Você já deve ter visto várias questões de pesquisa cujas opções de resposta constituem uma escala de concordância, do tipo “Concordo totalmente”, “Concordo em grande parte”, “Não concordo nem discordo”, etc. Se não viu na prática, deve tê-las visto aqui mesmo no blog, em algumas das dicas, especialmente a de nº 30. Essa escala, que herdou o nome de seu criador, Likert, apresenta uma série de vantagens, notadamente por sua simplicidade e flexibilidade.

O fato de ela ser empregada com frequência em vários campos do saber não desobriga o desenvolvedor de questionários de tomar alguns cuidados específicos. Um deles é o de evitar, na redação das questões, o emprego de termos “absolutos”, como “sempre” e “nunca” ou comparativos, como “melhor” ou “pior”. Vejamos, nesta Dica, um exemplo do uso de “sempre”.

Considere a seguinte questão (ou item de Likert):

“Pessoas pegas furtando deveriam sempre ir para a cadeia”

É bem possível que surjam as mais diferentes respostas a essa pergunta, mas convido você, cuidadoso leitor, a examinar uma delas em particular: a resposta “Discordo totalmente”. Diga lá: quem responder isso estará discordando do quê, exatamente?

Esse questionamento se justifica, pois existem duas interpretações possíveis. Leia abaixo a opinião de duas pessoas a respeito.

1ª) A Margarete entende que cadeia é uma coisa muito séria e que só deveria ser o destino de quem pratica crimes violentos, como assassinato, estupro, sequestro, tortura, etc. Embora não ache que pessoas que furtam bens de outras sejam santas, ela julga que a simples estada de um indivíduo na prisão, por menor tempo que seja, acaba por fazer dele um sujeito violento – coisa que não era antes. Ou seja: a prisão teria o efeito contrário ao pretendido; o cara sai pior do que entrou. No seu entender, portanto, quem rouba sem praticar violência jamais deveria ir para a cadeia. Assim, ela discorda da afirmativa.

2ª) Antônio entende que há furtos e furtos, e que é um erro considerar todos eles como uma coisa só. Ele raciocina: se furto é a subtração de um bem de outra pessoa sem que essa pessoa perceba, então tanto um pobre-coitado que pega um saco de biscoito num supermercado, quanto o mão-leve que afana o laptop de um executivo distraído num hotel, quanto um grupo de ladrões profissionais que invadem um banco à noite e roubam milhões estariam cometendo furtos. E ele acha um absurdo que todos eles sejam igualmente chamados de ladrões. Diferentemente da Margarete, o Antônio acredita que os ladrões deveriam ir para a cadeia, sim, mas só os ladrões “dignos desse nome” (no caso, segundo o Antônio, os que assaltaram o banco, mas não o “rapaz dos biscoitos”). Assim, ele também discorda da afirmativa.

Bem, o que temos então? Duas linhas de pensamento distintas (devem x não devem ir para a cadeia) e a mesma resposta (discordo totalmente). Como é que você acha que fica a vida de quem for analisar as respostas? Complicada, né?

Bem, qual é o problema?

É o uso da palavra “sempre” na redação de uma questão que tem, como opções de resposta, categorias de uma escala de concordância. De fato, se examinarmos o problema com atenção, vamos observar que a Margarete e o Antônio estão discordando de coisas diferentes! Ela discorda da política de se encarcerarem os autores de qualquer tipo de furto; ele discorda da palavra “sempre”. Uma escala como a de Likert se propõe a avaliar o grau de concordância ou de discordância de uma ideia, e não a medir uma quantidade ou uma “variável oculta”. Introduzindo palavras como “sempre” ou “nunca”, o pesquisador transgride essa característica da escala. Um competente redator de perguntas de questionários de pesquisa não pode deixar que isso aconteça.

Aí você, meticuloso leitor, perguntará? “Mas como corrigir isso? Será que, simplesmente eliminando a palavra “sempre” da frase acima, eu saberei discriminar as opiniões de quem pensa como a Margarete e o Antônio?”.

Vamos ver. Primeiro, vejamos como ficaria a frase sem a palavra “sempre”.

“Pessoas pegas furtando deveriam ir para a cadeia”

Como será que responderia a Margarete agora? Bem, ela é contrária a todo e qualquer tipo de prisão em caso de furtos, certo? Então, o provável é que ela continue respondendo “discordo totalmente”. Realmente, se ela acha que pessoas que furtam coisas nunca deveriam ir presas, tanto faz a pergunta conter ou não a palavra “sempre”, que ela continuará discordando da ideia, concorda?

E o Antônio? Bem, esse relativiza. Para ele, alguns praticantes de furtos deveriam ir presos e outros não. Como será que ele responderia à nova questão? Não é possível garantir, mas provavelmente ele escolheria uma das opções intermediárias, ou seja, “Discordo em parte”, “Não concordo nem discordo” ou “Concordo em parte”. Seria muito improvável que ele continuasse respondendo “Discordo totalmente”, como no primeiro caso, pois o que basicamente causava a sua discordância era a palavra “sempre”... que foi eliminada da questão.

Agora posso responder à sua pergunta, amigo leitor. Eliminando a palavra “sempre”, será possível discriminar as posições da Margarete e do Antônio? Bem, se você se refere a saber exatamente o que cada um deles pensa a respeito, somente pela opção onde marcam o “x”, a resposta é não. Se quiser conhecer detalhes das opiniões do público pesquisado, você terá que prever uma pergunta específica sobre o assunto. Mas se, para o objetivo da sua pesquisa, isso não for necessário, com a simples eliminação do “sempre” você se livrou de um problemão: o de jogar, num mesmo saco, pessoas tão diferentes como a Margarete e o Antônio, da mesma forma com que o furto de um pacote de biscoitos de R$5,00 poderia ser equiparado a um de alguns milhões de reais.

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