Esta dica se refere a pesquisas feitas por meio de entrevistadores, que leem as perguntas para os entrevistados.

É comum encontrarmos, em questionários de pesquisa, perguntas do tipo “Dentre as opções que eu vou ler para o(a) senhor(a), qual(is) a(s) que melhor exprime(m)...”. Quando as perguntas têm cerca de meia-dúzia de opções de respostas, tudo bem orientar os entrevistadores a ler as opções logo após a pergunta. Mas e se as opções forem 20? Não parece razoável que eles leiam a montanha de opções, concorda? Ninguém consegue guardar na memória tantas possibilidades. Acaba acontecendo o problema que muitos estudiosos de pesquisa já apontaram: as últimas opções lidas são as mais respondidas. E não porque sejam, necessariamente, as que melhor traduzem a opinião das pessoas, mas porque é assim que funciona a memória auditiva – retém-se melhor o que se ouviu por último (ver Fique Esperto nº 8).

Nesses casos, os pesquisadores costumam empregar cartões de resposta, que nada mais são do que folhas de papel com o registro escrito das opções. A pergunta feita pelo entrevistador é ligeiramente modificada para algo como “Dentre as opções apresentadas neste cartão, qual(is) a(s) que melhor exprime(m)...”. Se o entrevistado não for míope ou analfabeto, tudo bem.

Hmmm... será que tudo bem mesmo?

Bem, infelizmente não. Isso porque, vendo uma lista grande de opções, os respondentes tendem a ler as primeiras e, no máximo passar os olhos pelas demais – o que causa o problema inverso: as primeiras opções são as mais respondidas!

Parece um beco-sem-saída, não parece? Bem, a boa notícia é que não é. Existe um recurso precioso, chamado rodízio. Como funciona? Antes de a equipe de entrevistadores sair a campo, você confecciona diversas versões de cartões com as mesmas opções de resposta. A única diferença entre eles é a ordem dessas opções. A que aparece em primeiro lugar num dos cartões, aparecerá em 16º em outro, e em 9º num terceiro. A que constava em segundo lugar num cartão vai ficar em 12º num outro e em 19º num terceiro. E por aí vai. Dependendo da quantidade de entrevistadores na sua equipe de campo, cada um pode portar duas ou três versões desses cartões e apresentar um diferente a cada entrevista. Espera-se, com isso, que todas as opções sejam lidas mais ou menos igualmente pelos indivíduos pesquisados.

É bem verdade que essa solução não é tão eficaz quanto o rodízio de opções feito em questionários administrados por computador. Nesses casos, o programador do questionário determina um rodízio aleatório das opções, de modo que cada entrevistado vê uma ordenação diferente. Nos cartões em papel não se espera – nem se pretende – um preciosismo tão grande. A variedade de versões é certamente bem menor, mas trata-se de um risco calculado pelo responsável pela pesquisa: ele pode não ter o melhor dos mundos, mas com certeza terá um mundo bem melhor do que o que teria caso apresentasse sempre o mesmo cartão de respostas para todos os entrevistados.

Uma palavrinha final: o amigo leitor, sempre atento e questionador, poderia perguntar: “Nesses casos de grande variedade de opções de resposta, por que não simplesmente fazer perguntas abertas e deixar os entrevistados responderem espontaneamente o que lhe vier à cabeça?”.

A pergunta é boa. Já tratamos do assunto na Dica nº 28, mas não custa reforçar alguns pontos aqui. Sem dúvida, questões abertas propiciam o surgimento de respostas espontâneas e são importantíssimas nesse sentido. É bem verdade que dão uma trabalheira do cão para ter suas respostas tabuladas, mas para isso existem seres nascidos para sofrer, que em geral atendem pelo nome de “estagiários”. Ocorre que, muitas vezes, o elaborador do questionário precisa saber como o público entrevistado se posiciona diante de uma série de questões. Não é raro ele fazer as duas perguntas – uma seguidinha à outra: a aberta capta as respostas espontâneas, e a fechada permite conhecer as tais posições sobre itens particulares. Se ele se limitasse a fazer a pergunta aberta, poderia ficar a ver navios, pois em geral as opções menos comuns – ainda que importantes – não são abordadas por nenhum respondente!

A título de exemplo, vale relatar um caso de uma pesquisa de que participei. Era nosso interesse saber que medidas os entrevistados tomavam com o objetivo de reduzir o desperdício de energia elétrica em suas casas. Nós lançamos mão do recurso de fazer primeiro a pergunta aberta e, só depois, apresentar um cartão com diversas medidas possíveis. As respostas à pergunta aberta foram, até certo ponto, esperadas: as pessoas falavam em apagar as luzes quando saíam de um aposento, aproveitar a iluminação natural sempre que possível, não deixar a porta da geladeira muito tempo aberta, etc.

No entanto, no cartão que apresentávamos aos entrevistados havia uma vasta série de medidas – desde as mais evidentes até outras bem mais sutis (algumas até desconhecidas da maioria) –, como, por exemplo, programar o uso racional do ferro de passar, de modo a se aproveitar o período de início de aquecimento para passar algumas roupas mais leves e fáceis de passar; o de pleno aquecimento para roupas mais pesadas / difíceis; e desligá-lo no auge do aquecimento, aproveitando o tempo de desaquecimento para passar outras roupas leves e fáceis, já separadas desde o início.

É claro que várias das medidas apresentadas, não apontadas na primeira resposta, foram assinaladas pelos respondentes ao serem a elas expostos. Isso era mais do que esperado (é conhecida a autoindulgência dos respondentes ao responderem sobre si – sempre supervalorizando as boas ações e escamoteando as más). Mas as respostas nos proporcionaram uma visão geral dos hábitos das pessoas, ainda que um tanto edulcorados.

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