Na Dica nº 40, vimos o problema da associação de palavras como “sempre” e “nunca” com escalas de Likert. Vejamos agora como fica o uso desse tipo e escala com palavras comparativas, como “melhor” ou “pior”. Imagine a seguinte pergunta de uma pesquisa:

“Escolas bem posicionadas no ranking do Enem têm melhor qualidade de ensino”.

Como no exemplo anterior, imagine que, para registrar a sua opinião, o indivíduo pesquisado conte com as seguintes opções de resposta: “Discordo totalmente”, “Discordo em parte”, “Não concordo nem discordo”, “Concordo em parte” e “Concordo totalmente”.

Imagine que o Márcio tenha assinalado sua total discordância. O que você pode concluir? Que ele acha o exato oposto, isto é, que as escolas bem posicionadas no Enem oferecem uma pior qualidade de ensino?

Bem, amigo leitor, ele até pode pensar isso, mas não dá para garantir. Até porque é possível encontrar outros respondentes que, como o Márcio, discordam totalmente da afirmativa, mas por motivos completamente diferentes. Imaginemos dois casos – o do próprio Márcio e o da Valéria.

O Márcio é um crítico ferrenho da postura de algumas escolas frente ao Enem. Ele conhece alguns estabelecimentos que adotam práticas pouco éticas, como a de selecionar os alunos que farão a Prova ou a de adestrar os alunos a resolverem questões feitas nos moldes das de anos anteriores, relegando para um segundo plano os predicados de uma boa educação, como o de ensinar o aluno a raciocinar. Por conta disso, ele chega a se exaltar quando vê amigos seus correndo para matricular os filhos nas escolas mais bem colocadas no ranking do Enem. Para ele, a qualidade do ensino que os alunos vão encontrar nessas escolas não só não é melhor do que em outras não tão bem colocadas, como chega a ser pior, em função do que ele considera uma “busca desenfreada por resultados”.

E a Valéria? Bem, ela até já ouviu falar de distorções praticadas por certas escolas em busca do “sair-se bem na foto do Enem”, mas não crê que a qualidade do ensino chegue a ficar comprometida por causa disso. Na verdade, o que ela acha é que uma boa escola se faz com bons professores, bons alunos e um acompanhamento próximo, por parte dos pais. Assim, ela não vê diferença na qualidade do ensino dos colégios que estão no topo da lista do Enem e os que estão um pouco abaixo. Como a afirmativa da pesquisa perguntava se as escolas mais bem colocadas tinham melhor qualidade de ensino, e a Valéria entende que o Enem pouco efeito exerce na qualidade das escolas, ela respondeu que discordava totalmente.

O que temos agora, amigo leitor? Dois respondentes assinalam a mesma opção de resposta (“discordo totalmente”), mas discordam por motivos diferentes: um acha que a qualidade não se altera; outra está certo de que a qualidade cai! De novo: como fica o analista da pesquisa?

De novo: fica em maus lençóis.

Qual o problema desta vez? A palavrinha “melhor”. Não dá certo combinar termos comparativos no enunciado de questões com opções de resposta expressas em uma escala de concordância, como a de Likert.

Como corrigir o problema? Fácil: mudando o enunciado e a escala. Por exemplo, assim:

“Como você avalia a qualidade do ensino das escolas que ocupam o topo do ranking do Enem, relativamente à das demais?”

             ( ) Muito melhor
             ( ) Melhor
             ( ) Indiferente
             ( ) Pior
             ( ) Muito pior

Observe, fiel leitor: a adjetivação foi toda para as opções de resposta. Márcio poderá assinalar “Muito pior”, enquanto Valéria terá a opção “Indiferente”. E o analista da pesquisa vai poder dormir em paz! Resolvido o problema.

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