É comum ouvirmos por aí broncas do tipo “Toma um partido, cara! Sai de cima desse muro, pô!” Da mesma forma que, no “mundo lá fora”, há gente impaciente e até mesmo revoltada com quem não se posiciona com firmeza e imediatismo sobre determinados assuntos, também a área de pesquisa nos oferece umas figuras esquentadinhas. Alguns deles são redatores de questionários e dizem: “Comigo, ninguém fica em cima do muro! É acha ou não acha; pró ou contra; concorda ou discorda”.

Entendemos a posição desses nossos colegas: há inúmeros casos de pesquisas em que a maior parte dos respondentes optou pela opção neutra de resposta (ou pela opção “não sei”). Se o objetivo das pesquisas era avaliar a inclinação – ou tendência – do público numa ou noutra direção, adeus, pesquisa!

Vamos examinar esse assunto um pouco mais de perto. Comecemos com o exemplo do clube de futebol XYZ, que teve um mau desempenho no ano passado. Em busca de reforços para o time, o clube acaba de contratar um grupo de jogadores de qualidade discutível e comportamento polêmico. Agora deseja avaliar a reação dos seus torcedores com as aquisições. Para tanto, passa um questionário com a seguinte pergunta:

“Você acha que, com as novas contratações, o XYZ vai ter um desempenho
melhor ou pior do que teve no Campeonato Brasileiro do ano passado?”

Para não ficar nas alternativas de resposta “melhor” e “pior”, o redator da pergunta sabiamente incluiu a opção intermediária “mais ou menos igual”, mesmo que a pergunta não tenha explicitado essa opção. Afinal, trata-se de uma resposta absolutamente cabível, e não seria inteligente sonegá-la aos respondentes, que poderiam creditar o mau desempenho do time a vários outros fatores, que não os jogadores que integravam a equipe.

A questão que surge é: uma vez que uma terceira possibilidade aparece nas opções de resposta, não seria o caso de explicitá-la na pergunta? Essa dúvida é totalmente procedente – já há até uma de nossas dicas a respeito (veja Dica nº 31). Vamos ver como ficaria o enunciado da pergunta nesse caso.

“Você acha que, com as novas contratações, o XYZ vai ter um desempenho melhor, pior ou
mais ou menos igual ao que teve no Campeonato Brasileiro do ano passado?”

Em tese, essa formulação é melhor do que a anterior, pois explicita para o respondente as opções de resposta que ele tem. O problema é que essa forma de formular perguntas, explicitando a opção neutra, provoca... um aumento de respostas correspondentes à opção neutra! Primeiro, porque é mais, sei lá, cômodo ou seguro a pessoa não se comprometer ao responder; segundo porque a mera enunciação da opção neutra atrai a atenção do respondente para ela. Ou seja, corre-se o risco de que, com a explicitação da opção neutra, pouca gente, além dos muito convictos ou muito exaltados, escolha as opções extremas.

E aí, o que fazer?

Resposta: Depende do objetivo da pergunta. Se a intenção é avaliar a inclinação do público (sobretudo em questões de natureza controversa ou moralmente delicada, como concessão de benefícios governamentais dados a camadas desfavorecidas da população, aplicação da pena de morte, descriminalização do aborto, etc.), não explicite a opção do meio-termo; já se a intenção é captar convicções bem definidas sobre o assunto pesquisado é melhor explicitá-la. Em qualquer dos casos, porém, não deixe de oferecer a opção neutra como uma possibilidade de resposta. As pessoas às vezes assumem uma postura de neutralidade não porque “só querem ficar em cima do muro”, mas porque não têm, de fato, uma inclinação para este ou aquele lado de uma questão. Vamos respeitar essa postura. É um direito delas.

Teste Teste Teste