Anos atrás, a Psicologia começou a estudar o chamado “medo do sucesso”. Numa definição simplificada, trata-se de uma forma de ansiedade que caracteriza indivíduos que optam por evitar fracassos em vez de buscar sucessos. Uma universidade americana desenvolveu um questionário que as pessoas poderiam se autoaplicar e, de acordo com a pontuação obtida, verificar se têm ou não a tal fobia. O questionário é composto de dez perguntas, todas com opções de resposta “sim” ou “não”. Vale a pena examinarmos algumas perguntas desse questionário.

6.1) Minha felicidade me incomoda quando sei de um amigo que não está bem.

6.2) Acho muito difícil dizer não.

6.3) Acho que quem deseja muito alguma coisa acaba se desapontando.

Qual o problema?

Meu comentário:

Como disse acima, todas as perguntas do questionário oferecem, como opções de respostas, as alternativas “sim” e “não”. Será que essa escolha se presta bem às três perguntas em tela? Vejamos uma por uma.

Comecemos pela pergunta 6.1. É bem verdade que existem pessoas que se sentem incomodadas por gozarem de plena felicidade, vendo que amigos passam por dificuldades. A questão que eu levanto é: será que essas pessoas se sentem assim seja qual for o tipo de dificuldade por que passam os amigos? Aperto financeiro, desilusão amorosa, morte de parente, humilhação no trabalho... Será que qualquer uma dessas (ou de outras) dificuldades leva ao mal-estar dessas pessoas?

Por que esse meu questionamento, caro leitor? Preciosismo?

Não, não se trata de querer encontrar erro em tudo. Ocorre que, se é verdade que o tal incômodo que essas pessoas sentem quando veem amigos em má situação depende das condições dessa situação, então as opções de resposta não deveriam ser “sim” e “não”. Como iria responder a Lucinda, que se sente incomodada ao ver amigos penando com os desmandos de filhos problemáticos, mas não com amigos eternamente malogrados no amor? Sim ou não? Parece-me que falta uma contextualização da pergunta, não concorda, criterioso leitor?

Também sinto falta de contextualização na pergunta 6.2. Imagine o André, que não tem a menor dificuldade de dizer não quando lhe pedem dinheiro emprestado, mas que nunca se opõe (embora deteste) quando o chefe lhe pergunta se pode “virar” o fim de semana trabalhando? E quanto ao Vítor, que não se aperta para dizer, na frente de todos, no trabalho, que não irá à festa de fim de ano que a empresa organizou, mas é incapaz de se negar a acompanhar a mulher nos programas insuportáveis de fim de semana que ela inventa? E o que dizer da Cíntia, que diz “na cara” da sogra que é melhor ela não vir visitar os netos durante a semana, mas é incapaz de negar o pedido do filho, sempre que ele lhe pede um brinquedo novo? Como pessoas como o André, o Vítor e a Cíntia deveriam responder à pergunta 6.2: assinalando “sim” ou “não”?

Para terminar a análise das três perguntas em destaque, vamos agora para a 6.3. Com o que você acha que eu implico desta vez, perspicaz leitor? Acertou: falta de contextualização de novo. Será que faz sentido esperarmos uma coerência total nas crenças e sentimentos das pessoas em geral? Acompanhe-me neste exemplo, amigável leitor: Kléber acredita piamente que o ponto de partida para uma pessoa conseguir algo para si e que só dependa do seu esforço (um bem, uma viagem, uma condição de vida, etc.) é desejar muito aquele algo; por outro lado, ele considera uma tola perda de tempo ficar sonhando com coisas que dependem da boa vontade de terceiros que nada têm a ganhar (uma indicação profissional, por exemplo). Ou seja: dependendo do caso, Kléber pode responder “sim” ou “não”.

Nos três casos analisados, os respondentes tanto podem assinalar “sim” quanto “não”, e ambas as respostas estarão corretas! Que diabos de perguntas são essas, afinal?

São perguntas que não combinam com as opções de resposta escolhidas. Como corrigir esse problema? Difícil responder sem conhecer exatamente as necessidades de quem contratou a pesquisa. Apelar para uma escala de frequência, com base em termos genéricos como “sempre”, “na maioria das vezes”, “de vez em quando” etc., pode não ser uma boa ideia (recorde a Dica nº 24, em que eu falo dos problemas decorrentes da ambiguidade). Melhor parece contextualizar as perguntas, ou seja, definir situações em que elas deveriam ser consideradas (ambiente de trabalho, ambiente familiar, convívio com amigos, etc.). Seja como for, vale dar uma recordada na Dica nº 33, em que teço um rápido comentário acerca de escalas compostas de duas categorias, quando o ideal seria uma escala mais ampla.

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