– Você já pescou tartarugas?

– Não, não gosto de sapato fechado.

– Por que, então, você é careca?

– Porque o caranguejo anda de lado.

Entendeu o diálogo acima, intrigado leitor? Se entendeu, pode interromper a leitura deste blog aqui mesmo, que ele não vai servir para você (se quiser, posso lhe dar uns nomes e telefones que lhe serão bem mais úteis). Se não entendeu, ótimo: é com você mesmo que eu queria falar.

Excetuando o mundo das artes, o dos sonhos e o que povoa a cabeça de algumas celebridades, o mínimo que a gente espera na vida é um pouco de coerência, não é? Num questionário de pesquisa não haveria de ser diferente. Na Dica nº 52, eu destaquei a importância da ordenação dos blocos de perguntas segundo um critério lógico. Mas a necessidade de uma lógica interna de um questionário não é um imperativo exclusivo de questionários que contêm blocos; mesmo em questionários curtos, nos quais nem faz sentido pensar em compor blocos, a lógica é obrigatória.

Confesse aí, envergonhado leitor: você achou essa recomendação trivial, básica, supérflua e desnecessária, não achou? Eu concordaria com você nos dois primeiros adjetivos, mas só neles. A recomendação seria supérflua e desnecessária caso não víssemos exemplos desse tipo de erro em questionários reais (isto é, não extraídos de livros-texto ou de exercícios feitos por principiantes, mas sim encontrados na prática). Por mais incrível que possa parecer, questionários ilógicos são impressos e distribuídos a clientes, fornecedores, parceiros...!

Que consequências isso pode trazer?

A não-resposta poderia ser uma delas; respostas dadas de qualquer jeito, outra. Má impressão causada no cliente? Provavelmente. Geração de má vontade dele também (desordem nas questões desafia a paciência dos respondentes). Seja quais forem as consequências, quem encomendou a pesquisa (teoricamente quem mais deveria ter interesse nas respostas dos clientes) só sai perdendo.

Assim, esteja sempre atento para não cair nesse erro. Procure organizar as perguntas no seu questionário de forma que, na medida do possível:

  • assuntos semelhantes fiquem próximos;
  • não haja súbitas mudanças no fluxo do questionário;
  • não haja constantes alternâncias entre perguntas simples e complexas;
  • as escalas empregadas não variem de pergunta para pergunta;
  • não haja desencontro entre a pergunta feita e as opções de resposta fornecidas;
  • as opções de resposta guardem uma ordem, sempre que aplicável;
  • se houver uma pergunta-filtro (ver Dica nº 47), que haja a sequência natural desse filtro;
  • etc.

Esse “etc.” aí em cima foi proposital; o que eu quis dizer com ele foi: muito além dos itens listados, mantenha sempre o bom-senso!

Permita-me, interessado leitor, dizer duas palavrinhas a respeito das perguntas-filtro, que mencionei há pouco. Como visto na Dica nº 47, esse importante recurso permite ao redator do questionário direcionar aos respondentes apenas as perguntas que lhe cabem responder. Bem, isso tem tudo a ver com lógica, coerência e organização – temas que estamos discutindo nesta Dica. Imagine o seguinte diálogo:

– Você já comeu jiló?

– Não, nunca.

– Gostou?

Papo de maluco, né? Pois é exatamente o que o respondente pensa quando é levado a responder perguntas que não deveriam ter sido feitas a ele (isso quando não pensa que quem elaborou o questionário é um incompetente). Pudera: a orientação sobre a pergunta para onde ele deveria seguir, de acordo com a sua resposta (a chamada orientação de desvio ou de salto), ou não lhe foi dada ou foi dada com erro. E isso é inaceitável.

Fechando: nos questionários de pesquisa, a necessidade de lógica e coerência existe sempre. E vale para tudo: para a ordem dos assuntos, das perguntas e das opções de resposta, para as orientações de desvio, etc.

Se você não costuma ter conversas de louco, como a que abre esta Dica, não vai redigir questionários sem pé nem cabeça como ela, vai?

Teste Teste Teste