Toda vez em que a gente fala em “uma coisa ou outra” está indicando uma oposição, concorda? “Você vai à praia ou ao clube?”; “Você prefere cidade de praia ou de serra?”; “O que você acha mais adequado para a nossa comemoração: churrasco ou feijoada?”

Nesses casos, ou bem se escolhe uma alternativa ou se escolhe a outra (ou nenhuma das duas, claro). O que eu quero dizer é que não dá é para pensar nas duas ao mesmo tempo, certo? Isso configuraria um erro de lógica. Que dizer, então, de perguntas em que uma das alternativas abrange a outra?

Mas existe isso? Ah, existe! Veja a frase abaixo, dirigida aos pais de alunos matriculados numa escola.

“De modo geral, você está satisfeito com a escola do seu filho ou acha que
ela poderia melhorar?”

Ih, danou-se! Ô Otacílio, você, que redigiu essa pergunta, me diga aqui: não seria possível a pessoa gostar da escola e, não obstante, achar que ela poderia melhorar num ponto ou noutro?

Claro que sim! Observe, atento leitor, que este caso é parecido com o que abordamos na Dica nº 35, que tratava de alternativas que não se complementam. Este aqui é um caso particular, em que uma das alternativas compreende a outra.

Imagine como seria responder a essa pergunta. Mesmo os pais satisfeitos com a escola, na hora em que vissem a “alternativa” que menciona espaço para melhorias, tenderiam a optar por ela, não acha? Bem, talvez não fizessem isso se entendessem que a escola é perfeita, sem falhas, sem nenhuma oportunidade de melhoria, etc. Mas será que existe uma escola assim? Será que existe alguma instituição perfeita? Bem, qual seria o final da história? Na hora de tabular os resultados, o analista muito provavelmente encontraria uma enxurrada de respostas “acho que ela poderia melhorar”. E que nome bonito nós poderíamos dar a esse resultado? Isso mesmo: lixo!

Pois é: uma pesquisa gerando lixo como produto, graças a uma pergunta mal formulada. Haveria diversas maneiras de evitar esse problema. Uma possibilidade seria subdividir a pergunta em duas. Na primeira seria pedido o nível de satisfação geral dos pais com a escola – fosse com base numa escala numérica qualquer (por exemplo, de 0 a 10), fosse com base em uma escala semântica (com pontos extremos “muito insatisfeito” e “muito satisfeito”, por exemplo). Uma segunda pergunta pediria sugestões de melhoria. Simples, correto e inteligente.

Teste Teste Teste