Se você acha que, cuidando da ordem das perguntas do questionário, não precisa se preocupar com mais nada que diga respeito a ordenação, sugiro que dê uma paradinha, vá lá dentro e tome um copo d’água antes de prosseguir. Pronto? Tomou? Então, segure esta: a ordem das opções de resposta também pode afetar a resposta do público-alvo da sua pesquisa.

Hã? Quê? Ordem das opções?! Que papo é esse?

Bom, há uma série de fatores a se considerar aqui. Primeiro: o questionário vai ser autoadministrado – isto é, lido e respondido pela pessoa pesquisada – ou haverá algum entrevistador lendo as perguntas? Isso faz diferença. Por exemplo, se as opções de resposta forem lidas por um entrevistador, entra em cena uma coisa chamada memória auditiva. É possível que aconteçam duas coisas completamente diferentes: a) a pessoa pesquisada acabe optando por uma das primeiras opções, seja porque foi impactado por elas ou porque se desconcentrou ao longo da leitura das demais; b) o “nosso amigo” pode também escolher uma das últimas opções, retidas pela sua memória auditiva, que é o que em geral acontece quando a lista é extensa.

Se não há a figura de um pesquisador que lê as perguntas para o entrevistado e anota as suas respostas, e é o próprio indivíduo pesquisado quem lê, escolhe e assinala as respostas, é muito comum que ele, ao passar os olhos pelas primeiras opções de resposta, marque logo a primeira que se aproxime daquilo que pensa – ocorrência para lá de indesejável, especialmente comum em longas listas de opções.

Seja como for – lidas ou ouvidas –, as opções de resposta devem ser apresentadas numa ordem sensata. Por exemplo, se houver opções mais socialmente desejáveis do que outras, elas devem preferencialmente ir para o final, de modo a se reduzir a chance de desvios (se você não atentar para isso, corre o risco de as pessoas escolherem essas opções “de cara”, sem sequer ouvir toda a lista).

Ahn? O que são respostas socialmente desejáveis? Ih, amigo leitor, um monte de coisas: apoio a causas humanitárias, divisão de tarefas domésticas com o cônjuge, hábitos de saúde, afirmações sobre autoestima, quantidade de parceiros sexuais, uso e drogas ou de bebidas alcoólicas, etc. – só para ficar em alguns exemplos.

Em alguns textos, você vai encontrar a seguinte recomendação: “se o questionário for autoadministrado, convém listar as opções em ordem alfabética, para que o respondente encontre a(s) que melhor retrate(m) a sua resposta”. Não concordo 100% com essa recomendação; depende do caso. Não é raro termos perguntas no questionário com 10 ou 20 opções de resposta. Um exemplo: numa pesquisa feita junto a alunos da 3ª série do Ensino Médio, uma universidade pediu aos respondentes que indicassem os principais fatores que os levavam a escolher uma universidade. As opções de resposta eram nada menos do que 30 (preço, tradição, grau de exigência nos estudos, desempenho no Enade, posições atualmente ocupadas por ex-formandos, etc.). O que você acha que aconteceria se essa lista fosse apresentada em ordem alfabética (ou em outra ordem qualquer)?

Muito simples: boa parte das pessoas leria com atenção as primeiras opções e tenderia a passar batido pelas demais! Ou seja: haveria o risco de predominância de escolha das primeiras opções. Sabe como nós podemos contornar o problema? Fazendo um rodízio das opções! A cada respondente, a ordem das respostas muda. Isso é mais fácil de se fazer quando o questionado é aplicado por meio de um sistema computadorizado, mas é possível ser feito também com questionários impressos.

Lição que fica: a menos que haja uma ordem “natural” nas opções de resposta às perguntas do seu questionário (por exemplo: “menos de uma vez por mês” / “de 1 a 2 vezes por mês” / “de 3 a 6 vezes por mês” / “de 7 a 10 vezes por mês” / “mais de 10 vezes por mês”), fique sempre atento: não permita que a ordem das respostas conduza o respondente para um caminho que seria outro, caso a ordem fosse alterada.

Teste Teste Teste