Houve uma época em que o workaholic – o indivíduo viciado em trabalho – era valorizado. Com o tempo, passou-se a questionar esse valor. As cartilhas mais modernas de administração começaram a associar o workaholic com um indivíduo que não consegue gerenciar adequadamente as suas tarefas. Na época, uma empresa da área de recursos humanos, colocação profissional, gestão de carreiras, etc. criou um pequeno questionário (15 perguntas) – todas com opções de resposta “sim” e “não”, com o objetivo de avaliar se o respondente era ou não viciado em trabalho. Destaco aqui algumas das perguntas desse questionário.

7.1) Você costuma chegar cedo, ficar até tarde e fazer mais do que é preciso para um bom resultado?

( ) Sim

( ) Não

Qual é o problema?

Meu comentário:

Acompanhe, dileto leitor, o caso do Edvaldo. O pobre Edvaldo, um excelente profissional, foi contratado por uma empresa que adota a filosofia de que cada empregado pode fazer o serviço de dois. Como resultado, todos na empresa trabalham no sufoco. O nosso Edvaldo não é exceção. Para dar conta de tudo o que lhe cabe fazer, ele não tem alternativa a não ser chegar bem cedo e sair bem tarde – isso para realizar exclusivamente as suas tarefas normais.

Imagine então, fiel leitor, o Edvaldo diante da pergunta 7.1. Ele concorda com a primeira parte (chega cedo), concorda com a segunda (fica até tarde), mas discorda da terceira (faz apenas o que é necessário – nada mais). Como é que ele deve responder?

Não sabe? Então pergunte a quem redigiu a pergunta, pois eu também não sei! Se ele responder “sim”, terá concordado com todo o enunciado da pergunta, o que não retrata o seu caso; se responder “não”, estará negando tudo o que o enunciado aborda, o que tampouco seria correto. E agora?

Agora danou-se! E o problema é o excesso de coisas abordadas ao mesmo tempo na mesma pergunta – problema discutido na Dica nº 5. Melhor teria sido subdividir a pergunta em duas – uma que contemplasse o tempo excessivo passado no trabalho; outra, o volume de trabalho realizado. Eu também mudaria a escala de resposta, de modo a fugir do ambíguo termo “costuma” no enunciado da pergunta. Uma possibilidade de novas redações das perguntas seria:

1ª) Você ultrapassa o horário de expediente no trabalho:

( ) Muito frequentemente / Quase sempre

( ) De vez em quando

( ) Poucas vezes / Raramente

2ª) Algumas pessoas, para atingir um bom resultado na realização do seu trabalho, fazem estritamente o necessário para isso; outras costumam fazer um pouco mais do que o necessário; outras ainda, muito mais do que o necessário. Como você classificaria a forma como trabalha para atingir um bom resultado?

( ) Faz o necessário

( ) Faz um pouco mais do que o necessário

( ) Faz muito mais do que o necessário

Observe, atento leitor, que, assim procedendo, evitamos a sobrecarga de conteúdo da pergunta e ainda conseguimos um pouco mais de informação do respondente, pois ele passa a contar com três opções de resposta em vez das duas que havia na pergunta original.

7.2) Você não consegue delegar tarefas?

( ) Sim

( ) Não

Qual é o problema?

Meu comentário:

Note, amigo leitor, que a pergunta foi formulada na forma negativa – algo equivalente a derramar óleo numa pista de gelo (superfície mais propensa a escorregões, impossível). Vamos lá: como deve ser interpretada a opção de resposta “sim”? Bruno e Élcio são funcionários que conseguem delegar tarefas. Como eles devem assinalar a sua resposta?

Bruno pode pensar: “Sim, eu consigo delegar tarefas”, então vou marcar ‘sim’. Élcio, por sua vez, pensa assim: “A frase não retrata a minha realidade: não é verdade que eu não consigo delegar tarefas, então vou marcar ‘não’”.

Já viu, né, arguto leitor: dois respondentes, com a mesma opinião, respondendo coisas diferentes. Eu é que não queria estar na pele do analista dessa pesquisa! Na hora de tabular os dados, ele vai ter, sem saber, no conjunto de respostas ‘sim’, gente que delega tarefas e gente que não delega. No conjunto dos ‘não’, a mesma coisa. Não dá para se ter uma pergunta dessas num questionário sério, concorda, sensato leitor?

Como corrigir o problema? Simples: basta retirar o ‘não’ da pergunta. Só. (Eu, por mim, mudaria também a escala, isto é, o conjunto de opções de resposta, buscando expandir a gama de situações – por exemplo, tentando especificar casos em que as tarefas seriam delegadas ou não, mas isso é outro assunto. Por ora, prefiro ficar na questão das perguntas formuladas na forma negativa).

Talvez lhe interesse saber, curioso leitor, que a pergunta redigida na forma negativa que acabamos de analisar não foi um acidente de percurso do elaborador do questionário. Dê só uma lida nestas outras, pertencentes ao mesmo questionário:

Você não consegue faltar ao trabalho, mesmo quando está doente?

Não tem hobbies ou vida social?

Não consegue relaxar?

Não consegue diminuir o ritmo de trabalho?

Não é pouca coisa, hein, amigo leitor? Tanta pergunta na negativa assim... chega a ser quase um estilo do redator! Pena que isso tenha gerado um monte de dados sem significado, portanto inúteis.

Querendo ler mais sobre o assunto, pode dar um pulinho na Dica nº 18.

Teste Teste Teste