É um tremendo clichê dizer que, entre o preto e o branco, existe uma enorme variedade de cinzas. Tudo bem, isso pode até ser um clichê, mas parece que alguns desenvolvedores de questionários de pesquisa precisam ser constantemente lembrados de que o mundo não é feito de extremos. Digo isso, porque às vezes me deparo com perguntas de questionário que apresentam, como opções de resposta, apenas os polos opostos de uma questão.

Lembro-me, por exemplo, de um questionário, desenvolvido numa grande empresa, que continha perguntas como esta:

                                     O (A) Sr.(a) diria que, em relação à [Empresa X], sente:
                                                      ( ) Orgulho
                                                      ( ) Vergonha
                                                      ( ) Indiferença

O que você acha, atento leitor? Não lhe parece que as opções de resposta fornecidas subtraem do respondente o direito de se posicionar em algum ponto intermediário? Apenas a título de exemplo, trago umas informações sobre a tal empresa: ela desenvolveu uma tecnologia de ponta, sem igual no resto do mundo (ou seja: no que diz respeito a tecnologia, havia pelo menos um bom motivo para que ela despertasse orgulho nos respondentes); por outro lado, outras áreas da empresa, como a comercial e a administrativa, tinham uma nefasta fama de improdutivas, mal gerenciadas e até de gestão fraudulenta do dinheiro dos acionistas.

E aí, perplexo leitor? Como poderia responder à pergunta alguém que se orgulhasse de alguns aspectos da empresa e se envergonhasse[1] de outros? Observe que nenhuma das três opções fornecidas junto com a pergunta permite ao respondente expressar o seu verdadeiro sentimento.

Felizmente, são poucos os questionários que ostentam um maniqueísmo tão grande. Nem por isso podemos dizer que estamos livres do problema, que consiste num conjunto de opções de resposta que não cobre o completo escopo da questão. Imagine uma pergunta como a seguinte.

Qual dessas estratégias você acha a mais adequada para o Sindicato dos XXX tratar a questão
do dissídio salarial da classe com o sindicato patronal?

 

( ) Negociar o máximo possível, eventualmente abrindo mão de alguns itens da pauta     de   reivindicações em favor de uma solução satisfatória para ambas as partes

 

 ( ) Não fechar acordo enquanto não forem atendidas todas as reivindicações da classe

 

( ) Convocar uma greve preventiva de 24 horas antes do início das negociações

Que tal, sensato leitor? Uma opção é 100% negociação, tolerância, contemporização; outra opção, 100% intransigência; uma terceira, praticamente uma declaração de guerra. Pergunto: será que só existem essas possibilidades?

Não, né? Faltam os tons de cinza entre o preto e o branco. O que a gente vê no exemplo acima, que apresenta apenas os pontos extremos de uma questão, é o caso particular (mais raro) de um erro mais ou menos comum em questionários de pesquisa: o oferecimento de opções de resposta que não cobrem toda a gama de possibilidades (ou, pelo menos, as possibilidades mais importantes, frequentes, etc.) – assunto abordado na Dica nº 20. Qual o problema disso? Simplesmente que muitos respondentes não terão como responder, já que a sua opinião não aparece retratada em nenhuma das pré-opções de resposta. Responda, então, atilado leitor: qual a qualidade de uma pergunta assim? Não, não é necessário responder.


[1] Não vou entrar aqui em considerações sobre a adequação dos termos escolhidos para opostos no diferencial semântico “orgulho x vergonha”. É claro que isso poderia ser questionado também, mas essa discussão nos desviaria do assunto abordado nesta Dica.

Teste Teste Teste