Uma coisa muito comum em questionários de pesquisa é sermos indagados sobre o que achamos de certos produtos, marcas, hábitos; ideias, etc. Muitas vezes, o que os pesquisadores querem saber, com essas perguntas, é o que pretendemos fazer a respeito: vamos aumentar a frequência de uso daquele produto? Vamos experimentar aquela nova marca? Vamos deixar de lado aquele hábito? Vamos difundir aquela ideia?

Ocorre que, entre tomar conhecimento do que alguém pensa a respeito de uma coisa e saber o que esse alguém pretende efetivamente fazer com a tal coisa, vai a distância de um oceano. Um exemplo manjado é o do cigarro: você pergunta a um fumante o que ele sabe a respeito dos efeitos do cigarro sobre o organismo. O indivíduo te dá uma aula: fala sobre hipertensão, infarto, aterosclerose, bronquite, angina, enfisema, câncer, o diabo. E aí: isso te dá o direito de concluir que ele pretenda parar de fumar? Melhor não pôr a mão no fogo, né?

Aí você argumenta: “Mas espera aí: em vez de eu perguntar o que ele sabe ou acha sobre o cigarro, eu posso perguntar diretamente se ele pretende parar de fumar nos próximos meses”! Claro que pode. Pergunte, então. Pergunte se ele pretende parar de fumar nos próximos seis meses; aproveite e pergunte a outras pessoas se pretendem viajar para o exterior no ano que vem; trocar de carro; mudar de emprego; equilibrar melhor as refeições; ser mais tolerante nas relações pessoais; passar mais tempo com a família; praticar mais exercícios físicos... Pergunte tudo isso e, depois de uns meses, volte às pessoas que responderam “sim” a tudo e veja quantas delas mudaram um milímetro do que eram quando responderam essas coisas bonitas.

Não, amigo leitor, nem fazendo perguntas que procuram investigar intenções de comportamento, em vez de opiniões, você consegue saber, com um mínimo de certeza, o que o seu público de interesse vai de fato fazer. Veja bem: não estamos aqui dizendo que as pessoas mentem descaradamente quando respondem a questionários (podem até fazer isso, mas não existe uma predisposição de enganar o pesquisador, de melar a pesquisa, nem nada parecido). Elas podem acreditar piamente naquilo que estão dizendo naquele momento; podem estar realmente pretendendo fazer tudo aquilo que dizem pretender fazer. Mas não o fazem. Primeiro, os entrevistados não têm nenhum compromisso com a resposta que estão dando a você; segundo, eles podem até desejar, de coração, fazer o que dizem que pretendem ou desejam fazer, mas, entre intenção e gesto, mil fatores intervenientes podem se impor: eles não tiveram o tempo ou o dinheiro que achavam que teriam; eles conheceram uma alternativa melhor; eles mudaram de opinião desde a época da realização da sua pesquisa; eles passaram a sofrer algum tipo de pressão social ou psicológica no sentido contrário ao que haviam declarado... as causas são infinitas.

Lição que fica: Quando for analisar os resultados de uma pesquisa que contenha perguntas sobre intenções de comportamento, devagar com o andor! Na grande maioria das vezes, respostas favoráveis a esse tipo de pergunta revelam mais uma predisposição do entrevistado quanto ao objeto da pesquisa do que realmente um indício de comportamento. Muito cuidado para não interpretar uma coisa pela outra. Se o que você quiser fazer é avaliar comportamentos, muito provavelmente vai precisar de outro tipo de pesquisa, isto é, de uma que não se baseie em respostas dadas a perguntas de um questionário.

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