“Você confia no atual Congresso Nacional ou acha que seria melhor extingui-lo?”

Opa!!!!! E aí, chocado leitor: o que você acha da pergunta acima? Não, não estou pedindo a sua opinião sobre os nobres deputados e senadores da República; queria saber apenas o que você tem a dizer a respeito da estrutura da pergunta, isto é, da forma como foi redigida.

Se você observar bem, verá que ela tem o jeitão de muitas perguntas que a gente vê por aí, sobretudo em sondagens-relâmpago feitas por jornais. Problemática? Sim, muito. Ela sofre de um mal chamado de miscellanea fructa (brincadeirinha: acabo de inventar a expressão). Miscellanea fructa seria um bom nome a dar às perguntas que misturam bananas com laranjas. E a pergunta que encabeça esta dica é um bom exemplo.

Veja só: uma coisa é o indivíduo confiar ou não confiar no Congresso; outra coisa, completamente diferente, é seu desejo de ver as casas do Órgão Legislativo fechadas. De fato, é perfeitamente possível que muitas pessoas não confiem nem um pouco nos deputados e senadores e que, ao mesmo tempo, não queiram nem ouvir falar em nada que lembre o fechamento do Congresso.

Qual é, então, o problema da pergunta? O problema é usar a estrutura “A ou B”, sendo que A e B não são complementares. Uma característica muito comum nesse tipo de perguntas é o desequilíbrio entre as alternativas apresentadas: muitas vezes, uma tem redação moderada; a outra, radical.

Bem, como, então, a pergunta poderia ser reescrita? Uma possibilidade seria:

“Você confia ou não confia no atual Congresso Nacional?”

A redação acima nem é a ideal (veja a Dica 33, sobre escalas dicotômicas e multicotômicas), mas já seria bem melhor do que a pavorosa versão original.

Outros exemplos do que eu chamei de miscellanea fructa:

“Você acha que o time X foi beneficiado no Tapetão ou ele mereceu permanecer na Série A do Brasileirão?”

 

“Você acha que a polícia deveria acompanhar de perto as grandes manifestações de rua ou todo tipo de repressão deveria ser proibido?”

 

“Você concorda com a adoção de crianças por casais homossexuais ou entende que isso pode trazer danos psicológicos irreversíveis para elas?”

Fuja desse tipo de aberrações, consciencioso leitor. Pode ser que uma rápida leitura de perguntas de um questionário não seja suficiente para se descobrir um bom redator de questões, mas reconhecer um mau redator não é muito difícil.

Teste Teste Teste