Considere a seguinte pergunta, estudioso leitor:

Como você avalia o preço do curso XYZ em comparação com os outros cursos de
MBA oferecidos no mercado?

Agora observe atentamente as duas seguintes escalas de respostas para essa pergunta.

Escala A:

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Escala B:

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Qual a diferença? Na Escala A, as opções estão igualmente espaçadas; na Escala B, as três opções centrais estão mais próximas, quase formando um “grupinho” afastado das demais. O que você me diz disso, criterioso leitor? Sendo mais objetivo: você acha que tanto faz apresentar aos respondentes um ou outro formato?

Você respondeu que não, não foi? Eu sabia que você ia acertar na mosca. Realmente, não dá para confiar em que, apesar da idêntica redação das opções de resposta, o respondente iria escolher a mesma opção nas duas escalas.

Quando responde a um questionário autoadministrado (aquele em que o próprio respondente preenche as respostas, sem a presença de um entrevistador à sua frente ou ao telefone), o indivíduo está sujeito a diversos estímulos. O verbal – mais estudado, tanto na literatura quanto nestas Dicas – diz respeito às palavras que ele lê; mas há também uma considerável influência de linguagens não verbais: a numérica, constituída pelos números que acompanham as perguntas e, muitas vezes, as opções de resposta; a simbólica, representada pelas setas que orientam o caminhar do respondente pelo questionário, as “carinhas” que simbolizam graus de satisfação, etc.; e a gráfica, que envolve tamanhos, formas, cores, disposição espacial, etc.

Vamos dar um close neste último tipo de linguagem. Não estarei trazendo nenhuma novidade se disser que um maior tamanho de letra, assim como o emprego de maiúsculas, pode simbolizar maior importância do trecho em destaque; da mesma forma, todos sabem que o emprego da cor vermelha sinaliza algo que requer atenção; e por aí vai. Mas talvez a questão da disposição espacial dos textos no questionário – outro aspecto da linguagem gráfica e igualmente fundamental – não seja tão intuitiva assim.

A diferença entre as Escalas A e B ilustra bem esse ponto. Da forma como foi construída, a Escala A provavelmente será compreendida como uma em que as distâncias entre quaisquer duas categorias consecutivas são iguais. Já a Escala B provavelmente transmitirá uma percepção diferente. Não é improvável que muitos respondentes, ao visualizar essa escala, interpretem as categorias “Pouco abaixo da média” e “Pouco acima da média” como “Muito pouco abaixo da média” e “Muito pouco acima da média”. E isso se daria, evidentemente, pela grande proximidade espacial entre essas categorias e a categoria “Na média”.

Usar espaçamentos variáveis entre as categorias de uma escala é uma prática nada recomendável, pois diferentes respondentes podem interpretá-las de modo diferente. Isso acontecendo, a análise dos dados pode ir para o espaço.

Se a intenção do criador do questionário era oferecer opções bem próximas à categoria central, ele poderia ter lançado mão de outro recurso – por exemplo, uma escala com diversas categorias e nomeação de apenas três delas (as duas extremas e a central) – por exemplo, como mostrado na escala abaixo.

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Mas essa questão da disposição espacial das opções de resposta vai além, e convém que a gente a estude com atenção. Veja, por exemplo, o ilustrativo exemplo a seguir.

Um pesquisador dividiu os alunos de um curso em quatro grandes grupos e submeteu uma pergunta a todos. A pergunta era sempre a mesma (“De modo geral, como você avalia a qualidade do curso XYZ?”); o que mudava era a disposição gráfica das opções de resposta. Cada grupo de alunos recebeu um leiaute diferente de folha de resposta. Veja abaixo os quatro modelos distribuídos aos alunos.

Modelo 1 – Todas as opções numa mesma linha (vertical)

        ( ) Excelente
        ( ) Muito boa
        ( ) Boa
        ( ) Regular
        ( ) Fraca

Modelo 2 – Opções dispostas em três colunas – ordenação vertical

        ( ) Excelente                   ( ) Boa                 ( ) Fraca
        ( ) Muito boa                 ( ) Regular

Modelo 3 – Opções dispostas em três colunas – ordenação horizontal

        ( ) Excelente                 ( ) Muito boa                 ( ) Boa
        ( ) Regular                     ( ) Fraca

Modelo 4 - Opções dispostas em três colunas – ordenação vertical com números

        ( ) 1 Excelente                 ( ) 3 Boa                 ( ) 5 Fraca
        ( ) 2 Muito boa                ( ) 4 Regular

Perguntinha para você, interessado leitor: você acha que os resultados foram idênticos nos quatro grupos?

De novo, aposto que você disse que não. Aliás, mesmo que você não tivesse dito nada, vamos combinar: da forma como eu fiz a pergunta, a resposta mais provável era “não”, não é mesmo? Mas a que conclusão se chegou no estudo?

Bem, a verdade é que, embora alguns resultados não tenham diferido significativamente, outros apresentaram diferenças consideráveis. Só para dar um exemplo, a avaliação do curso por quem respondeu no Modelo 3 foi melhor do que quem respondeu no Modelo 2. Por que será?

Uma explicação possível (e boa) é que o olhar dos respondentes é mais atraído pela primeira linha do que pela segunda. Ora, como no Modelo 3 (que ordena as categorias na horizontal) as três categorias favoráveis estão lado a lado na primeira linha, a frequência de marcação dessas respostas foi maior do que no Modelo 2 (ordenação vertical), em que a categoria “Muito boa” aparece na linha de baixo. Um “detalhezinho” que pode fazer toda a diferença!

Vale ressaltar, atento leitor, que os cuidados com a linguagem gráfica nos questionários não se limitam a questões de espaçamento entre alternativas. Você já deve ter visto questionário coloridos, não? Eles podem até ser esteticamente agradáveis de se ver, mas quem os projeta deve tomar um cuidado enorme para não sinalizar o que não quer... justamente por causa das cores que usa!

Um exemplo batido é o das escalas de satisfação. Não é raro vermos as opções “Muito insatisfeito” e “Insatisfeito” pintadas de vermelho, e as opções “Muito satisfeito” e “Satisfeito”, pintadas de verde. OK; e quanto à opção intermediária (“Nem satisfeito nem insatisfeito”)? De que cor deveria ser pintada?

Bem, não quero aqui definir uma cor da minha cabeça. Quero é dizer que já vi questionários desses em que a opção intermediária foi colorida de laranja. Cabe, então, a pergunta: será que aquele laranja, por estar muito mais próximo dos tons vermelhos do que dos verdes, não estaria subliminarmente fazendo com que o respondente percebesse, de modo inconsciente, aquela opção como levemente negativa, em vez de neutra, como deveria ser?

Não sei responder à pergunta acima; só poderia afirmar qualquer coisa ao certo depois de testar a escala junto ao público da pesquisa. O quer posso é lançar uma sombra de desconfiança sobre a decisão de se pintar uma opção de resposta com uma cor sem uma pesquisa prévia.

Espaçamento, quebra de linhas, cores. Tudo o que vimos nesta Dica nos ensina algo importantíssimo: se estivermos trabalhando com escalas em que a ordem das opções de resposta seja crucial (como nas chamadas escalas ordinais ou intervalares, que aparecem definidas adiante), não devemos usar uma disposição gráfica dessas opções que interfira na lógica da continuidade da ordenação, pois, agindo assim, estaremos mandando a desejada continuidade para o espaço, e com ela a validade dos resultados obtidos na nossa pesquisa.

Antes de encerrarmos esta longa Dica, vale a pena apresentarmos um resumo dos seus dois ensinamentos. Às vezes trabalhamos com escalas ordinais (aquelas em que as opções de resposta guardam uma ordenação – do pior para o melhor, do menos provável para o mais provável, etc.) e às vezes, com escalas intervalares (aquelas em que, além de ordenadas, as opções de resposta guardam um intervalo constante entre si). Assim, quando estivermos trabalhando com esses tipos de escalas, temos três cuidados fundamentais a tomar:

1º) manter o espaçamento físico entre as categorias, seja o questionário impresso em papel ou apresentado numa tela de computador, sobretudo se a escala for intervalar;

2º) apresentar as opções numa linha única – seja horizontal ou vertical –, sem quebras, de modo a não violar a noção de continuidade que essas escalas encerram;

3º) em caso de questionário colorido, atentar para que a escolha das cores não interfira na característica da escala empregada para a resposta.

Teste Teste Teste