A pedido de uma revista não-acadêmica, uma psicóloga elaborou um questionário de 15 perguntas (redigidas sob a forma de afirmativas) cujo objetivo era avaliar o nível de autoestima dos respondentes. Para cada pergunta, eles tinham que assinalar uma dentre três opções de resposta: “raramente”, “às vezes” ou “sempre”. Reproduzo e comento algumas dessas perguntas.

2.1) Quando passo por períodos de stress, minha saúde fica debilitada e acabo doente.

Qual é o problema?

Meu comentário:

Em princípio, alguém poderia criticar o início da afirmativa, argumentando que está sendo feita uma suposição sobre o respondente (a de que ele passa por períodos de stress). Realmente, fazer premissas acerca do respondente está longe de ser boa prática de pesquisa (falei sobre isso na Dica nº 14), mas eu relevaria a questão neste caso particular, pois é difícil imaginar pessoas imunes ao stress no atribulado mundo atual. Ocorre que a afirmativa tem outro problema: ela faz duas afirmações simultâneas: a de que a saúde da pessoa se debilita e a de que a pessoa adoece.

Ué, estranhará o leitor, surpreso: não é a mesma coisa? Não, não é. Tanto não é, que é muito comum as pessoas passarem por períodos de debilidade física sem desenvolverem doenças. Quando? Ué: quando se sentem extenuadas sem motivo aparente, quando lhes surge uma dor de cabeça do nada, quando se enfiam em casacos sem que a temperatura o justifique, etc. Que resposta deve assinalar uma pessoa que, em situações de stress, muitas vezes experimenta algum(ns) desses mal-estares sem, no entanto, ficar doente?

Problema, né? Se ela entender que o cerne da questão é o adoecimento, provavelmente irá escolher a opção de resposta que mais se aproxima da negativa – qual seja, “raramente”. Se, por outro lado, entender que a afirmativa aceita qualquer uma das situações descritas, provavelmente responderá “às vezes” ou “sempre”.

Como pode isso (um mesmo caso suscitando duas respostas diferentes)? Não pode! Qual foi o problema? Duas coisas perguntadas simultaneamente. Querendo se aprofundar um pouco mais no assunto, leia a Dica nº 5.

2.2) Sinto que não posso contar com os meus amigos, porque a nossa amizade é superficial.

Qual é o problema?

Meu comentário:

Imagine dois respondentes – Pedro e João. Pedro entende que não pode contar com os amigos, mas não por problemas de superficialidade nas relações. Digamos, por exemplo, que os amigos viajem muito ou que tenham consideráveis problemas familiares, que os impedem de manter uma proximidade desejável de Pedro. Que resposta Pedro dará? “Não”, certo? Agora João: ele conta 100% com os amigos. Sendo assim, já discorda da primeira parte da frase (a segunda nem faz sentido para ele). O que ele irá responder? “Não”, da mesma forma que Pedro.

Ou seja: temos dois casos opostos: um respondente conta com os amigos, o outro não. E ambos respondem a pergunta da mesma forma. Isso não pode estar certo, concorda, ajuizado leitor? E não está mesmo! Qual o erro? Duas coisas perguntadas ao mesmo tempo (assunto da Dica nº 5).

A pergunta 2.2 ainda tem um agravante, comparada com a 2.1: está redigida na forma negativa. Você pode ler mais a respeito desse problema na Dica nº 18.

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