É famoso e muito ilustrativo o trio de perguntas feitas pelo Instituto Gallup ao povo americano em 1945, acerca da ideia de concessão de um seguro-desemprego no pós-guerra. Vale a pena lermos as três perguntas com atenção.

1) “Você acha que o governo deveria dar dinheiro aos trabalhadores desempregados, por um período limitado, até eles encontrarem um novo trabalho?”

2) “Segundo uma proposta existente, trabalhadores desempregados com dependentes receberão um total de 25 dólares por semana por até 26 semanas num mesmo ano, enquanto estiverem sem trabalho, em busca de uma nova colocação. Você apoia ou se opõe a essa ideia?”

3) “Você estaria disposto a pagar um imposto mais alto para que se possa dar até 25 dólares por semana, durante 26 semanas, às pessoas, caso elas não consigam encontrar empregos satisfatórios?”

Os resultados encontrados pelo Gallup foram:

- Pergunta 1: “Sim” = 63%;
- Pergunta 2: “Apoio” = 46%;
- Pergunta 3: “Sim” = 34%.

Bem diferentes, não é? Você se surpreende com isso?

Se se surpreende, não deveria: trata-se de perguntas com enunciados bastante diferentes! Surpresa seria se as respostas fossem parecidas! Veja só: a primeira pergunta é totalmente genérica. Não menciona quantias nem tempo; quanto à origem do dinheiro a ser distribuído, é essa coisa meio fluida e indefinida chamada “governo”. A segunda pergunta é bem mais específica; agora se informa claramente a ordem de grandeza da quantia a ser concedida, assim como o tempo aproximado em que isso se daria. Só aí, o apoio à ideia já caiu mais de 25%. Na terceira pergunta, por fim, aparecem duas importantes novidades: o benefício seria concedido enquanto os desempregados não conseguissem empregos satisfatórios (ou seja, o tempo de desemprego poderia ser maior) e... “Epa! Estão metendo a mão no meu bolso! Eu é que vou pagar por isso???!!!”

Trata-se de três universos diferentes, concorda?

Outro exemplo: recentemente tivemos, aqui no Brasil, um final tumultuado do Campeonato Brasileiro de Futebol: o time X, que havia chegado ao fim do Campeonato com uma quantidade de pontos que lhe assegurava a permanência na Série A do ano seguinte, acabou perdendo pontos no Tribunal de Justiça Desportiva em razão de ter escalado irregularmente um jogador numa partida. Em função disso, o time entrou na zona de rebaixamento para a Série B, o que beneficiou o time Y, que lá se encontrava, pois, com os pontos que tinha, voltou a integrar a Série A. O que será que os torcedores e os aficionados por futebol em geral acharam disso? Não sabemos se foram feitas pesquisas sérias a respeito com eles, mas imagine que tenham sido feitas a eles as duas perguntas seguintes:

1) “Você acha que o time X mereceu cair para a Série B?” e

2) “Você acha que o time Y mereceu voltar para a Série A?”

Eu me arriscaria a afirmar que as duas receberiam respostas diferentes. Repare que, a rigor, nós estaríamos perguntando coisas diferentes mesmo!

Por mais que precisemos chamar a atenção para a necessidade de um grande cuidado na formulação das perguntas, é preciso, por uma questão de justiça, reconhecer que nem sempre toda e qualquer alteração no fraseado da pergunta vá gerar respostas muito díspares. As duas perguntas a seguir, de novo referentes ao subsídio governamental aos necessitados nos Estados Unidos, dão um bom exemplo disso:

1) “Você acha que o governo deveria ou não prover o sustento das pessoas que não têm outro meio de subsistência?” e

2) “Você acha que é responsabilidade do governo bancar o custo de vida dos necessitados que se encontram fora do mercado de trabalho?”

Essas perguntas foram feitas numa pesquisa real. A julgar pelo que eu acabei de dizer, era de se esperar um par de resultados bem distintos, não? Mas não foi o que aconteceu. Ambas as perguntas receberam o mesmo percentual (69%) e concordância. Por que será, já que elas nitidamente não são idênticas? Provavelmente pelo fato de serem genéricas. Quanto mais específica é uma pergunta, menor é a chance de perguntas com enunciados diferentes obterem as mesmas respostas.

Lição que fica: pergunte especificamente o que você deseja saber. Não enfeite o pavão nem dê voltas. Se você está fazendo uma pesquisa de clima organizacional e quer saber, de uma equipe, se Fulano é um bom gerente, pergunte exatamente isso, e não se ele fez um bom trabalho no ano ou se ele se alinha às diretrizes da companhia. Quanto mais específica for a sua pergunta, maiores as chances de você receber respostas que de fato lhe interessam.

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