Este fenômeno é ligeiramente diferente do tratado no Fique Esperto nº 1. Em ambos os casos, as pessoas dão respostas sem sentido e/ou inúteis. A diferença é que, no caso anterior, elas têm consciência de que não entenderam o que lhes foi perguntado e que não sabem o que responder. Aqui, ao contrário, elas respondem com segurança à pergunta que elas entenderam que lhes foi formulada. Só que a pergunta foi outra.

Um exemplo: suponha que um fabricante de produtos de limpeza esteja querendo saber alguma coisa acerca do uso de detergentes pelas donas de casa brasileiras (quando, onde e com que frequência usam, quais são as marcas conhecidas e as marcas preferidas, etc.). No questionário de pesquisa, a empresa emprega o termo “detergente” sem maiores preocupações. Quando saem os resultados, a incredulidade: não é possível! Só pode haver um erro; o resultado choca-se com vários outros, já conhecidos há muito tempo pelo fabricante. O que poderá ter acontecido?

O que pode ter acontecido foi uma simples divergência de entendimento do que seja um detergente! Para o fabricante, um detergente é uma substância tensioativa, ou surfactante, formada por moléculas anfipáticas, isto é, que possuem uma cadeia apolar e uma cabeça polar, o que faz com que o detergente interaja tanto com a gordura (parte apolar) quanto com a água (parte polar).

Entendeu alguma coisa? Nem eu! As donas de casa a quem foi feita a pergunta também não! Para elas, detergente é aquele líquido que elas usam na cozinha, para lavar louças e panelas, e ponto. Para o fabricante, pode ser isso, mais um monte de outras coisas, como as substâncias usadas nas máquinas de lavar roupa e louças, os desengordurantes usados na limpeza de pisos, azulejos e bancadas, os desengraxantes, usados na limpeza de automóveis e garagens e por aí vai.

Ou seja: o questionário continha um termo que era entendido de uma forma por quem formulou a pergunta e de outra por quem a respondeu. Nesses casos, por maior que seja a sinceridade e a certeza do respondente, sua resposta fica longe de atender ao que o fabricante deseja saber.

Uma coisa engraçada para divertir: recentemente assisti a um videozinho no YouTube, no qual uma entrevistadora perguntava a uma série de pessoas o que elas fariam se descobrissem que seu filho era usuário do Twitter. Nenhum dos entrevistados fazia ideia do que era o Twitter, mas nenhum se furtou a responder, o que levou a respostas estapafúrdias... e hilárias. Tudo bem, que a amostra entrevistada era nitidamente composta de gente humilde e de baixa escolaridade, mas acredite: a propensão em responder sem saber direito o assunto não se restringe às classes baixas.

Uma palavrinha final sobre o assunto: não pense que divergências de entendimento só acontecem em casos de termos que admitem uma acepção técnica, um jargão, uma novidade tecnológica ou coisas assim. Para você ter uma ideia, o público-alvo da sua pesquisa pode entender de forma diferente de você palavras inocentes, como “governo”, “povo”, “trabalho”, “negócios”, “tarifa”, “dormitório”, “rico”, “pobre”, “jovens”, “pessoas mais velhas”, “família”, “esportes radicais”, “arte”, “delicadeza”, etc.

Lição que fica: ao elaborar um questionário, NUNCA suponha que o público de interesse da pesquisa conhece tanto sobre o assunto quanto você, ou mesmo que “fala a mesma língua” que você. Se desconsiderar essa regra de ouro, você poderá estar dando um grande passo para um fracasso retumbante da sua pesquisa.

Outra lição sobre o mesmo assunto: embora, em qualquer pesquisa, uma quantidade muito grande de respostas “não sei” seja um problemão para o pesquisador, o que se conclui, por este Fique Esperto, é que isso não quer dizer, de jeito nenhum, que uma pequena quantidade de “não sei” seja uma indicação de boa qualidade da pergunta.

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