)”.

11 - Qual ou qual(is) o(s) meio(s) mais utilizado(s) pelo senhor para contatar novos clientes?

o Mala direta

o Consultando a internet

o Indicação pessoal

o Visitando feiras ou outros eventos

o Pela propaganda de TV

o Por anúncios de jornais e revistas

o Consultando associações de classe

o Outro

Qual é o problema?

Meu comentário:

Em primeiro lugar, me pergunto se não seria mais útil (e importante) perguntar, em vez dos meios mais utilizados, os que geram maior retorno.

Em segundo lugar, eu homogeneizaria as opções de resposta: começamos com um substantivo? Então vamos de substantivo até o fim: mala direta, internet, indicação pessoal, feiras / outros eventos, propaganda em TV, anúncios em jornais e revistas, e associações de classe. Ao lado da opção “Outro”, eu providenciaria um espaço para o respondente poder especificar o tal outro.

Por fim, eu faria a correção “senhor(a)”, já apontada acima.

12 - Na sua avaliação, o que os clientes mais priorizam ao contratar os serviços de sua empresa? Enumere de 1 (pouco importante) a 8 (muito importante), conforme o grau de importância.

o Preço

o Qualidade

o Marca (ou grife)

o Aspectos legais (a empresa é legalizada?)

o Condições de pagamento

o Localização

o Referência de terceiros

o Outro

Qual é o problema?

Meu comentário:

Em primeiro lugar, existe uma inconsistência interna na pergunta: quando se pergunta o que os clientes priorizam (“mais priorizam” é muito ruim!), o que se quer saber é(são) o(s) motivo(s) que eles julgam mais importante(s), certo? Então, não faz sentido pedir a eles que classifiquem um rol de atributos segundo uma escala que contenha uma categoria como “pouco importante” (ver Dica nº 53).

Em segundo lugar, se o grupo optasse por pedir não os atributos mais importantes, mas sim uma classificação de cada um segundo uma escala de importância, eu recomendaria adotar uma escala mais usual. Uma gradação de 1 a 8 é algo raríssimo, que poderia, por si só, complicar a tarefa do respondente. Eu me adianto aqui, falando duas palavrinhas sobre a pergunta nº 13, que analiso a seguir: ela emprega uma escala de importância de sete pontos – de 1 a 7. Ora, não se deve sair mudando as escalas de um questionário de uma pergunta para outra: o respondente fica doido!

Por fim, eu faria a alteração já sugerida em outras perguntas deste questionário: providenciaria um espaço para que o respondente especificasse a resposta “Outro”.

13 - Quais são suas maiores preocupações durante a realização de um evento? Enumere de 1 (pouco importante) a 7 (muito importante), conforme o grau de importância.

o A apresentação de minha equipe ("visual")

o A agilidade de meus profissionais

o A cortesia

o Que meus empregados desempenhem suas tarefas com competência

o Que a tecnologia empregada (som, luzes, efeitos especiais) funcione bem

o A segurança das pessoas

o A coordenação e o controle da situação

Qual é o problema?

Meu comentário:

A primeira coisa que eu questionaria seria a utilidade da pergunta. Por que motivo o grupo resolveu fazer essa pergunta para quem presta o serviço, em vez de fazê-lo a quem o recebe? (Cabe dizer que foi passado um questionário para usuários também). Se a pergunta foi feita apenas “por curiosidade”, eu reforço os termos da Dica nº 3, em que critico essa prática. Para fins da presente análise, vou supor que não: vou partir do princípio de que havia um objetivo defensável para a aplicação da pergunta.

Nesses termos, a crítica que eu faria seria a do emprego de uma escala de importância. Explico: basta dar uma passada de olhos nos itens submetidos a avaliação para se verificar que não há nenhum que possa ser considerado desimportante, ou mesmo razoavelmente importante. São todos importantes ou muito importantes. Ora, qual a consequência disso? Uma pesada concentração de respostas na parte alta da escala. Consequência: o objetivo da pergunta, que era escalonar os diversos itens se perde. Se tudo é importante... Melhor teria sido pedir aos respondentes que indicassem os três itens que mais valorizam. No cômputo geral das respostas, o analista poderia avaliar o grau de importância dos diversos itens para o conjunto das empresas pesquisadas, a partir da quantidade de registros de cada item.

Chama a atenção também a ausência do item “Outra / Qual?”, contudo não posso classificar isso como erro: não tenho como saber se o objetivo da pergunta era conhecer os itens mais importantes dentre todas as preocupações que o organizador de eventos poderia ter ou se o interesse do grupo era avaliar a importância dada àquele conjunto específico de itens. Ou seja: não sei dizer se houve esquecimento ou propósito.

14 - Quantas empresas concorrentes ao seu negócio são de seu conhecimento em Minas?

o De 1 a 3

o De 3 a 5

o De 5 a 10

o Mais de 10

Qual é o problema?

Meu comentário:

Começamos com uma redação claudicante da pergunta. Primeiro, eles devem ter querido dizer “concorrentes da sua empresa”. Concorrentes do negócio (e não ao negócio) é outra coisa. Segundo, “são de seu conhecimento” é meio rebuscado; mais simples – e melhor – é “você conhece”.

Bem, corrigido o texto, voltamos ao velho ponto: qual será a utilidade da pergunta? Que interesse o grupo poderia ter nas respostas? Se for ter uma ideia do tamanho do mercado de organização de eventos, estão consultando a fonte errada. As empresas pesquisadas podem não ter ideia da quantidade de concorrentes, como podem tê-la super ou subdimensionada. Se é essa informação que o grupo desejava, era melhor ir buscá-la em fontes mais fidedignas.

É claro que temos de novo a questão da superposição de opções (o que dificultará a resposta de quem responder 3 ou 5, mas, diante do problema apontado acima, essa é uma questão menor. Caberia também procurar ter uma ideia prévia da quantidade de atores desse setor, pois, com o conjunto de opções apresentado, o grupo corre o risco de receber a quase totalidade de respostas numa única categoria.

15 - Quais são os pontos mais fortes de seus principais concorrentes? Enumere-os de 1 (pouco importante) a 8 (muito importante).

o Pontualidade

o Estrutura organizacional

o Tecnologia

o Suporte financeiro

o Agilidade

o Conhecimento do mercado

o Equipe bem treinada

o Outro

Qual é o problema?

Meu comentário:

Repetem-se aqui os erros apontados em perguntas anteriores:

- resposta (expressa em escala de importância) de natureza destoante da pergunta (simples indicação de atributos);

- escalas diferentes em cada pergunta (voltou-se aqui à de 1 a 8);

- inexistência da pergunta “Qual?” acompanhada de um espaço ao lado do item “Outro”.

Além desses, destaco um ponto novo, específico da pergunta nº 15: não está claro se o respondente deve indicar todos os pontos mais fortes dos principais concorrentes ou apenas os que são comuns a todos. Se a primeira hipótese for a verdadeira, corre-se o risco de se ter, como respostas, todos ou quase todos os atributos citados; se a hipótese correta for a segunda, adotou-se uma premissa altamente questionável: a de que os pontos fortes dos principais concorrentes são os mesmos. Ou seja: a pergunta, além de ser ambígua (ver Dica nº 24 a respeito), pode gerar resultados inúteis

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