Há uma questão efervescente, que mobiliza os empregados de várias empresas: o(s) critério(s) adotado(s) para a concessão de promoções e aumentos salariais. Tome a empresa Unethical Ltd. (fictícia) para exemplo. Imagine uma pesquisa, realizada com os empregados dessa empresa, em que conste a seguinte pergunta:

“Na Unethical, a maior parte dos aumentos salariais dos empregados baseia-se
no seu mérito ou no seu tempo de casa?”

À primeira vista, essa é uma pergunta perfeitamente passível de ser construída na forma de “isto ou aquilo”, na medida em que aborda os dois lados de interesse da questão.

Pois é... isso é o que pensa quem não conhece a empresa a fundo. Se conhecesse, se tivesse conversado com seus empregados antes de formular as perguntas do questionário, saberia de coisas que fariam corar até o diabo: muitos aumentos e promoções são concedidos de forma arbitrária, segundo o favoritismo dos gerentes; outros gerentes são sensíveis a demandas individuais dos seus funcionários, de modo que mama mais quem chora mais; em várias áreas, a verba destinada a aumento salarial é igualmente distribuída aos membros das equipes, independentemente de qualquer critério; há casos em que os empregados contemplados com aumentos são indicados pela diretoria; e assim por diante.

Visto isso, responda, sincero leitor: trata-se, realmente, de uma questão com apenas dois lados? Não mesmo! Poxa vida, mas era do interesse do cliente da pesquisa conhecer a percepção dos empregados especificamente quanto à questão do mérito versus tempo de casa – era importante, para a diretoria, conhecer essa visão. Não haveria um jeito de reformular a pergunta na forma de “isto ou aquilo”?

Há, sim, mas é necessário tomar alguns cuidados. Um deles é realçar, na redação da pergunta, que se trata de uma comparação entre duas situações, dois elementos, dois nomes. Por exemplo:

“Entre mérito e tempo de casa, qual desses critérios você diria que é mais comum, como
base para a concessão de aumentos salariais pela Unethical?”

É mais ou menos o que se faz em pesquisas eleitorais, quando se apresentam ao eleitor possíveis cenários para um segundo turno. Nesses casos, é pedido ao respondente que escolha A ou B, mesmo que o seu candidato preferido não seja nenhum dos dois.

Outra possibilidade seria isolar quaisquer outros fatores intervenientes. Por exemplo:

“Salvo outros critérios para concessão de aumentos salariais, qual você acha que é
mais praticado na Unethical: mérito ou tempo de casa?”

Há, ainda, a possibilidade de sugerir argumentos, pontos de vista, etc. referenciados ou proferidos por terceiros – reais ou fictícios. Empregando esse artifício no nosso exemplo, a pergunta poderia ficar mais ou menos assim:

“Há empresas em que os aumentos salariais concedidos aos empregados
baseiam-se mais no mérito do que no tempo de casa dos empregados
contemplados. Há outras empresas em que se dá o oposto. Considerando
esses dois grupos de empresas, em qual você enquadraria a Unethical?”

Qualquer um desses recursos é recomendável para se contornar o estranhamento dos respondentes diante de uma necessidade de escolha de uma de duas alternativas, quando para ele é claro que há mais questões em jogo.

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