Não é raro encontrarmos perguntas, em questionários de pesquisa, com redações como as seguintes:

“Qual dos seguintes fatores...”

 

“Das explicações a seguir, qual é a que mais se aproxima...”

 

“Qual é o principal motivo...”

 

“Qual é a primeira coisa que vem à sua mente...”

Nesses casos, fica evidente que o cliente da pesquisa deseja receber uma única resposta de cada indivíduo pesquisado.

Será que ele consegue isso?

Bem, dependendo de certos fatores, sim. Por exemplo, se o questionário for aplicado por meio de um sistema computadorizado, programado para aceitar uma e somente uma resposta para a pergunta, aí sim: o respondente só assinalará uma única resposta (até porque, se ele quiser clicar em outra opção, o programa a aceitará, mas cancelará a seleção anterior).

Outra forma de se “garantir” uma única resposta para uma questão se dá quando o questionário é aplicado por um entrevistador treinado. O respondente, embora avisado de que só deve dar uma resposta à pergunta, dá duas, três ou quatro. O entrevistador o lembra de que só pode dar uma. O respondente reafirma que todas as respostas que deu são válidas e igualmente importantes. O entrevistador insiste mais uma vez. O cliente xinga a mãe do entrevistador, mas acaba escolhendo uma.

Não, amigo leitor, não é necessário chegarmos a esse ponto. Criado o impasse, o entrevistador treinado anota a primeira resposta dada pelo respondente e segue em frente. É bom isso?

Não, não é bom; o respondente está tentando dizer alguma coisa e o organizador da pesquisa não quer ouvir. Mas o que fazer, se se trata de uma daquelas perguntas de top of mind, em que se deseja saber a primeira marca ou nome que vem à lembrança? “Qual é a melhor cidade de praia que você conhece?” (E o respondente julga que são Búzios e Salvador, empatadas). “Qual é, na sua opinião, o maior escritor de língua portuguesa?” (E o respondente fica entre Machado de Assis e Eça de Queirós). “Qual é o senador mais safado do Congresso Nacional?” (E o respondente não consegue se decidir entre... ah, deixa pra lá).

Mas e quando se trata do chamado questionário autoadministrado, em que o próprio respondente registra as suas respostas num questionário impresso? Adianta você dizer que ele deve dar uma e somente uma resposta? Bem, para alguns, mais comportadinhos, até adianta; já para outros... Tem respondente que parece animal no cio: não se segura de jeito nenhum! E aí: o que você vai fazer quando receber as respostas? Você esperava 200 respostas, de 200 pessoas, e recebeu 250!

Bem, atônito leitor, você não vai fazer nada. Vai, sim, é admitir que terá que conviver com certa falta de comparabilidade entre as respostas. Por quê? Porque da mesma forma que alguns (o seriam vários?) respondentes desobedeceram a sua orientação e lhe deram mais de uma resposta, outros (vários?) possivelmente gostariam de ter dado mais de uma resposta, mas se conformaram com o limite que você estabeleceu e cortaram a(s) outra(s) a contragosto. Ou seja: nem todo o material que você tem em mãos é, de fato, a primeiríssima escolha das pessoas consultadas.

Portanto, pense bem antes de obrigar o seu público a responder conforme você quer, se isso colide com a forma como o ele quer. Quem se mete a domar cavalos bravios arrisca tomar muito coice...

Teste Teste Teste