Pegando carona na onda da versatilidade como atributo valorizado no mercado de trabalho, uma empresa de consultoria em recursos humanos desenvolveu um questionário de 10 perguntas que visa a avaliar a versatilidade dos profissionais. A seguir, destaco e analiso algumas dessas perguntas.

8.1) Para você, promoção é sinônimo de:

a) salário maior, vaga no estacionamento coberto, seguro-saúde padrão executivo e ações da empresa

b) maiores desafios

c) mais trabalho

Qual é o problema?

Meu comentário:

Você certamente se lembra, saudoso leitor, do seu tempo de aluno de escola, não? Havia aqueles professores que, com preguiça de elaborar questões dissertativas, bolavam questões de múltipla escolha, para reduzir o trabalho de correção, não era assim? Só que, por terem pouca inspiração, criatividade ou paciência mesmo, não caprichavam na redação das opções de resposta.

Como aluno, eu passei por isso diversas vezes. E uma das características que me saltavam aos olhos quando lia as opções de resposta era a extensão relativa entre elas. Se houvesse uma opção muito mais longa que as demais, eu desconfiava: ou aquela era a opção correta ou trazia uma casca de banana disfarçada, que deveria ser evitada. Bastava o aluno ter um mínimo conhecimento do assunto da questão para eliminar aquela opção ou suspeitar fortemente de que aquela era a resposta correta.

Vemos algo parecido na opção “a” da pergunta 8.1, acima. Ela é longa e, além de longa, ingênua. Claro que, para muita gente, a ideia de promoção até pode ser algo muito próximo do descrito na opção, mas, honestamente, sensato leitor, você acha que uma pessoa medianamente inteligente assinalaria essa opção, sabendo que está sendo avaliada para uma vaga de emprego?

Ainda que não fosse por uma questão de malícia dos respondentes, a opção poderia ser criticada “tecnicamente”. De fato, a menos que se imagine uma promoção para cargos de elevado status na hierarquia da empresa, a maioria não oferece vagas em estacionamento coberto, seguro-saúde padrão executivo ou o recebimento de ações da companhia. Não oferece, nem os funcionários esperam que a empresa ofereça. Se a intenção da pergunta era discriminar profissionais com diferentes valores ou opiniões acerca do assunto, melhor teria sido redigir a opção “a” de forma menos “bandeirosa” – algo como: “salário e benefícios maiores”. Da forma como foi redigida, a opção “a” parece “pedir” que ninguém a assinale.

 

8.2) O que significa para você ter uma carreira internacional?

a) isso é coisa para jovens iniciantes

b) reconhecimento pelos resultados, independentemente da idade ou do tempo de casa

c) aprendizagem

Qual o problema?

Meu comentário: Só incluí a pergunta nesta seleção para ilustrar o outro lado do que eu acabo de comentar na minha análise da pergunta 8.1. Você já deve ter percebido o comprimento da opção “b”, não? Pois é; temos aqui um excelente exemplo do que não devemos fazer quando redigimos opções de resposta para perguntas de questionários. A diferença de extensão de comprimento da opção “b” para as demais é tão flagrante, que o respondente se sente automaticamente propenso a assinalá-la, o que distorce os resultados.

Talvez lhe interesse saber, comprometido leitor, que, das três opções de resposta apresentadas, a que mais pontos conta na escala que pretende medir a versatilidade do respondente é justamente a “b”. Ou seja: a redação mal ajambrada conduz os indivíduos pesquisados a escolher a opção mais benéfica para eles próprios. Sem comentários...

 

8.3) Se fosse possível resumir numa característica o que um empregado precisa ter para se dar bem no ambiente de trabalho, qual das três você escolheria?

a) liderança

b) capacidade de trabalhar em equipe

c) ética

Qual é o problema?

Meu comentário:

Observe bem a pergunta, dileto leitor. Releia-a, palavra por palavra, com muita atenção. E então: o que me diz? Não sei quanto a você, mas eu não saquei o que eles quiseram dizer com as expressões “se dar bem” e “escolheria”. Tudo depende da forma como eu as “interpretar”.

De fato, eu posso entender a expressão “se dar bem” de uma forma “pura”, como “ser bem-sucedido profissionalmente”. Posso também entender a frase “que característica você escolheria” como a característica que eu mais valorizo, a que é mais importante para mim. Nesse caso, eu não pestanejaria em responder a letra “c”. Para mim, muito antes das características de um bom profissional (como liderança, trabalho em equipe ou o que seja), estão as características morais do indivíduo. E, nessa escala de valores, a ética deve estar na base de tudo.

OK, mas eu também posso “interpretar” as duas expressões de outro modo: “Se dar bem” tem uma conotação negativa, que subentende a consecução de vantagens individuais mediante algum tipo de esperteza, truque, malícia, prejuízo dos demais, etc. E a palavra “escolher”? Bem, essa não traz uma conotação negativa embutida em si, mas permite um entendimento diverso do anterior. Eu poderia, por exemplo, entender que estivessem querendo saber que características, na minha opinião, as empresas estão valorizando hoje – independentemente daquelas que eu valorizo. Nesse caso, a coisa mudaria completamente de figura! O que eu tenho visto ou ouvido falar de gente que puxa o tapete dos colegas, engana os clientes, passa a perna nos fornecedores, etc... Eu diria que, muitas vezes, a ética é o que menos tem contado em alguns ambientes de trabalho. Nesse caso, a minha resposta poderia ser qualquer uma... diferente da “c”!

E aí, como ficamos, fiel leitor? Dependendo da forma como eu interpreto a pergunta, eu assinalo uma opção de resposta com convicção ou a descarto de cara! Pode uma coisa dessas? Claro que não! E o que gerou esse problema? Uma péssima redação da pergunta. Num questionário de qualidade, é inaceitável a existência de perguntas como a que estamos estudando.

Eu abordei essas questões em pelo menos dois lugares: no Fique Esperto nº 2, eu fazia um alerta para o risco que era o respondente dar às perguntas um sentido diferente daquele pretendido pelos responsáveis pela pesquisa; na Dica nº 24, eu chamei a atenção para os problemas decorrentes do emprego de palavras ambíguas em questionários. Os exemplos que eu escolhi para ilustrar a questão parecem “brincadeiras de criança” diante dos que acabamos de analisar! Será que os responsáveis por redigir as perguntas do questionário chegaram a fazer o obrigatório pré-teste do instrumento, tal como eu recomendo na Dica Especial? Tenho cá as minhas dúvidas...

 

8.4) A maior parte das suas promoções ocorreu:

a) ao mudar de empresa

b) por reconhecimento na própria empresa

c) com a saída do seu antecessor

Qual o problema?

Meu comentário:

Quantas vezes você já foi promovido, competente leitor? Dez? Vinte? Espero que sim, caso contrário você terá alguma dificuldade de responder à pergunta, não acha? Realmente: imagine o Décio, que recebeu quatro promoções até hoje – uma quando assumiu o lugar de um empregado antigo que se aposentou; outra quando mudou de emprego; as outras duas por reconhecimento na própria empresa. Muito provavelmente ele irá marcar a opção “b”, concorda? Agora, cá para nós: considerar a quantidade “duas” como a maior parte do que quer que seja é meio forçado, não acha? Se você não acha isso, contestador leitor, imagine a Glorinha, promissora profissional que, infelizmente, até hoje não recebeu nenhuma promoção. Como é que ela poderá responder à pergunta? Não poderá! E por quê?

Porque a pergunta encerra o erro que eu apontei na Dica nº 14! Ela faz uma premissa acerca dos respondentes (no caso, a premissa de que todos já receberam promoções, e as receberam um número de vezes tal, que é possível falar-se em “maioria das vezes”). Não entre nessa ao fazer os seus questionários, combinado, prudente leitor?

 

8.5) Que termo você usaria para associar a seu trabalho?

a) paixão

b) stress

c) conforto

Qual é o problema?

Meu comentário:

Dario sente orgulho pelo trabalho que faz; Dora, desprezo pelo seu; Fábio julga o seu desafiador; Márcio se sente enxugando gelo na empresa; Tânia sente-se subaproveitada; Sérgio não vê diferença entre o seu trabalho e o de um carimbador de cartório.

Por que estou dizendo isso tudo, intrigado leitor? Porque pretendia dar alguns exemplos de pessoas que julgam o seu trabalho de formas muito mais variadas do que os escassos substantivos “paixão”, “stress” e “conforto”. Com isso, quero dizer que qualquer pessoa que associe o seu trabalho a algo diferente desses três conceitos não terá o que responder à pergunta! E se a pergunta não for respondida pela maioria, qual a sua utilidade?

 

Você, interessado leitor, certamente vai gostar de conhecer outra pergunta do mesmo questionário. Veja só:

8.6) Qual é a maior contribuição que você dá à empresa?

a) Como especialista de primeira linha

b) Como empreendedor

c) Como líder educador

O que é que você percebe nessa pergunta, atento leitor? Isso mesmo: o mesmo problema de falta de cobertura das respostas possíveis. O que poderão responder os funcionários que não se enquadrarem em nenhuma das três possibilidades? Nada!

Na Dica nº 20, vimos o problema de se apresentar um conjunto de opções de resposta que não cobre todo o universo possível. No caso que estamos analisando aqui, o problema é ainda maior, pois são diversas as respostas possíveis que não constam da parca relação oferecida ao respondente. Ao que tudo indica, a consultoria de RH que preparou este questionário acabou sem muita informação útil...

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