As palavrinhas “ou não”, ao final de uma frase, podem indicar muito claramente a alternativa ao que foi escrito antes. Ou não. Depende da frase. Vejamos um exemplo:

“Você tem planos de comprar uma TV com acesso à internet nos próximos seis meses, ou não?”

É claro que, como sempre, teríamos que pré-testar o entendimento da pergunta pelo público-alvo da pesquisa (ver Dica Especial), mas, a princípio, não há por que julgar que a pergunta possa suscitar confusão. Se o respondente estiver cogitando comprar a tal TV no horizonte de tempo especificado, ele deverá responder “sim”; caso não esteja planejando essa compra ou até esteja, mas não nesse período, deverá responder “não”.

Mas nem sempre a coisa é tão simples assim, quando usamos a expressão “ou não”. A situação (fictícia) descrita a seguir é um bom exemplo. Imagine que a diretoria de uma escola, após diversos problemas com atrasos injustificados de alunos, decidiu punir, com suspensão, os alunos classificados como recalcitrantes, isto é, aqueles que continuavam a chegar atrasados à escola, mesmo após três registros mensais na caderneta escolar. A medida foi considerada exagerada por alguns pais, e a escola decidiu fazer uma pesquisa para avaliar a receptividade geral. Imagine que uma das perguntas do questionário tenha sido esta:

“Você acha correto a Escola suspender os alunos recalcitrantes, ou não?”

E aí, atento leitor: é o mesmo caso da pergunta anterior, sobre a TV? Bem, para alguns respondentes, até pode ser; já para outros... eu não poria a minha mão no fogo.

Por quê?

Vamos lá: você está cansado de saber que há duas formas de se “entoar” frases interrogativas, certo? Uma delas se caracteriza pela elevação do tom da voz no final da frase. É o caso de “Você vai à festa?”; ”João ainda não chegou?”; “A Glauce já despachou o relatório?” Por outo lado, há perguntas em que o tom da voz abaixa no fim. Exemplos: “A que horas eles ficaram de chegar?”; “Quem disse isso?”; “Qual a diferença entre estas duas situações?” Em ambos os casos temos perguntas, e em ambos os casos essas perguntas são retratadas por pontos-de-interrogação. Mas o leitor, com a sua experiência, as entona de forma diferente, conforme o caso.

O problema surge com perguntas que poderiam suscitar duas entonações diferentes – com final elevado ou rebaixado – pois isso tem o potencial de gerar confusão na leitura. Faça o teste com a pergunta do exemplo da pesquisa da escola, lendo-a em voz alta, com duas entonações diferentes.

Primeiro, leia-a abaixando o tom da sua voz na expressão “ou não”. Qual o sentido da pergunta? Ela deseja saber se os respondentes acham correto, ou não, a escola suspender os recalcitrantes, concorda? Era exatamente isso o que a Escola queria saber. Agora leia a frase de novo, elevando a voz no fim. Que sentido a pergunta assume?

Ele muda completamente! Agora, o que se estaria perguntando é se os respondentes acham correto a Escola suspender alunos – sejam eles recalcitrantes ou não-recalcitrantes!

Percebeu a encrenca? Quem entendesse a pergunta de um jeito, responderia de um jeito; quem entendesse de outro, responderia do outro. E a Escola: o que faria com os resultados? Talvez, a melhor coisa fosse jogar tudo no lixo!

Você, rigoroso leitor, pode estar pensando: “Ah, isso é um preciosismo; esse problema se corrige com a pontuação correta das frases!”. Em teoria, ilustrado leitor, você pode estar certo. Mas quem lhe garante que a pessoa que vai ler é tão fera quanto você em sinais de pontuação? Se quiser um conselho amigo, tome lá: não conte com isso!!!!!

Assim, só nos resta a solidariedade: pobre redator de questionários! Quando deixa de apresentar a cláusula alternativa na pergunta, incorre no erro de incentivar o fornecimento de respostas alinhadas com o texto explicitado na pergunta (ver Dica nº 31); quando, para evitar esse problema, acrescenta a expressão “ou não”, corre o risco de se tornar ambíguo e provocar erros de entendimento da pergunta.

Lição que fica: Não é um pecado capital utilizar a expressão “ou não” ao final das suas perguntas, virtuoso leitor, mas explore isso muito bem na fase de pré-teste do questionário. Feito o teste, use-a. Ou não.

Teste Teste Teste