No Fique Esperto nº 4, apontei a dissociação que muitas vezes se observa entre intenção e gesto. Agora vou mais fundo: pretendo apontar a instabilidade que se observa em meio ao próprio conjunto de opiniões dos indivíduos! O que eu quero dizer é que, mesmo quando não há nenhuma alusão a intenção de comportamento – seja no nosso questionário, seja nas manifestações dos indivíduos pesquisados –, pode existir (e com frequência existe) certa incoerência, inconstância ou volubilidade no conjunto de respostas dos nossos entrevistados. Isso pode ser efeito de vários fatores. Alguns deles são os seguintes:

- o tempo: ao aplicarmos um mesmo questionário a um mesmo conjunto de pessoas em dois momentos distintos, podemos encontrar opiniões diferentes acerca de um mesmo assunto. Entre os dois momentos, os indivíduos pesquisados podem ter passado por experiências pessoais ou coletivas que os fizeram pensar de modo diferente e mudar de opinião;

- o processo de memorização das pessoas: quantas vezes já lhe aconteceu de ouvir alguém relatar – às vezes com detalhes – alguma coisa que você teria dito ou feito, e você não se lembrar absolutamente? Se as pessoas não se lembram de tudo o que elas próprias disseram ou fizeram (ou se têm apenas lembranças vagas a respeito), imagine perguntar a elas os motivos daquelas ações! É claro que a memória irá traí-las e, se esse for esse o caso na hora de responder a uma pergunta de um questionário, a resposta pode ser diferente da que a pessoa deu no passado ou que daria daqui a um tempo;

- influência de perguntas anteriores do mesmo questionário: dependendo do ponto do questionário em que uma pergunta é colocada, as respostas dos entrevistados podem mudar. No começo do questionário, eles ainda não foram mergulhados tão fundo no assunto da pesquisa, como acontece quando a pergunta se encontra no meio ou no fim do questionário. Isso significa que, quanto mais para o final do questionário estiver situada uma pergunta, maior tende a ser a influência de tudo a que o respondente foi exposto ao ouvir – e responder – as perguntas anteriores.

Lição que fica: Nunca espere coerência total nas respostas dos indivíduos às suas pesquisas. As pessoas podem parecer volúveis nas suas respostas a questionários, não porque tenham em mente algum plano maligno, como o de sabotar a sua pesquisa, mas simplesmente porque não são imutáveis como um bloco de concreto ou uma montanha. Tenha em mente uma coisa muito importante, amigo leitor: observar certa incoerência nas respostas dos indivíduos pesquisados pode ser tão ou mais valioso para um pesquisador do que observar uma coerência total. Afinal de contas, quem não gostaria de conhecer muito bem e a priori o terreno onde irá pisar?

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