O questionário apresentado a seguir era uma parte integrante de uma avaliação do mercado de fornecimento de alimentação para os alunos de escolas situadas na região metropolitana de São Paulo. Ele era destinado a escolas que tinham cantina própria; os respondentes eram as diretoras das escolas. Vejamos as perguntas.

1) Quantos alunos na faixa de 2 a 6 anos a escola possui?

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Qual é o problema?

Meu comentário:

Esse é o tipo de pergunta que “pede” opções fechadas de resposta. Em outras palavras, a pergunta foi formulada no formato aberto, quando deveria ter sido construída no formato fechado (leia a respeito na Dica nº 28 deste blog). Ao prover um espaço no qual os respondentes registrariam um número, o que o redator do questionário fez foi gerar sarna para o digitador e para o analista dos resultados se coçarem (o lado “bom” é que o redator, o digitador e o analista eram a mesma pessoa!). Essa “autoarapuca” não consistia somente no trabalho adicional de digitar vários números, quando bastaria digitar “x” em células pré-formatadas de uma planilha eletrônica, caso a pergunta fosse fechada; ela abre um arriscado flanco, por permitir que os respondentes registrem a resposta da forma que quiserem – por exemplo, “Entre 40 e 50”, “Uns 30”, etc. Vá tabular isso!

Você faz ideia do motivo por que o redator teria cometido essa pixotada? Eu sei e vou lhe dizer: o redator do questionário não fazia ideia do número de crianças típico de colégios pequenos, médios e grandes. Por isso, temeu “chutar” faixas etárias da sua própria cabeça e acabar incorrendo no problema que eu apontei na pergunta 3 do Caso 19: receber uma enorme quantidade de respostas numa única categoria e apenas “meia-dúzia” nas demais. Trata-se de um típico problema de quem parte para criar um questionário de pesquisa sem um mínimo conhecimento do assunto ou do mercado.

2) Na cantina da sua escola existe cardápio predefinido?

( ) Sim

( ) Não

Qual é o problema?

Meu comentário:

Uma pergunta surreal! O questionário não está sendo aplicado justamente nos colégios onde há uma cantina que serve refeições aos alunos? Então, ora bolas, como poderia não haver um cardápio predefinido? A alternativa a isso seria o quê: alguém da cantina passar na feira ou no mercado a caminho da escola, escolher e comprar os alimentos que encontrasse por lá e prepará-los a tempo de servir as refeições na cantina? Ou será que teriam um contrato com um fornecedor que decidiria, ele próprio, que alimentos levaria para a escola, de modo que o menu do dia seria sempre uma surpresa?

Não dá para engolir isso, concorda, ponderado leitor? Certamente havia alguma boa intenção do redator do questionário quando fez essa pergunta, mas, pelo menos neste momento, eu não consigo atinar qual era. Provavelmente nem os respondentes! Para mim, o mais provável aqui eram 100% de respostas “sim”.

3) As mães interferem no cardápio?

( ) Sim

( ) Não

Qual é o problema?

Meu comentário:

Ah! Parece que agora eu começo a entender a intenção da pergunta anterior! Provavelmente, o que redator do questionário queria saber era se a definição do cardápio era rígida ou flexível, isto é, se ficava 100% a cargo da escola e era inegociável ou se acatava pedidos e sugestões dos pais, de modo a atender a desejos e necessidades particulares. Se o meu palpite estiver certo, então era exatamente isso que deveria ter sido perguntado. Os respondentes não são obrigados a adivinhar o que a pergunta queria dizer (e não disse).

Ainda dentro dessa minha suposição, muito melhor teria sido aglutinar as perguntas 2 e 3 numa só, e apresentando, como escala de respostas, uma gradação entre “Nenhuma flexibilidade” e “Grande flexibilidade”.

4) A alimentação é adaptada no caso da criança ter sensibilidade/alergia a algum alimento?

( ) Sim

( ) Não

Qual é o problema?

Meu comentário:

Essa pergunta perderia a razão de ser caso fosse feita a aglutinação acima referida.

5) Apesar de a escola fornecer alimentação, existem mães que preferem que a criança leve a merenda de casa?

( ) Sim

( ) Não [Pule para a pergunta nº 7]

Qual é o problema?

Meu comentário:

Nada contra o uso da pergunta como pergunta-filtro (ver Dica nº 47), tendo em vista que a próxima pergunta procura investigar as causas dessa preferência (eu só eliminaria, por supérflua, a oração “Apesar de a escola fornecer alimentação”). O que eu questiono é não haver uma pergunta que permita uma estimativa da frequência de ocorrência desses casos.  Explico: se for muito pequeno o número de mães que preferem mandar o lanche das crianças, não compensa investir esforços em conhecer os motivos dessa preferência. Não faz sentido cansar desnecessariamente os respondentes e investir esforço de análise de um comportamento que praticamente não ocorre.

6) A que você atribui isso? [Possibilidade de marcação de mais de uma resposta]

( ) Insegurança sobre o controle da alimentação

( ) A criança tem restrição alimentar

( ) Considera o preparo do lanche um carinho para o filho

( ) A criança não gosta de alguns alimentos

( ) Preço

( ) Outros _______________________________

Qual é o problema?

Meu comentário:

Tecnicamente falando, não vejo problemas na pergunta. O único questionamento que eu faço é se as diretoras das escolas seriam a melhor fonte de obtenção da informação desejada: elas poderiam não conhecer os reais motivos, ou então poderiam conhecê-los e não querer revelá-los. Na minha opinião, o ideal seria a pergunta ser feita diretamente às mães que optam por preparar a comida dos filhos. Sei que não é tarefa fácil; trata-se de uma sugestão na medida das possibilidades.

Transcrevo a seguir, em bloco, as quatro perguntas finais do questionário.

7) O custo da merenda oferecida pela escola está incluído na mensalidade?

( ) Sim

( ) Não [Pule para a pergunta nº 9]

8) Os pais têm a opção de não contratar o serviço de merenda?

( ) Sim

( ) Não

9) Existe interesse da escola em terceirizar o serviço de merenda?

( ) Sim

( ) Não [Encerre aqui.]

10) Quais os diferenciais que a fariam optar pela empresa? [Possibilidade de marcação de mais de uma resposta]

( ) Certificado de qualidade

( ) Qualidade do alimentos (frescos, em boas condições, etc.)

( ) Cardápio variado

( ) Sistema de entrega eficiente (pontualidade, não “trocar” lanches, etc.)

( ) Cardápio balanceado por nutricionista

( ) Flexibilização do cardápio (poder modificar opções de alimentos, refeições para crianças com restrições alimentares, etc.)

( ) Incentivo à formação de hábitos alimentares saudáveis (workshops, criação de “hortinhas” na escola, palestras, eventos sobre alimentação)

( ) Praticidade/Comodidade

( ) Embalagem

( ) Preço compatível com o atual custo

( ) Outros:________________________________________________

Qual é o problema?

Meu comentário:

Não vejo problema nas perguntas. As de números 7 e 9 foram bem empregadas como filtros: só quem responde “sim” a elas é submetido à 8 e à 10 – ambas claras e bem redigidas. No máximo, eu incluiria uma opção como “Não sei” ou “Ainda não pensamos suficientemente a respeito” como uma nova possibilidade de resposta à pergunta nº 9.

Eu só faria uma observação: se o respondente registra “não” como resposta à pergunta nº 9, o questionário se encerra. Acho que, com isso, o estudo desperdiçou a chance de levantar uma informação que me parece importantíssima: o que leva uma escola a preferir manter uma cantina própria – atividade não pertencente ao seu core business –, com todos os custos e responsabilidades que isso envolve, a contratar uma empresa especializada? Acho que caberia uma última pergunta com essa indagação.

Teste Teste Teste